sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Que achas?


Na minha terra, utiliza-se bastante uma expressão de modéstia opinativa, depois de falar sobre qualquer tema que temos por não consensual: digo eu, não sei!

No Brasil, chama-se «achismo» à tendência natural para emitir opiniões, a propósito de tudo e de nada, muito «conversa de mesa de café». Os italianos criaram a expressão «tudólogos» para qualificar os catedráticos públicos de generalidades – e os portugueses conhecem bem alguns.

Lá no fundo, todos «achamos» alguma coisa sobre quase tudo, sobre o que conhecemos bem ou apenas «pela rama». Raras vezes guardamos para nós essas ideias, geradas no que lemos ou ouvimos a alguém que temos por «abalizado» (adoro este conceito antigo).

As redes sociais «democratizaram» o exercício de troca de opiniões e deram à generalidade dos cidadãos um «altifalante» para dizerem o que pensam junto de um público mais alargado. Com franqueza, não tenho a certeza de que o esclarecimento coletivo tenha ganho muito com isso, mas essa seria uma longa conversa.

Alguns leitores estarão a perguntar-se : «Mas então ele não tem um blogue diário, uma página no Facebook, uma conta no Twitter e colunas na imprensa?» Claro que sim. E nelas escrevo o que penso sobre vários temas. Quase sempre, porém, apenas sobre aquilo de que julgo saber alguma coisa. Ou, quando isso não acontece, faço um «disclaimer» relativizador, do género «digo eu, não sei».

Uma passagem pelo governo, em tempos idos, refreou em definitivo a minha pulsão para dar opiniões de «mesa de café». Nesses anos, confrontado com a necessidade de estudar melhor algumas questões, dei-me conta da complexidade de temas sobre os quais, antes, «mandava bitaites» sem grande rigor. E passei a ser muito mais cuidadoso ao pronunciar-me sobre assuntos distantes das áreas onde atuei ou onde exerço atividade profissional.

Ninguém nunca me ouviu uma palavra sobre se os hospitais devem ser centralizados ou regionalizados, sobre se deve haver grandes esquadras ou polícia de proximidade, sobre opções em matéria de ensino, se o novo aeroporto devia ser na Ota ou em Rio Frio, sobre se deve ou não haver TGV, etc. São assuntos sobre que não tenho opinião, decisões que, no quadro da democracia representativa que acerrimamente defendo, entendo que devem ser decididos por quem elejo para gerir o país. E por aqui me fico.

«Olha lá! Então nem uma palavra sobre o juíz com filho na escola subsidiada, sobre o secretário de Estado que «galpeou» para o Europeu, sobre o boato da privatização da ADSE, sobre o mito da introdução do sol & vistas no IMI?» - já imagino alguns amigos a perguntar. Não! Sobre isso, só a tagarelar debaixo do toldo da praia...

(Artigo hoje publicado no JN)

6 comentários:

Anónimo disse...

Eu sou socialista e acho estranho que um secretário de estado com um ar desmazelado tivesse aceite um tal convite. Obviamente já devia estar na rua, pelo seu pé, de Costa ou de Marcelo. Mas mostrou também que Montenegro nunca foi de confiança.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, não conseguir ter opinião sobre "se os hospitais devem ser centralizados ou regionalizados, sobre se deve haver grandes esquadras ou polícia de proximidade, sobre opções em matéria de ensino..." etc, é óptimo. É sinal que não é afectado por nenhum desses assuntos. Quem me dera.

ignatz disse...

já lá vão 3 postes sobre este assumpto:

no primeiro, era só certezas que elogiavam um excesso de zelo, duas admoestações de xico-espertice e porreirismo e mais um cargo para o oliveira martins. no segundo a coisa já só resumia a insensatez do andrade e as dúvidas do embaixador sobre o assumpto. o terceiro já é sobre o só sei que nada sei e assobia para o lado com o filho do juíz.

sobre a direita que viaja de borla com bilhetes oferecidos pela cosmos e jantares pagos pelo o oliveira com as sobras da federação, néria.

Anónimo disse...

É, no mínimo, extraordinário essa de não se ter opinião sobre alguns desses assuntos, que são relevantes, como os que exemplificou. A questão dos hospitais concelhios, que foram quase desactivados, por razões financeiras (leia-se agradar à Troika), deixando a população desses Concelhos sem os cuidados médicos a que antes tinham acesso próximo, para terem de ir para os Distritais, o mesmo quanto aos tribunais, ou melhor do aceso à Justiça, com a dos tribunais nos Concelhos a ficarem diminuídos nas suas competências (pelas mesmas razões de atrás), obrigando um cidadão a ter de calcorrear quilómetros e perder tempo ao ter de ir para um tribunal de uma capital de distrito, etc. Ou essa de não querer ter opinião sobre o novo aeroporto poder vir a ser no Montijo (ou na Ota), quando se sabe quais os interesses que estão por detrás dessa história, quer a ANA, da Luso-ponte com o apoio de um determinado grande e conhecido escritório de advogados e de uma grande construtora civil, "locais" esses onde se encontram ex-Ministros, ex-deputados (ou mesmo ainda deputados da actual A.R). Um cidadão, sobretudo com a sua formação, tem o direito e a obrigação de se pronunciar, ou de ter uma opinião e falar dela, porque é um caso que tem a ver com a ética de um Estado de Direito. Não se pode lavar as mãos e deixar que seja o parlamento e só ele a emitir opinião sobre estes assuntos. A ser assim, o movimento cívico contra excessos de autoridade governativa, ou medidas políticas erradas, etc, morreria à nascença, o que contraria a essência da liberdade de uma democracia. Seixas da Costa surpreende-nos cada vez mais pela negativa! Nesse caso, também não tem opinião sobre a venda (a pataco) da EDP, REN, etc a estrangeiros, empresas que nunca deveria ter saído das mãos do Estado. Veja-se até o lucro que por exemplo a EDP dá, aos seus accionistas, quando poderia ser dinheiro em caixa para o Estado. Este Post é impressionantemente lamentável! Um verdadeiro apelo a que os cidadão não se mexam e se deixem mal gerir pelo Estado/governo, o que sucede tantas vezes, por estas terras lusitanas.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

"Acho" (cá está o acho..) muito suadável não se ter opinião (ou, pelo menos, não emiti-la publicamente) sobre a eventual localização do Aeroporto ou sobre a necessidade do país munir-se ou não de um TGV. Estes são assuntos, sem dúvida, para especialistas multidisciplinares.

Já se um Juiz deve ou não julgar em causa própria (ainda que indirectamente), ou se um secretário de estado dos assuntos fiscais pode aceitar uma oferta (mesmo que simbólica) de uma empresa com a qual o Estado e o minitério do Estado tem conflito judicial que envolve milhões de euros (contribuição extraordinária que o comum dos cidadão pagou), acho que são assuntos sobres os quais não só dvemos ter opinião como expressá-la publicamente. Não são assuntos que exijam conhecimentos profundos sobre a matéria. Bastam os factos e sentido ético. Pode é não dar jeito, admito, emiti-la.

Aliás, o Embaixador já se pronuciou aqui (Juízes e Juízo), e como sempre de forma brilhante, sobre o Juiz. O Luís Lavoura é que não deu ainda conta desta "contradição"...

Eu, apoiante (com muitas reticências...) da "geringonça", não tenho dúvidas em censurar veementemnte (vale o que vale) o Juíz e o Secretário de Estado. Não ficaria mal ao primeiro ter pedido escusa do caso a ao segundo a demissão do cargo. Deixe-me acrescentar que tenho a certeza que o era o Embaixador faria se estivesse no lugar deles. Aliás, em relação ao Secretário nem sequer teria aceitado fazer a viagem.

Correia da Silva disse...

Quem não optar pela proteção solar, debaixo do toldo da praia, arrisca "torrar" a moleirinha, e depois vem aquí debitar bitaites verborreicos.
-Haja paciencia!!!