domingo, 21 de janeiro de 2018

Qual é a pressa?


Há um escândalo - um imenso escândalo! - que ocorre todos os dias nas nossas estradas e auto-estradas, um pouco por todo o país, mas com uma incidência muito particular na zona de Lisboa. E desse escândalo ninguém fala, porque é um tema em que PS, PSD e CDS mantêm um entendimento perfeito, sobre o qual paira um “omertà” de que, estranhamente, a comunicação social é cobardemente cúmplice.

Esse escândalo, esse atentado à segurança de pessoas e bens, é praticado impunemente pelos motoristas dos presidentes da República, dos presidentes da Assembleia da República, dos primeiros-ministros e de quase todos os membros de todos os governos que, por uma qualquer “bula” legal, cuja racionalidade ninguém entende mas também ninguém questiona, se permitem andar pelo país a velocidades astronómicas, às vezes colando o ponteiro aos 200 km/h, pondo em risco a vida de cidadãos inocentes que não têm a menor culpa de que as equipas de “Suas Excelências” não saibam construir as respetivas agendas com tempo e horas. E atrás desses dignitários, lá vão, à mesma velocidade, os carros com chefes de gabinetes, assessores, adjuntos e “tutti quanti” figuras da corte do poder de turno.

No passado, certos membros do governo usavam mesmo, com regularidade, sirenes nos seus carros e há quem se recorde que alguns vinham de Cascais para Lisboa, todas as manhãs, a ultrapassar loucamente em risco contínuo, com um lampião amarelo colocado no tejadilho, qual ambulâncias a caminho das urgências. Hoje, parece que só se usam umas luzes azuis intermitentes, que sentimos no retrovisor quando esses loucos carros oficiais se nos aproximam nas estradas.

Não estou a falar de caravanas oficiais, em determinados momentos de Estado, ou de missões oficiais estrangeiras. Refiro-me a deslocações de rotina, no dia-a-dia, na ida e volta a uma iniciativa a Mortágua ou a Almodôvar ou a A-da-Gorda. Que necessidade há de conduzirem a alta velocidade?

Este é um escândalo de sempre, que tem décadas! Quando há batedores, o risco é menor. Quando não há, os cidadãos inocentes correm perigo (que é de morte!) com essas correrias insensatas e insanas. Há quem argumente que é por uma questão de segurança! Qual quê? Que risco de segurança sofre o Secretário de Estado a Que Isto Chegou? E a nossa segurança não conta? 

Dir-se-á que esses condutores são hábeis e capazes. Ai é? Também eu entendo que posso conduzir com segurança a 160 km/h em imensas retas e, se o fizer, arrisco-me a apanhar pontos na minha carta. Ao cidadão comum, que paga os seus impostos e tem plenitude de direitos, é permitido ser submetido a testes que lhe permitam “acelerar”? Estou convencido que, fora desses motoristas, deve haver muita gente que sabe conduzir igual ou melhor do que eles.

Um dia disse alguém: “Qual é a pressa?” Por que será que ninguém quer falar disto? 

(Já estou a presumir um comentário: “Nos cinco anos e tal que ele esteve no governo também devia andar por aí “a abrir” “. Pois enganam-se! Todos os motoristas que comigo trabalharam tinham estritas instruções para não excederem a velocidade legal.)

16 comentários:

Anónimo disse...

Por vezes vossa excelência consegue ser ainda mais rabugento que eu!...

mas não deixa de ter razão, que é o que importa

PSICANALISTA disse...

.
Sim senhor,caro Francisco Seixas da Costa.

-Um post, de se lhe tirar o chapéu !!!

Joaquim de Freitas disse...

O primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, perdeu a sua carta de condução a semana passada, por excesso de velocidade numa estrada de Normandia. Conduzia um carro da Mairie do Havre. E tem um processo pendente no tribunal para pagar algo.

O mesmo ministro que promulgou esta semana uma nova lei de 80 quilómetros hora, em vez de 90 , nas estradas nacionais.

O mesmo ministro que abusou do meu dinheiro de contribuinte, alugando um Airbus 340, em Tóquio, á algumas semanas, mais confortável que o mesmo avião militar que o trouxe da Nova Caledónia a Tóquio, e que regressou vazio a Paris.
Custo do abuso: 340 000 euros. A explicação que ele deu foi que estava cansado e que o avião alugado tinha assentos de primeira classe, mais confortáveis, para ele e para a sua “suite” ministerial.

Escrevi-lhe uma carta, para lhe dizer que fiz o memo trajecto dezenas de vezes num avião da Air France, em classe “affaires”, com a mesma idade que ele, que me custava 1 000 euros ida e volta a Tóquio. E mesmo quando viajava de Sidney para Paris era a mesma coisa.

Gastou numa só viagem os meus impostos de alguns anos!

Nenhum cidadão está acima das leis.”
Estado de Direito significa que nenhum indivíduo, presidente ou cidadão comum, está acima da lei. Os governos democráticos exercem a autoridade por meio da lei e estão eles próprios sujeitos aos constrangimentos impostos pela lei. Mas há gente que acede ao poder sem ter as qualidades morais para o exercer. A caça aos privilégios é comum nessa espécie.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Já se esqueceu quando era Secretário de Estado e tinha umas luzes
azuis no seu carro oficial para circular não respeitando os limites
de velocidade?

Anónimo disse...

He's alive!...

Luís Lavoura disse...

Bom post, mas questiono, como sabe o Francisco que isso se passa? Eu é verdade que não circulo muito de carro, mas nunca vi nenhum carro em louca correria com luzes azuis no tejadilho.
Agora o que eu vejo e me preocupa muito, são ambulâncias em excesso de velocidade. Já vi um acidente ocorrer à minha frente por causa de uma delas, que se meteu num cruzamento sem ver se vinha alguém. Ambulâncias, isso sim, são conduzidas por não profissionais e não duvido que causem muitos desastres.

margarida palma disse...

Muitos parabéns!

Até que enfim alguém fala deste desmando que nos envergonha a todos, porque o toleramos e caladinhos ficamos. Mas depois, admiram-se da má vontade contra a "corte",do distanciamento entre eleitores e eleitos,governantes e governados, do sentimento, de longe interiorizado, de que são "eles" e "nós"...

Lembro-me bem de um "louco"que passava quase todos os dias pela minha rua, em alta velocidade, com sirene a tocar, luz amarela a piscar, pondo em risco tudo e todos.Encontrei-o noutras zonas da cidade, ou melhor, vi passar o seu carro, sempre no mesmo desatino.E perguntava-me:mas um homem destes pode ter juízo para nos governar??Não tenho ouvido falar dele -sem o cargo deve ter acalmado!

Muito obrigada por falar deste assunto - Margarida Palma

P.S. Este é mesmo o meu nome, não recorro a anonimato, como logo insinuou alguém,há tempo, relativamente ao único comentário que aqui deixei, por sinal, na primeira vez que comentei um blog.

Francisco Seixas da Costa disse...

O anónimo das 13.18 foi preguiçoso e não leu o meu texto atéao fim...

Anónimo disse...

Em certos locais da terra mais civilizados não se aceita tal comportamento.Alias em muitos desses países os ministros,secretários de Estado e titia quanto vão de transporte público ou a pé.
Eu usei muitas e muitas vezes,dependendo do tempo- aqui no sentido climaterico- o segundo meio:pedibus calcantibus
Abraco

Agostinho Pacheco disse...

Sr Embaixador, Qual é a Pressa?? Faz 20 anos que certos MOTORISTAS que refere no seu texto já não estão no ativo neste momento, recebiam indicações das suas Entidades que transportavam até ao aeroporto e para chegarem a tempo usavam os corredores Bus da Avenida Gago Coutinho e da Avenida da República. Tudo isto SEM LUZES Azuis e sem excesso de velocidade mas os corredores do Bus são para ser usados por transportes públicos certo!
Sr Embaixador, imagine este cenário! Vai o Sr Embaixador no lugar desses motoristas que refere no seu texto e para cumprir os horários apertados de agenda e Sr Embaixador/Motorista é apanhado num Radar em excesso de velocidade dentro da localidade (83km) as 06h30 e tem que pagar uma multa e fica sem carta 30/60 dias. O Sr Embaixador acha justo ficar sem carta de condução por estar trabalhar e tentar com que a sua Entidade chegue a tempo para apanhar o avião ou chegar a tempo do evento oficial que tem um horário para cumprir? O Sr Embaixador sabe que esses motoristas que refere no teu texto também têm Familia para sustentar e se não cumprirem as indicações que são dadas pelos seus superiores correm o risco de ir para prateleira ou mesmo para Rua. São esses motoristas que refere no seu texto os culpados dos atrasos?? Pois é!!
Mas concordo com o Sr Embaixador a LEI É IGUAL PARA TODOS e Qual é a Pressa agora!! O Sr Embaixador devia saber que os motoristas que refere são os primeiros a começar cedo a sua função e são os últimos a termina-la bem tarde.
Terei todo prazer de lhe pagar um cafezinho em Belém ou no bar da Assembleia da República ou no restaurante o Prove na Calçada da Estrela ou no Bar da PCM ou ainda no bar MNE e tentar com que o tempo volte para trás 20 Anos.
Qual é a Pressa Agora!!


Anónimo disse...

Ó, senhor, 21 de janeiro de 2018 às 20:15, é dar exemplos,

de contrário é mais uma cretina afirmação como as dos que nos fartam de dizer que lá fora é que fazem tudo bem, que não demoram um mês a fazer governos, como na sábia Alemanha.

Anónimo disse...

Não querendo ser advogado do diabo, não posso deixar de lembrar que muitas vezes as deslocações dos membros do Governo são carregadas de mais visitas, paragens e reuniões e isso implica a maior parte das vezes atrasos, porque é difícil dizer não aos pedidos dos responsáveis políticos locais, empresários ou figuras gradas, por isso a fim de compensar o tempo que se perde nos encontros, tenta-se compensar na estrada.

Em caso de estrita necessidade isso não me preocupa, desde que sejam tomadas as necessárias medidas de segurança.

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Nem mais, Senhor Embaixador!

Se há campo onde deve haver sobriedade absoluta por parte de quem tem responsabilidades é nesse mesmo, porque vivemos na terra onde há gente a mais a achar-se o Emerson Fitipaldi ou a Michèlle Mouton.

Anónimo disse...

Sim ... apanha-se muito disso na A1, pelo menos 1x por semana.
Como teem umas luzinhas azuis que que piscam muito penso eu que ja nao deve fazer mal andar aquela velocidade mas infelizmente nao me deixam utilizar umas iguais no meu carro.

Mas seria bom que algum dia os mandassem parar e quando disserem que vao com pressa ou atrasados ouvirem : saissem mais cedo.

Anónimo disse...

Caro Agostinho Pacheco,

De acordo.
Quem excede os limites de velocidade, fica sem carta por algum tempo.
Mas, se quem dá as ordens pagasse a multa, O PRÓPRIO, isto acalmava.

Rui disse...

Tenho um camarada de Constantim que, se não me engano, era secretário do presidente da ..., que numa deslocação a Lisboa, insistiu para que o motorista fosse mais rápido. Terá conduzido tão rápido que foi apanhado em excesso de velocidade. Long story short, o motorista apelou à ajuda do secretário ao que ele respondeu, não excedeu o limite de velocidade? Então tem de pagar a multa. Constantim é e será (acredito eu) sempre terra de pessoas com uma visão muito particular de ver a vida. Uma das explicações que encontro é o branco que por lá se produz.