Marcello Duarte Mathias é, para além de um amigo e colega diplomata, um excelente escritor. De quem creio ter lido tudo quanto publicou em livro.Ontem, na Fundação Gulbenkian, aqui em Paris, foi lançado "À contre-jour: journal 1962-2008", uma selecção dos seus vários diários, editado na "La Différence", por essa personalidade a quem a cultura portuguesa em França muito deve, que se chama Joaquim Vital.
Um público interessado, entre o qual tive o prazer de me contar, ainda mal refeito do "jet lag" transatlântico, seguiu a apresentação feita por Catherine Dumas, também tradutora, tendo ouvido extractos lidos por Jean-Luc Debattice.
Marcello é autor de uma escrita culta, onde há muito de Camus e de um decantar crítico, às vezes algo cruel mas sempre inteligente, da sua experiência de vida, feita por alguns locais que também me coube em sorte frequentar, como Nova Iorque, Brasília ou Paris. Mas foi, sem dúvida, Paris, onde estudou, quando o seu pai por aqui foi embaixador, por quase duas décadas, a cidade que o terá marcado. E onde terminou a sua carreira, como embaixador junto da UNESCO. Talvez por isso, nas palavras que proferiu, retomou como sua a frase de Thomas Jefferson: "Tout homme a deux patries: la sienne et la France".