quarta-feira, março 26, 2014

A diplomacia do Brasil

O "Público" insere hoje um artigo de Adriana Erthal Abdnur sobre a política externa brasileira, que julgo deveria merecer alguma reflexão. Nesse texto, é sublinhado que o Brasil se afasta cada vez mais de uma agenda "ocidental", de que o caso mais recente é a sua rejeição das sanções à Rússia, por virtude da intervenção na Crimeia. Essa posição, na perspetiva da articulista, culminaria uma deriva "sulista" que, cada vez mais, marca a agenda do Itamaraty.

Há muitos anos que reflito sobre isto e digo aos meus amigos brasileiros que eles estão a cumular dois obstáculos à sua mais do que justa reivindicação para acederem a um lugar de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.

O primeiro obstáculo vem dos países do Norte. O alargamento do CSNU a novos países do Sul (consideremos "do Sul" a China e a Rússia) só poderá ter lugar se e quando tal inclusão se fizer de molde a não desequilibrar o atual sentido tendencial de voto no seio do Conselho. Para ser mais claro: só entrará para o CSNU um país do Sul que, no limite, dê garantias sólidas de que manterá uma orientação pelo menos neutral face à conjugação "ocidental" de interesses representada pelos EUA, Reino Unido e França. É injusto? É, mas é assim. Ora, a "excessiva" coreografia da diplomacia brasileira, que já deu sinais "negativos" quanto à questão nuclear no Irão e agora se indicia crítica na sensível questão ucraniana, funciona em claro desfavor das ambições do Brasil.

Mas o Brasil tem também "amigos de Peniche" nos restantes membros do Conselho. Rússia e China estão muito pouco interessados em deixar de ser os únicos a "representar" o Sul neste âmbito, com tudo o que significa de influência junto do "grupo dos 77" - para simplificar, os antigos "países não alinhados". Moscovo pode ter ficado grata com o gesto de Brasília, mas isso nem sequer lhe garante a boa vontade de Pequim. Talvez antes pelo contrário.

Não obstante o esforço voluntarista feito na elevação da sua voz diplomática um pouco por todo o mundo, o trabalho notável na Organização Mundial de Comércio e outras agências multilaterais, a sua constante atenção às operações de paz da ONU, o seu cuidado com as diversas agendas regionais (América do Sul, mas também Médio Oriente e outras), creio que o Brasil tem hoje à sua frente alguns obstáculos sérios nesse seu objetivo de ganhar a consagração institucional suprema à escala global. 

Um amigo diplomata brasileiro, muito crítico da atual linha política, dizia-me, já há anos, que o Brasil mantinha uma "diplomacia adolescente" - pela sua excessiva ambição, pela sua frequente precipitação, pela ânsia de pretender "ir a todas". Ele era capaz de ter alguma razão, embora eu considere que a "juventude" não é nada que se não cure com o tempo.

E, já agora, uma nota de sentido egoísta: Portugal tem tudo a ganhar e nada a perder com uma "subida" do Brasil na escala global das nações. Um dia posso explicar isto com mais pormenor, mas parece-me uma evidência.

12 comentários:

  1. Que saudades eu tenho dessas fantásticas escadas, uma dentro de outras maravilhas do interior do Itamaraty. Oscar Niemeyer no apogeu!

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  2. Tatas17:19

    Senhor embaixador, os meus parabéns pela excelente análise.

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  3. Belo texto, meu caro Francisco!
    Diria mesmo mais: exemplar análise da política externa brasileira.
    E tem toda a razão, o artigo de Abdnur merece reflexão.

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  4. Anónimo19:24

    Como Dupont eu diria ainda mais: sem o Brasil a puxar pela liderança da CPLP ela dificilmente se afirmará. Pena que Portugal não possa deslocar agora a capital do seu império para o Sul. Embora o Brasil esteja agora mais tentado pelo império americano...

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  5. Anónimo20:44

    Senhor Embaixador

    Concordo com a análise da articulista.

    O Brasil está a tomar desnecessariamente uma posição anti-ocidente, renegando a sua própria cultura, história e interesses.

    Considero importante que o Brasil venha a ser membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas (conjuntamente com a Índia), mas não creio que tal objectivo seja possível com a política externa que agora está a seguir.

    LBA

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  6. Embaixador,

    Reflito muito sobre os caminhos externos de meu país. E acho que as formulações da PEB ainda não se democratizaram. Basta ver a obsessão com o CSNU é transmitida a população, mas nunca se explica que isso trará custos, inclusive de vidas humanas. De todo modo a atual gestão esfriou essa agenda e a proclamada liderança regional foi posta em cheque por um sistema de alianças que abriu mão do pragmatismo.

    De todo modo sua nota é muito pertinente e vou republicar em meu blog, por que é desapaixonada o que ajuda muito o debate.

    Abraços

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  7. choca-me p ex a orientação que está a ser dada pelo brasil em relação ao que se passa na venezuela, onde a democracia deixou simplesmente de existir. a cumplicidade do brasil, ou de dilma, opondo-se p ex a que a situação dos dh na venezuela seja livremente debatida na oea, tentando fechar os olhos ao que ali se passa, é algo de escandaloso.
    uma opositora venezuelana corina machado, um dos poucos deputados da oposição eleitos que ainda mantêm o seu lugar no parlamento do país (mas o governo já avisou que a vai impedir de exercer o mandato)dirigiu se a dilma roussef e disse-lhe que se lembrasse dos tempos em que ainda não era rousseff mas só a activista dilma, torturada no brasil anterior, ao actuar agora assim em relação ao regime de maduro e à repressão que usa actualmente.
    o brasil segue noutros campos e áreas e em relação a outros acontecimentos internacionais uma estranha orientação na sua politica externa, aliás já iniciada com lula da silva, falo da externa, não da politica interna.

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  8. Nobre Embaixador, o Brasil quer alcançar o Conselho de Segurança para defender os seus interesses e os do bloco que compõe. Fazer parte do Conselho pra defender o interesse dos outros não tem utilidade mais do que decorativa. Essa não nos interessa.

    P.S.: aos colegas comentaristas, continuar fazendo profissão de fé nas "revoluções" coloridas depois das revelações do wikileaks e Snowden representa uma ingenuidade inapropriada à análise do cenário internacional.

    Um abraço a todxs.

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  9. O Brasil para sair do quintal dos EUA precisa de criar a sua propia agenda e tem que ser com paises do Mercosul, India, Irao,Turquia, A.Sul e mais ligação a UE.

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  10. Anónimo22:01

    As NU e o seu CS estão, há muito desactualizados.
    O Brasil, como país soberano, faz as escolhas que bem entender. Está no seu pleno direito.
    O Brasil tem hoje uma relação especial com a Rússia, China, Índia, África do Sul, etc, ainda bem! E mais distanciada dos EUA e UE? Ainda bem!
    Ou deveria preferir ter essas relações especiais com os EUA, o RU e a França, para merecer um lugar no CS?
    As NU e o seu CS há muito que deveriam ter sido reformulados. O Brasil e os outros países que aqui se enumeram deveriam ter o seu lugar no CS.
    Ser parte do CS para lamber as botas dos EUA, que fomentaram e financiaram (CIA) os golpes de estado do tempo da Ditadura Militar, ou aceitar um papel subserviente, não faz sentido.
    O que é de espantar é este texto, deste Post. Vindo de quem vem! Quanto mais vou lendo este Blogue e o seu autor, mais chocado e surpreendido vou ficando! É inacreditável o que se vai aqui dizendo e defendendo!
    Estes dois exemplos do Irão e da Ucrânia são igualmente espantosos!
    No caso do Irão, contraporia: e Israel, que é suposto possuir armamento nuclear, pode estar na sua posse? E outros países com capacidade nuclear, podem continuar a possui-la? E Guantanamo, pode continuar a estar ocupado pelos EUA?

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  11. O sectarismo conduz, por vezes, a uma forma simploria de analfabetismo politico. Defini no texto os condicionamentos que limitam a margem de manobra do Brasil. Fui interpretado como subscrevendo esses "argumentos". Que se há-de fazer! Cada um lê o que quer...

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  12. Nobre embaixador, a teoria da análise do discurso não encaixa muito bem com as filigranas argumentativas do meio diplomático ;)

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