sábado, 16 de julho de 2016

Ironia


É uma trágica ironia dizer que o fracasso do golpe de Estado e a confirmação de Erdogan no poder configuram uma vitória da democracia.

8 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Perfeitamente Senhor Embaixador !

A Turquia é um dos únicos países do mundo muçulmano que seja uma democracia. Tem falhas, como noutras democracias, mas ainda é uma democracia.

Um pouco como foi em Portugal, a questão dos progressos passados e futuros do processo de democratização é largamente ligada à atitude das forças armadas, em muitos países muçulmanos e ainda mais na Turquia.

Elas foram os elementos mais modernistas (a geração de Mustafa Kemal ) que souberam impor as reformas mais audaciosas, num espírito secular, mesmo laico, e o pluralismo político desde 1950.

Mas desde há algum tempo para cá, parece que o regime laico perdeu um pouco do seu peso. O islamismo, ao contràrio, progrediu. E Erdogan é o responsável. Esperemos que a Republica laica, perdure. A aproximação com o Ocidente dependerá da evolução do regime.

Manuel Augusto Araújo disse...

Não é ironia e muito menos é trágica. É a radiografia implacável deste mundo hipócrita e inenarrável onde, como escreveu Kundera, “tudo é permitido porque tudo está cinicamente perdoado”. Espectáculo degradante do ranço da falta de princípios nas relações internacionais capazes de tudo para garantir a sobrevivência de interesses inconfessáveis em linha com as geoestratégias do império. Há muitas maneiras de as servir e o plâncton putrefacto de políticos, comentadores e jornalistas, cada cor seu paladar, aí está mais uma vez na linha da frente. Nunca faltam à chamada. São pagos, directa ou indirectamente para isso. Vai ser um fartote de especialistas a perorar por tudo o que é sítio sobre a Turquia, com o têm feito sobre a Europa, as eleições nos EUA, o terrorismo, etc., etc., enquanto se caminha para o abismo de uns supostos valores civilizacionais em escombros. É inquietante? É, claro que é! É também a demonstração que Georges Orwell tinha toda a razão quando constatava que “para se ser totalitário, não é necessário viver num país ditatorial”

ignatz disse...

ironia é chamar democracia àquilo. o marcelo, padrinho padrinho do actual, tamém lhe chamava democracia e fazia umas eleições parecidas com as turcas, cá as forças armadas tiveram mais força que a guarda do regime. as caldas tamém falhou à primeira, fica para a próxima, se entretanto a dona merckla não furar aquilo que combina com os americanos, como vem sendo hábito.

Anónimo disse...

O que tinham que dizer e continuam sem dizer é muito simples: O poder não se destitui por golpes militares! Mas pela afirmação firme dos princípios!
Mas, quanto a princípios do Ocidente, estamos conversados!...

Jaime Santos disse...

Seria melhor dizer que prevaleceu a normalidade constitucional. O problema é que essa normalidade não é nada normal em termos dos padrões das democracias liberais, coisa que a Turquia manifestamente não é...

Anónimo disse...

Este paternalismo da esquerdalha sobre democracia é o normal: Eu sou democrata e quem não pensar como eu é reacionário... O normal...

J.Tavares de Moura disse...

Erdogan é um islamista autocrata com um projecto de poder pessoal baseado no ultra nacionalismo e no sonho da "Grande Turquia". É uma espécie de "Make Turkey great again" á la Trump dos nostálgicos do grande império otomano.
Nada de muito assustador se comparado com os regimes vigentes naquela região, não se desse o caso do projecto de Erdogan passar pela aniquilação das minorias étnicas, das quais os curdos são os mais numerosos (mais de 20 milhões). Ora acontece que os curdos pela sua corajosa luta contra o estado islâmico (Daesh) ganharam, no terreno, o estatuto de principal aliado anti-ISIS, contando com o apoio logístico e armado dos países europeus e dos EUA. Erdogan tem jogado um jogo dúplice na Síria, apoiando objectivamente o estado islâmico e bombardeando os curdos - no norte da Síria e no leste da Turquia - e usando os serviços secretos turcos para combater e assassinar membros da oposição e do partido laico pró-curdo HDP, que tem representação parlamentar.
Erdogan sabe que os americanos e a UE não gostam dele, mas sabem também que não vão fazer nada para o derrubar porque apesar de tudo temem que o que venha a seguir seja igual ou pior que ele.
Concluindo: Erdogan e democracia na mesma frase não combina.

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

É bem verdade, caríssimo senhor embaixador, Francisco Seixas da Costa. No entanto, num país alvo persistente dos atentados e formado por várias comunidades é a forma de manter unida a Turquia. Embora o Presidente turco seja uma personalidade bastante controversa, parece ter carisma e conseguir que a Turquia não se fragmente, como aconteceu com o Império Otomano. Lembro que o execrável ditador Saddam Hussein foi o elemento unificante, que depois de deposto levou ao caos que hoje todos conhecemos no Iraque. Este é, aliás, também um risco evidente na Turquia, embora o comando de Erdogan coloque bem longe o paradigma democrático.

Cordialmente,
Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt