segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Onze notas internacionais

1. E lá vai Dilma à vida, com poucos a chorarem-na e levando consigo o PT. Não houve golpe constitucional (as instituições funcionaram regularmente), mas houve uma evidente subversão do espírito do sistema, por uma enviezada parlamentarizacão do regime presidencialista, a colocar a política do lado do qual passou, de um momento para o outro, a soprar o vento popular. Temer, renegando sem vergonha o programa sob que foi eleito, foi o instrumento oportunista. Ficará na História, mas com adjetivos de que a família se não orgulhará.

2. Trump parece que cai nas sondagens mas Hillary Clinton continua a ter uma rejeição muito elevada. Levar uma figura como Farage para a campanha americana é a prova de que o exercício já passou os limites da racionalidade, depois de há muito ter atravessado os da decência. Por este andar, Marine le Pen ainda vai, um destes dias, "fazer uma perninha" a Washington.

3. O puzzle angolano toma um novo formato. Mais um. Um novo vice-presidente surge como o putativo sucessor de José Eduardo dos Santos. Já vimos este filme no passado e, em todas as ocasiões, acabou sempre de forma diferente da que se previa. Angola é um "happening" mas, goste-se ou não, a capacidade do presidente e do MPLA para segurarem o poder é notável.

4. Será desta que Rajoy forma um governo esável? É mais trágico do que parece, mesmo para nós, o penoso arrastar do processo político espanhol. Este impasse tem um preço imenso na credibilidade de um país que é importante para a Europa. O PSOE brinca com o fogo e com o seu futuro como partido do sistema. Já para o rei, esta prova de fogo veio cedo demais e, infeluzmente, revelou que não conseguiu criar uma magistratura de influência como a que o pai chegou a criar. É um péssimo sinal para a monarquia espanhola, podem crer.

5. Sarkozy não desiste de tentar regressar ao Eliseu. Em 2012, a França estava muito cansada dele e, francamente, duvido que tenha recuperado desse sentimento. Agora, "lepeniza" a cada dia discurso, tentando arrastar a respeitável direita democrática para um sinistro populismo, o que vai obrigar gente decente como Juppé a ir por outro caminho. Com Hollande a bater no fundo, fica a certeza de que a esquerda nunca votará em Sarkozy numa 2ª volta (como fez em Chirac em 2003). A presidente Marine é, assim, possível.

6. Erdogan está nas suas sete quintas. Arranjou um imbatível alibi para fazer uma limpeza interna e, como já previsto, arranjou um pretexto para "molhar a sopa" na Síria, para por ali desfazer as milícias curdas. Os EUA, que estão "desertos" para subcontratar esta guerra, aplaudem, devem estar a fornecer "intelligence" e reduzem a pressão para repatriar Gullen. Um belo favor de Obama a Hillary Clinton, que se preparava para fazer isto mesmo. Só há uma América: a dos interesses.

7. A última pedra no túmulo da Parceria Transatlântica foi posta há dias pelo ministro alemão da Economia. Como muitos previam, já não vai haver nenhum TTIP, o que marca um forte recuo protecionista no espaço euro-atlântico. "Much ado about nothing"? Resta saber o que os europeus farão se o preço do petróleo disparar de novo e precisarem do gás de xisto americano, que era a contrapartida pela liberalização do comércio.

8. Os europeus continuam a reunir em grupinhos, com Hollande a fingir de charneira e a tentar estar em todas. Umas vezes é o proto-diretório com a Itália, noutras mete-se a Polónia e recupera-se Weimar, finalmente o sul - que passa o tempo a dizer que "não somos a Grécia!" ou coisas parecidas a propósito de qualquer outro vizinho do lado de quem os mercados não gostem - vai também conversar à parte. Olhando para esta Europa, percebe-se agora melhor o sentido da palavra balcanização.

9. Os británicos revelam que não sabem o que fazer com o Brexit. Dá ideia que uma (já) maioria do país está arrependida da aventura em que Cameron (desaparecido em combate, para bem do país) irresponsavelmente o meteu. Theresa May parece tentar ganhar tempo e, curiosamente, depois da vergonhosa reação anti-democrática do lado do continente, até os "27" estão mais calmos, já percebendo que só os mercados comandam o "timing" da invocação do artigo 50 do famigerado Tratado de Lisboa. Resta saber se uma "mini-saída" é possível. Leia-se o "Economist" ou o FT para medir a perplexidade que por ali vai.

10. Hoje é o dia C (o terceiro) para medir as hipóteses reais de António Guterres vir a ser designado o próximo SG da ONU. O dia D virá em outubro, sob presidência russa do CSNU. Posso confessar um segredo?: nunca acreditei que as hipóteses do candidato português chegassem a ser tão elevadas. E que bom que era para Portugal,me para a diplomacia portuguesa (poderemos falar depois sobre isto), se Guterres fosse escolhido!

11. Exemplar, até agora, tem sido o comportamento de Augusto Santos Silva e do MNE no caso dos fedelhos agressores iraquianos. Palavras certas, tempo exato, decisões acertadas. É uma grande e experiente máquina a das Necessidades, com séculos de bom-senso e de excelente serviço público. Sei que sou suspeito, mas sinto orgulho em ter feito parte dessa grande escola de sentido de Estado.

6 comentários:

Anónimo disse...

vai com deus querida. Golpe ou uma evidente subversão do espírito do sistema foi vc. Dilma que deu no Brasil, com mentiras consegui um segundo mandato. Faliu o Brasil. Vai e nunca mais volte junto com os cacos que sobraram do PT. Esquerdalha canalha!!!

Joaquim de Freitas disse...

Habitualmente gosto de comentar estes temas. Cheguei ao fim da lista e disse cá para comigo que desta vez não há “food for thought” ! Que comentário é possível fazer a algo que é “bien ficelé ? Está tudo tão bem dito!

Só procurando melhor (volto atrás, como o inspector Colombo, o da gabardina usada e o velho Peugeot!) : Quando escreve: “Só há uma América: a dos interesses.” Não posso deixar de recordar a sua réplica, quando eu escrevia a mesma coisa há uns meses atrás, com uma ponta daquilo que se chama aqui, por vezes, “anti americanismo”, e a que eu chamo “imperialismo” , e o Senhor Embaixador replicou: “ Olhe que talvez não seja, talvez não seja”. Claro que eu não sou diplomata e não representei Portugal nos USA.

Ah, (finalmente sempre há mais!) já agora, Senhor Embaixador, o que é que o camarada Guterres pode trazer de bom a Portugal, se for eleito para a ONU? Que peso tem o secretário-geral no Conselho de segurança?

Tenho tão mas recordações doutro Português numa instância internacional, que assistiu impavidamente entre três crápulas, à invasão dum país que se chamava Iraque!

Também é verdade que este “camarada” foi na sua juventude contra os verdadeiros camaradas, menos radicais que ele.

Anónimo disse...

Não há golpe contitucional, porque as instituições funcionaram regularmente? Isso é daquelas explicações “mecânicas” que, para utilizar um outro seu texto, me encanitam. Não leve a mal, mas é um daqueles argumentários de “manga de alpaca” que não lhe faz justiça e que, aliás, contraria quando de seguida diz que houve uma evidente subversão do espírito do sistema. Ora, se é assim, as instituições, mesmo funcionando com as roldanas oleadas, não está bem, bem, a funcionar regularmente.
Ou há crime que justifique o afastamento, ou não há crime, e a questão será de má gestão, coisa que se resolve nas urnas. Digo eu, que não sou pós-moderno. Entretanto, isto é inédito. Nunca vi, pelo menos em democracia. Um dia, um presidente americano foi afastado da presidência antes de terminar o mandato, mas foi pelo que se sabe, isto é, por cometer um crime tipificado na lei e, para além disso, porque a lei lá diz que um presidente que o pratique deve ser afastado. Mesmo aqueles malucos que agora acusam o presidente Obama de ser terrorista muçulmano, etc, não se atrevem a pedir o seu afastamento por impeachment. É o diabo encarnado, mas, paciência: a lei não diz que um presidente, por ser o diabo, deve ser destituído antes de terminar o seu mandato normal.

Anónimo disse...

O ponto 9 só para rir! E invocar o Economist e o FT, que eram anti-Brexit, não dá cimento ao argumento.
O RU e o seu - actual - Governo, da tal Srª T.May, sabe muito bem como gerir a saída do RU dessa estrumeira político-económica chamada UE. É uma grande Senhora.
O Cameron, que era a favor da continuidade do RU na UE, foi parvo por outras razões, porque acreditava que o Brexit não ganhava e que deste modo, ao convocá-lo, faria pressão sobre a Comissão e a restante UE, se o resultado, como ele julgava que seria, fosse o contrário do que foi.
Portanto, o RU sairá - de vez - do atoleiro que é a porcaria da UE e mais dia menos dia, saiam mais. Holanda, Dinamarca, etc. E a França de---Marie Le Pen. E é o Requiem! Sem saudades. Nenhumas. Só mesmo para europeísta saloios. Aliás, um tal alemão, do governo da Merkel, já foi começando a avisar do que devemos esperar. Como só tenho 55 anos, alimento a esperança de que um dia esta UE, mais o Deutsch Mark, vulgo Euro, venham a dar o berro. Coitaditos dos parasitas que vivem à custa dos contribuintes da tal UE, essa malta da Comissão e quejandos!
(Fernando Mateus)

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

E o dia C voltou a correr bem a António Guterres. Será que ???

Era bem bom

Anónimo disse...

O importante para Guterres é que a coisa lhe não corra mal. Malcorra, ex chefe de gabinete de Ki-Moon é a ameaça.