O Miranda era um "velho primeiro-secretário". Este conceito "de corredor", por esses anos 70, abrangia quantos se eternizavam na categoria que antecedia a ascensão a conselheiro - a partir da qual, à época, se podiam chefiar missões diplomáticas "com credenciais de embaixador". Porém, o concurso para conselheiro era muito limitado, o que criara uma multidão de "velhos primeiros-secretários".
O nosso Miranda tinha vindo da América Latina, por onde andara em mais do que um posto. Essa era uma zona geográfica em que o regime anterior apostara bastante, por ser terreno fértil para colheita de apoios para a impopular política colonial. Contudo, na hierarquia psicológica dos postos que a carreira alimentava, o continente latino-americano, com exceção do Brasil, não fazia parte dos destinos profissionais de maior prestígio, o que também marcara o percurso do Miranda, que agora fora parar à nossa Repartição.
A Repartição tinha um chefe e, abaixo dele, não havia qualquer hierarquia formal, exceto a antiguidade. E nesta, por razão óbvia, o Miranda imperava sobre nós, funcionários que nunca tinham sido colocados no estrangeiro. Por isso, partindo o chefe de férias, o Miranda assumia a direção da Repartição. E assim aconteceu, num certo dia.
Na manhã seguinte, ao chegar à minha secretária, dou de caras com uma pilha de documentos "para dar andamento", muito superior à média habitual. Fui ver e dei-me conta que parte substancial da papelada era do pelouro do Miranda. Procurei-o na sua sala, mas não estava. Lembrei-me então de ir ao gabinete do chefe da Repartição.
E lá estava o Miranda, com os pés sobre a mesa, regalado a ler o "Diário de Notícias" a que função dava direito. Perguntei-lhe por que diabo tinha canalizado todos os papéis do seu pelouro para mim. A sua resposta, marcada pela surpresa, foi cristalina: "Ó homem! Eu agora estou a chefiar!"
