terça-feira, 2 de setembro de 2014

Uma história difícil

Há anos que hesito em contar esta história. Porque é complicada, porque a leitura que faço do episódio está longe de ser consensual e por todo um conjunto de razões que logo verão. E porque me marcou.

Foi há 20 anos. Eu fazia parte do júri de admissão de novos diplomatas, uma tarefa que levava muito a sério. O nosso objetivo era selecionar cerca de 15 pessoas, dentre mais de um milhar que tinham investido muitas horas da sua vida a trabalhar para ter essa oportunidade. Umas das provas fundamentais desse complexo concurso (desconheço como são as coisas hoje), depois dos exames escritos e antes das provas orais, era então a chamada "prova de apresentação" - uma conversa entre o candidato e quatro membros do júri, durante 20 a 30 minutos, com uma parte em francês ou inglês, na qual se procurava perceber da adequação do mesmo às funções a que concorria, quer na maneira de estar e de se exprimir, quer no seu nível geral de conhecimentos e na forma de os articular. Era uma prova reconhecidamente muito subjetiva, mas que eu considerava fundamental: por ela eu percebi sempre quando o candidato claramente "não servia", embora em alguns escassos casos me tivesse enganado no sentido inverso, isto é, dei a minha anuência à entrada de certas pessoas que o tempo veio a demonstrar não terem as qualificações que pareciam demonstrar, tornando-se menos bons profissionais.

A história de hoje tem um caráter muito particular. Nesse dia, um dos candidatos era anão. Nunca na minha vida me cruzei com um diplomata anão, embora admita que alguns possam existir, em carreiras estrangeiras. Tenho uma noção, empírica e muito discutível, mas que não vou discutir, de que um anão é uma pessoa cuja adequação ao exercício pleno das exigências que a vida diplomática acarreta seria muito difícil. A mim, as razões parecem-me óbvias, mas que sei que seria difícil defendê-las perante a brigada radical do "politicamente correto". O mesmo seria válido, aliás, para os portadores de algumas deficiências, sendo que um anão - também sei! - não é um deficiente.

Quando o candidato entrou na sala, devo dizer que senti que a todos nos atravessou alguma angústia. E se acaso ele tivesse uma qualidade intelectual excecional, se viesse a demonstrar uma "maîtrise" extraordinária, em todas as áreas do universo diplomático em que o interrogássemos? Se assim acontecesse, e apenas pelo facto de ser anão - condição física que, repito, eu assumo considerar não adequada ao exercício de funções diplomáticas -, iríamos eliminá-lo e recusar a sua passagem à prova oral de conhecimentos? Aquela era, aliás, a única prova do percuso do exame onde o facto de ser anão poderia ou deveria ser tido em conta. Por isso, a nossa responsabilidade era ainda maior. 

As quatro pessoas do júri não haviam trocado impressões prévias entre si, talvez por algum pudor na abordagem do tema. A conversa começou, no registo habitual. O homem, que já não era novo, fez uma prova que me recordo ter sido apenas sofrível, com algumas evidentes deficiências que, fosse qual fosse o candidato, o não recomendariam para ingressar na carreira. Vou dizer algo que sei ser polémico: considero que ainda bem que assim foi, porque, tivesse sido outra a sua prestação, as coisas teriam sido bem mais complexas para todos nós. O candidato foi eliminado e já não transitou para a prova oral. 

Lembrei-me disto há pouco, ao ver uma entrevista com o ator David Almeida, também anão, na SIC Radical. Há histórias, menos comuns, que, pelo seu caráter menos vulgar, nos ficam pela vida. Esta, para mim, foi uma delas.

41 comentários:

Anónimo disse...

É imoral excluir alguém só porque é anão. Trata-se de uma carreira diplomática, não de chegar coisas de prateleiras altas. Não vejo em que é que ser anão pudesse influenciar o desempenho da pessoa em causa... Devia ver Game of Thrones...

Tenho muito má impressão desses concursos desde que uma pessoa que conheço foi muito prejudicada ( http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1545200 ) e esta estória de discriminação não só agrava essa impressão como me faz compreender melhor esse episódio...

Isabel Seixas disse...

Pois...!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 00.49: respeito a sua posição.

Vilela Borges disse...

Fiquei a reflectir, pq tinha para mim a ideia que a função diplomática era fácil, muito assim ao estilo de padre, em que pouco tem de se ousar e arriscar.

Antonio Cristovao disse...

Felizmente que pessoas como a Merkl tambem andam na politica e acham que os seus ministros podem ser "normais" ou deficientes.

Anónimo disse...

Bela história de capacidades. Exemplar! (no seu caso a bela nunca se apaixonaria pelo monstro)!
Não o tinha por tão discriminador! Eu sou pela análise (verdadeira) das capacidades de cada um. A bailarina, coxa, das Pedras, não tinha capacidade para dançar com qualquer um a não ser com o Zé. Foi uma sorte!
Por ser anão não pode ser diplomata?!! (realmente quando se analisam os sobrenomes, este País cheira muito a “monarquia “capelar””)
antonio pa

Anónimo disse...

Não passou o anão físico, mas passaram outros "anões" mentais. Por cá andam ainda.

patricio branco disse...

quanto ao candidato anão, se é bom, é dar-lhe e aproveitá lo para as funções adequadas, também existe um ministro dos estrangeiros paralitico, que tem mais limitações (viajar, deslocar-se) que um anão.
mas foi corajoso o anão, apresentou-se, aqui estou, sinto-me com direito igual a candidatar-me.
há tipos de pessoas que estão totalmente ausentes da diplomacia portuguesa, ao contrario doutras como a americana, inglesa, holandesa. não há negros (angolanos, cabo-verdianos) ou orientais (de macau, chineses, timorenses), não há imigrantes ou filhos de imigrantes.
boa parte dos diplomatas americanos são negros retintos ou de várias tonalidades, ou latinos, ou de origem oriental. condoleeza e powel eram negros ou mulatos. madeleine albright nasceu na checoslovaquia.
há embaixadores americanos negros bem escuros há decadas.
claro, essas exclusões também se verificam no parlamento, nas tvs, (gosto de ver os apresentadores negros ou asiaticos da bbc ou cnn) etc.
um anão deputado ficava bem, era significativo dos direitos das minorias físicas; um partido deveria ter algum principio, mesmo não escrito, de colocar candidatos africanos nas listas parlamentares ou autarquicas.
os filtros são apertados e no final fica branco, altura normal, nascido em portugal...

Anónimo disse...

É claro que um anão é um deficiente! É uma pessoa com uma deficiência no crescimento. E é óbvio que seria ridículo ter um a representar o país. Por alguma razão se escolhem indivíduos altos para guardas de honra, por exemplo.

Provavelmente, alguns dos que se eriçam contra a exclusão de anões, são dos primeiros a rir quando um político é particularmente baixo e fica mal na foto.

Helena Sacadura Cabral disse...

Não teria querido passar pela sua complexa situação. E se compreendo a posição do anónimo das 00:49, também sei que o mundo não é apenas a branco ou a preto.

Anónimo disse...

Gostei da forma limpida e sem preconceitos como o episódio está exposto. Claro que ser anão não é ser deficiente, muito menos deficiente mental, mas se as conclusões de uma tal prova recorrem a subjetividades pessoais de cada membro do juri...
Se o candidato fizesse uma boa prestação e tivessem de o eliminar seria mais complicado. Porquê ?
Porque é evidente (e isto não é subjetivo) que as nossas sociedades estão "quase" exclusivamente voltadas para a "normalidade".
O que sai fora da "norma" está tramado se não for superior aos outros.
José Barros

Anónimo disse...

O que é agora inconveniente, será amanhã normal. O senhor Embaixador é apenas um homem do seu tempo. Assim foi também em outros casos no passado e que agora seriam dificeis de aceitar. Há relativamente poucos anos (ou seja, ainda em vida de alguns dos nossos colegas comentadores), seria quase impensável um embaixador negro, a não ser que tivesse qualificações e personalidade excepcionais.
Note-se que estou apenas a fazer uma análise fria, como o senhor Embaixador.

Anónimo disse...

Trato, no círculo da minha intimidade, com um presunçoso humor da minha parte (se calhar com alguma inveja dada a sua popularidade), mas afastado de qualquer pensamento negativo, um anão conhecido, por meio voto.
Será que alguém pode tomar isto como uma possibilidade? Já não digo nada…
antónio pa

Anónimo disse...

Estou nesta casa (o MNE) já vai para muitos anos e nunca vi um preto (sim, digo preto, não é nenhuma ofensa) a ser admitido como diplomata, nem um anão, nem um asiático “amarelo”, embora vários de origem goesa (alguns até não deixaram saudades). Mas, já admitiram gagos (ainda, recentemente, um deles foi mandado para Posto). E até, em tempos, um que era desdentado e tinha o péssimo hábito de, ocasionalmente, talvez para fazer chalaça, retirar a dentadura e coloca-la num copo com água. Recordo-me também de um coxo, com uma perna mais curta que a outra, obrigado a andar com um sapato de tacão elevado para compensar aquela sua deficiência, o que não o impediu, e ainda bem, de vir ocupar lugares de destaque e chefia quer nos serviços internos e em Posto (mais tarde, através de uma operação de sucesso, resolveu aquela deficiência). O MNE também não admite cegos e paralíticos (como por exemplo o actual Ministro das Finanças da ALE). Em resumo, ainda não consegui perceber o porquê deste tipo de “descriminação aparente”. Qual é o perfil físico ideal para se ser diplomata? Branco, com dentes, vista razoável, boas pernas, fluente fala, embora possa ser careca, com razoável capacidade intelectual e cultural? Mas e se fosse um preto, anão, paralítico ou coxo, cego, mas inteligente, culto, brilhante, educado, fluente em várias línguas, que sucesso teria? Zero!

Anónimo disse...

Com todo o respeito, não acho que o senhor Embaixador tenha sido límpido, ao contrário do que diz o José Barros. É um texto cheio de reticências, sub-entendidos e piscadelas de olho. Eu acho que podemos ser ainda mais límpidos. O senhor Embaixador teve o mérito de entreabrir uma porta, mas seria bom que a abrissemos completamente, sem complexos e meias palavras. O comentário mais revelador do tom do debate foi o "Pois...!" da Isabel Seixas.
Em primeiro lugar, um anão é um deficiente, sim. Tem uma deficiência no crescimento. Não reconhecer isto é, isso sim, uma forma de "politicamente correcto" desajustado.
Em segundo lugar, nada do que tenha a ver com a dignidade das pessoas pode ser relegado para a fórmula tão atual do "politicamente correcto", que serve para tudo e mais um par de botas.
Depois, tudo isto serve para discutirmos, já agora, porque não, a função dos embaixadores ou outros representantes do Estado. Parece-me que está aqui na cabeça de alguns que um anão não teria dignidade decorativa suficiente para ilustrar um salão. Ora, pergunto eu então: qual é, nos tempos atuais, a função de um embaixador?
Por último, parece-me perfeitamente claro que o senhor Embaixador não considerou a hipótese de ser lido por anões. Estarei errado?

Anónimo disse...

A situação apresentada não revela uma posição preconceituosa (na minha opinião) mas realista e que se reveste de uma frontalidade e sinceridade que hoje muitos têm receio em assumir precisamente por causa dessa moda da "brigada do politicamente correto". Um anão poderá ser um bom Embaixador mas, com certeza, admito que teria uma tarefa muito mais dificultada e teria que ter o dobro da competência em relação aqueles que têm o dobro do seu tamanho para tentar ter igual respeito. O que se podera criticar é o ambiente de snobismo e cocktail com que muitos ainda pretendem embarcar na carreira diplomática e que é respaldado por muitos Embaixadores que estão na carreira e juris que participam nos concursos de seleção de futuros diplomatas. Muitos que participam no concurso, e que são selecionados, exprimem-se muito bem em várias línguas, revelam cultura geral, têm bom porte e maneiras mas estão perfeitamente despreparados para lidar com situações correntes do dia a dia. É uma triste comédia assistir-se a determinados diálogos entre Embaixadores e empresários comuns portugueses pois parecem seres de planetas completamente distintos. E não é apenas coisa do passado, ainda hoje este "fosso" se verifica….Penso que um Embaixador teria, obrigatoriamente, que ter exercido outras funções (de preferência em empresas) antes de assumir um Embaixada. Existem casos em que isso aconteceu e com efeitos muitos positivos na competência e vivência desses embaixadores. O mesmo se deveria aplicar (ou ainda mais) para diretores da aicep.

Albino Costa Brás disse...

O Sr. Embaixador, como alguém escreveu foi apenas um homem do seu tempo, vergado ás convenções sociais de um tempo determinado. Sabemos todos que a admissão à carreira diplomática em Portugal é um nicho de famílias bem, e não só os anões não cabem nela como também os filhos da glebe. Fica-nos a confissão do Sr. Embaixador e dos seus preconceitos, só nos faltou dizer qual era a altura mínima para passar na entrevista. É assim a elite em Portugal.

Francisco Seixas da Costa disse...

Pelos comentários publicados fica patente a delicadeza do tema. Mas será que alguns já pensaram que teria sido muito mais fácil para mim não revelar a história. Nós somos nós e as nossas dúvidas ou frágeis certezas. Felizes dos que as não têm.

Anónimo disse...

Bravo pela coragem em publicar este seu Post.
Quanto à altura mínima a que um comentador se refere, ou pergunta, ocorre-me, a título de exemplo, que, não há muito tempo a esta parte, um embaixador com, digamos, 1,39m, mais coisa menos coisa, que chegou até a alimentar a esperança de ocupar o cargo de SG – "o mais alto cargo da hierarquia diplomática no MNE” – antes de atingir o limite de idade, se reformou, após anos de “dedicação à coisa pública, no exercício das funções que desempenhou”. Nunca aquela pequena estatura lhe diminuiu as “faculdades”, nem a “determinação” com que se “desenvencilhou” das mesmas. Era diminuto, mas fero e temido pelos seus pares.

Anónimo disse...

Senhor embaixador, vamos dispensar aqui as platitudes, com as dos seu último comentário, e voltemos ao "gin". Isto foi embaraçoso, não só para si.

Anónimo disse...

Caro Senhor Embaixador,

Antes de mais, aplaudo a coragem demonstrada ao discutir um tema "sensível" num post, mas o dilema que viveu é certamente merecedor de reflexão.

Confesso que não vejo a razão pela qual um anão não deverá ser aprovado no concurso. Afinal de contas, não será por isso que os telegramas serão pouco concisos, que os pareceres serão menos informados ou que o argumentário das informações de serviço será mais ou menos sofrível. Os contributos não deixam de ser escritos e os ofícios continuam a sair, independentemente da estatura física do adido ou secretário de embaixada que os redigiu. Admito, no entanto, que crie alguns inconvenientes no que cabe ao desempenho das funções de representação. Mesmo assim, não creio que sejam inultrapassáveis:o RU já teve um ministro cego, David Blunkett, que chegou a desempenhar vários cargos no governo e na oposição.

Sem prejuízo dos sentimentos dos leitores mais sensíveis, talvez V. Exa. pudesse elaborar quais as razões que, no seu entendimento, tornam um anão inapto para a carreira diplomática.

Com os melhores cumprimentos,

Henrique Souza de Azevedo

Anónimo disse...

Senhor embaixador: deixe-me ser sincero: em variados contactos que tive com parceiros seus, tenho a dizer-lhe que alguns não passavam de "anões" mentais e culturais. Ostentavam, muitos deles, um ar soberano que não sei de onde lhes advinha, A propósito, lembrei-me de um livro de Manuel António Pina ilustrado por João Botelho:"GIGÕES E ANANTES". Esses concursos... a mentalidade das Necessidades...

Anónimo disse...

A entrada para a carreira diplomática requer vários requesitos. Penso que os candidatos deveriam até fazer testes psicotécnicos especializados para as suas funções antes de prestarem provas no concurso. Assim aferia-se o estofo psíquico para o exercicio das suas futuras funções. Quanto às suas capacidades físicas também, sem dúvida, se devia ter em conta.

Anónimo disse...

"A mim, as razões parecem-me óbvias, mas que sei que seria difícil defendê-las perante a brigada radical do "politicamente correto"."

Seria, talvez, um bom exercício de argumentação defender essas razões. Por exemplo, a partir de que altura estaria a pessoa habilitada ao "exercício pleno" das funções?

Não se trata de ser politicamente correcto mas de defender o acesso de minorias e pessoas com deficiências a funções compatíveis com as suas capacidades.

Por exemplo, o seu julgamento seria diferente se se tratasse de um cego, de um deficiente motor?

Em àparte: a existência de critérios não escritos em alguns júris de admissão é a causa de muitas injustiças.

Anónimo disse...

É curioso que alguns comentários elogiem, um expressamente mas vários implicitamente, a CORAGEM do autor do blog quando uma atitude corajosa seria não adoptar a atitude discriminatória que aqui expõe.
Já se notou várias vezes que quando toma posições claramente conformistas , " mainstream" e bem-pensantes, o autor refugia-se numa pretensa MAS FALSA atitude "politicamente incorrecta" que neste caso seria admitir o anão.
E há coisas curiosas: certamente para um diplomata ser gago é um handicap pior do que ser anão; ou ter mau hálito; ou ser coxo. Ora houve (e há) diplomatas com essas caracteres.rísticas.
Por outro lado, a inexistência de negros, chineses étnicos ou outras minorias étnicas é revelador da ideologia dominante e prevalecente no MNE.

ARD disse...

Talleyrand, Príncipe de Benevento, Ministro dos Estrangeiros de França e um dos mais finos diplomatas da História, tentou brincar com Napoleão, cuja pequena estatura o impedia de chegar a um livro colocado muito alto na estante: "Será um prazer, Sire, uma vez que Vossa Majestade não chega ao livro".
"E tu", respondeu Napoleão, "não chegas a Imperador".

Anónimo disse...

Até à data, não houve nenhum anão na carreira diplomática portuguesa porque não deve haver anões nas "dinastias" das Necessidades... Caso contrário, já havia embaixadores anões com as respetivas brancas de neve em posto.

Isabel BP

Ryder disse...

Pessoalmente, tenho dificuldade em entender em que poderia um anão estar limitado no exercício das funções, mas também não me julgo competente para avaliar, já que não é essa a minha área e o sr. embaixador escreveu que tem "uma noção, empírica e muito discutível, mas que não vou discutir", o que me impossibilita de formar opinião definitiva.
No entanto, também não consigo entender quem comenta dizendo que isso não faz sentido e se limita a apontar que outros houve que foram aprovados e são "anões mentais". Obviamente, qualquer pessoa que faça recrutamento e/ou selecção sabe que por vezes somos enganados por uma boa entrevista, por um bom falante bem preparado, que vimos depois a perceber não ser o indicado para a função em causa.
E, obviamente, é de todo injusto criticar o sr. embaixador por todas as opções erradas que foram tomadas no MNE, quando certamente não esteve presente em todas as entrevistas de selecção...

Francisco Seixas da Costa disse...

Sobre esta questão, que suscitou as reações polémicas que (naturalmente) esperava, apenas acrescentarei que ela fez vir ao de cima, uma vez mais, o modo como a carreira diplomática é vista em muitos setores (seguramente, por parte de outras profissões que todos imaginamos deverem ser exemplares). O país continua preso à última palavra de "Os Lusíadas". O assunto encerra aqui.

Anónimo disse...

O assunto está "encerrado", mas a ironia pode continuar?
Vou dizer ao Telo: Afinal não tens "corpo" diplomático!

antonio pa

Anónimo disse...

Tendo em conta a forma indecorosa com que foi conduzido o concurso externo de ingresso na carreira diplomática 2009/2010, nada disto me surpreende.

Claro que é legítimo excluir um candidato se ele não cumprir os requisitos, mas estes nunca deveriam incluir o aspecto físico (nomeadamente, ser-se anão) e o facto de se ser filho de fulano. Infelizmente, é mesmo isso que acontece e, ao contrário do que se apregoa, a meritocracia está morta. Ou estará moribunda, para salvaguardar as devidas excepções.

Dada a minha experiência no assunto, ligada em concreto ao referido concurso, aguardo o dia em que as oportunidades são iguais para todos.

Ventanias disse...

Caro Embaixador,
Aproveito esta sua estória, que conheço desde o tempo em que a viveu e li com interesse, para reiterar o que já na altura pensava sobre o assunto.

Como sabe, mas a benefício de outros potenciais leitores, eu fui um dos quinze que acabou selecionado. Levo, por isso mesmo, 20 anos de exercício da carreira diplomática em cima do que então pensava.

Continuo convicto que não há razão óbvia para um anão não ser um bom diplomata, desde que reúna os requisitos essenciais, quanto a mim acima de tudo uma boa capacidade de comunicar, melhor talento para analisar e dotes naturais de escrita. Ao que acresce como vantagem o domínio de línguas estrangeiras e a disponibilidade para bem receber.

Não vejo em nenhuma destas principais caraterísticas ou trunfos nada que um anão não possa ter.

Contudo, reconheço que a aparência de anão não será o melhor cartão de visita; mas essa é, quanto a mim, uma dificuldade com que qualquer anão se deparará meramente para existir. Admito ainda que possa ser mais caro equipar um anão das roupas e equipagens necessárias ou desejáveis para o exercício da profissão. Mas enfim, não vejo que isso seja mais do que uma mera opção pessoal.

Em conclusão, tal como na altura conclui na conversa que tivemos sobre isso, com outros colegas, ainda bem que o candidato não reunia os demais requisitos que o júri considerava essenciais. Livraram-se de uma dor de cabeça ainda maior.

Já agora, um abraço amigo pela forma corajosa como decidiu partilhar isto.

FX Meireles

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro FXMeireles. Obrigado pelo seu comentário. Estou convicto que, se acaso o candidato tivesse revelado qualidades que recomendassem a sua seleção, dificilmente ela não teria tido lugar. Com o meu voto contra, esclareço. Nada tenho, naturalmente, contra as pessoas que nasceram com essas caraterísticas e seria ridículo qie houvesse como que um "template" estético para o exercício de funções diplomáticas - se assim fosse, muita gente, de ambos os sexos, seria excluída... Mas há atos públicos cuja exigência, em termos de atividade e exigência física, me continuam a parecer menos compatíveis com os atributos de uma pessoa com nanismo. Mas aceito poder estar errado. Um abraço

josé ricardo disse...

eu só quero deixar aqui expresso a coragem de Francisco Seixas da Costa em revelar o seu posicionamento relativamente às características físicas indispensáveis para a carreira de diplomata, as quais não se compaginam com o nanismo. Discordo, todavia, em absoluto do seu ponto de vista.
O que aqui efetivamente interessava aferir era se o candidato em causa seria ou anão intelectualmente. O mundo não é a preto e branco, como alguém disse. Mas temos obrigação de o colorir um bocado. E o paradigma da inclusão social, assente, aliás, no texto constitucional, pode ajudar nessa mesma pintura. Afinal, ninguém estava a selecionar um guarda-redes, somente um mero diplomata (o adjetivo, aqui, é propositadamente irónico).

um abraço,

josé ricardo

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,´

É claro, que, não está errado.

Sabemo-lo todos, não é?
Uma pessoa com nanismo, limitada e sim deficiente, mentalmente apta, sabe muito bem que certas profissões lhe estarão sempre vedadas.

Se me permite:
Grande parte dos comentadores, não sabe do que fala (escreve).

Be sensible not sensitive!








Anónimo disse...

Só se fala no masculino, por ser abragente ao feminino?

Ou, se fosse uma pessoa feminina com nanismo, alguns não teriam feito os mesmos comentários?

Isabel Seixas disse...

Também considero a situação deveras delicada, também o admiro pela sua coragem em trazer a debate esta situação,revejo-me perfeitamente nos comentários de Fx Meireles e José Ricardo.

Anónimo disse...


Faço notar que não se trata aqui das opiniões pessoais do Senhor Embaixador, pois cada pessoa tem a sua e ninguém tem nada com isso. O que está em causa é a escolha de alguém para uma função de Estado, um cargo público. Ora, eu acho que isto deve ter regras que possam ser explicadas ao comum dos mortais e que possam tornar-se públicas. Não se trata de um dono de mercearia a escolher um ajudante de marçano. Percebo perfeitamente que não se pode contratar para telefonista uma pessoa gaga, por exemplo. É claro se fosse para escolher um agente secreto, a coisa não seria pública, sem prejuizo de o juri ter, ainda assim, de justificar a escolha perante um superior.
Dito isto, posso finalmente alimentar alguma esperança de que sejam aqui finalmente esclarecidas as exigências físicas que se exigem a um embaixador, ou continuamos com prúridos?

Anónimo disse...

Caro Anónimo das 10.59,

O concurso em questão não recruta embaixadores, mas, candidadatos a diplomatas.

A saber, quando admitidos, esses funcionários públicos passam por diversas categorias, depois de completado um período de "estágio"

-secretario de embaixada
-conselheiro
-ministro
-embaixador

Salvaguardando, um ou outro embaixador politico, ou seja, não pertencendo à carreira diplomática, é nomeado para chefiar uma missão.

Após os longos anos entre a admissão à carreira e o seu topo espera-se que, quem o ocupe continue de boa saúde e que toda a experiência adquirida, contribuam para um excelente desempenho na defesa dos nossos interesses!



Anónimo disse...

Caro anónimo das 12.09, obrigado pela explicação. Quer entretanto elucidar-me sobre a questão aqui discutida? Vão-me todos desculpar, mas isto lembra-me o Octávio: "vocês sabem do que eu estou a falar..." ;)

Pedro disse...

Ouvi dizer que o Brasil é um anão diplomático, o que nos torna suspeitos pra julgar seu causo.

Estive à beira de ser magistrado em duas oportunidades: vi-me reprovado em ambas, a última delas na tal prova oral.

Soube depois que a banca examinadora achava-me demasiado jovem pro cargo. Sim, era eu tão jovem, mas tão jovem, que cheguei a cogitar me tornar magistrado. Escapei por pouco!