sábado, 13 de agosto de 2016

Memória pouco militar

O "Diário de Notícias" de hoje traz uma longa e interessante entrevista com o cineasta João Botelho. Andámos juntos no liceu e somos daquela espécie de velhos amigos que se encontra a espaços, às vezes com anos de intervalo. Quase sempre no "Snob", da última vez num ensoleirado "ferry" fluvial.

Há dias, num grupo de amigos, contei uma historieta com mais de meio século, em que me recordo que o João também figurava. 

Creio que na dúvida sobre se conseguiríamos entrar no exame para universidade, alguns de nós, no Verão de 1966, em Vila Real, começámos a treinar no Regimento de Infantaria 13 as provas de acesso à Academia Militar. Confesso que, à distância, me não estou a ver com um futuro castrense e, até hoje, pergunto-me por que diabo me prestei a esses exercícios masoquistas, que incluíam o sinistro "galho", o "pórtico", o muro, a vala e outras provas que vim a reencontrar menos de uma década mais tarde, quando involuntariamente me vi militar a prazo. No termo desses treinos, e essa era a melhor parte, organizávamos partidas de futebol, juntando os tais "voluntários" que nós éramos com pessoal da unidade, em especial os oficiais que nos orientavam. E acabávamos com um copo na messe.

Um dia, numa dessas ocasiões, vimos ao longe dois soldados de mão dada. O nosso espanto foi imenso. A cena era insólita numa sociedade como a portuguesa, há 50 anos, ainda por cima dentro de uma unidade militar. Imagino os sorrisos e dichotes irónicos que ela terá provocado, na reação machista tradicional e então quase de regra. 

Fomos interrompidos, nos nossos comentários, por um sargento: "Não é o que pensam!" Olhámos surpreendidos para o militar, que nos contrariava o pensamento óbvio. Ele explicou: "É gente que vem de aldeias isoladas muito longe, da zona do Barroso, que está fora pela primeira vez da sua terra. Aquele gesto é um sinal de fraternidade e de mútuo apoio, face ao isolamento que sentem. Não são homossexuais" (a palavra usada não foi essa). 

Com os anos, voltei a assistir a gestos semelhantes em África, em especial em países árabes e sempre me recordei desse episódio. De uma coisa estou certo: se a cena se voltasse a repetir no Portugal contemporâneo, a nossa presunção de há meio século seria seguramente confirmada.

3 comentários:

Anónimo disse...

Boa tarde

Com certeza que a vossa presuncao seria confirmada. Fiquei boquiaberta quando me dei conta que um casal homosexual as compras num supermecado em Hackney, Londres foi interprelado por um funcionario por estarem de mao dada...Redes sociais alerttadas e dai a imprensa (Daily Telegraph, por exemplo) foi um pulo. O supermecado pediu desculpas mas...hoje esta planeado um "Kiss in" (no meu tempo era mais "sit in" mas enfim) no dito supermecado. Curiosa por natureza tive tentacoes de ir fazer compras a Hackney e ver o que se passava. Fiquei-me pelo meu bairro a remoer e a espera das noticias mais tarde. Nao me consta que o casal fosse de uma aldeia isolada do Barroso e, que fosse! Ja la vao 50 anos. Esta ilha de vez em quando regride. Pode ser do calor, sei la...

Continuacao de bom fim de semana

F. Crabtree

aamorim disse...

Bom dia.

Em tempos em S. Tomé anos 70/80, era vulgar encontrar homens ou mulheres de mãos dadas pelas ruas da cidade. Era uma forma de cumprimento mais afectuoso.

alvaro silva disse...

Casais homossexuais (?) é coisa inexistente. Quando muito juntas ou parelhas!