domingo, 4 de maio de 2014

O Mondrões e as flores

Dizem-me que hoje é dia da Mãe. Nunca percebi por que luas deixou de ser a 8 de dezembro, como aprendi em criança. Nessa Vila Real da minha infância, duas ruas disputavam então o título das mais bonitas passadeiras de flores da cidade, que os vizinhos faziam pela Páscoa: a rua Avelino Patena e a rua Alexandre Herculano. Tenho a "glória" única de ter nascido na primeira e ter vivido na segunda. As restantes ruas da cidade, onde também se faziam passadeiras, nunca estiveram à altura de competir com aquelas duas artérias. Com os anos, as passadeiras deixaram de se fazer. E é pena.

Os desenhos da rua Alexandre Herculano (na imagem) eram da autoria do senhor Lima, proprietário do Café Imperial. Com fama de comunista, sempre mal encarado e desagradável para os seus clientes, o homem só enchia o seu café na noite de Consoada, onde tradicionalmente se alojavam os "hereges" que insistiam em tomar uma bica profissional ou os viciados, a caminho da missa do Galo. Os seus desenhos das passadeiras eram, contudo, dificilmente batíveis (neste caso pelo desenho do senhor Claro, que orientava a rua Avelino Patena).

Para a composição das passadeiras, ia-se na semana anterior pelos montes, em busca de flores. Integrei essa operação algumas vezes. "Briefadas" pelo senhor Lima, um grupo de senhoras avançava de carro para zonas rurais tidas como podendo proporcionar as cores das pétalas desejadas pelo "designer". Eram levadas pelo Mondrões, um motorista reformado que morava lá na rua e cuja contribuição para o empreendimento era conduzir um grande automóvel emprestado à organização. O Mondrões era de poucas falas, resmungão, pouco aberto a aceitar comentários sobre o modo como dirigia. Contavam as senhoras, durante as noites em que no "Ninho" (uma instituição de educação de crianças, também da rua), se fazia a separação das flores, que a condução do Mondrões proporcionava momentos de grande emoção, fruto do estado de quase permanente embriaguês em que o homem andava. Mas a história foi-lhe justa: não há nota de qualquer acidente ocorrido.

É ainda sobre o Mondrões que corria na minha rua um episódio célebre. Um dia, na tasca do Morrinha, também lá pela rua, ao Mondrões foi dado a provar um vinho branco cuja pipa acabara de chegar do produtor. Pedia-se a sua abalizada opinião. O homem, porém, tinha acabado de emborcar uma dose idêntica de vinho tinto, pelo que o seu estómago terá tido um ligeiro incómodo. É então que o Mondrões, mirando o ventre proeminente, tem um "diálogo" com os dois vinhos: "Ou vos aguentais os dois aí dentro, ou vamos os três para o chão!"

6 comentários:

patricio branco disse...

boa saida do personagem, entendam se os dois lá por dentro...

patricio branco disse...

bonita a rua alexandre herculano de vila real, bela a arquitectura dos edificios...
a festa da flor (algo semelhante mas não religiosa) é tambem uma celebração importante na madeira, aliás hoje mesmo se realiza...

domingos disse...

E vá lá que a mistura não deu um "rosé". E logo na terra do dito Mateos.

Isabel Seixas disse...

Também acho as passadeiras de flores uma imagem soberba de tão bonita.

E porque hoje é dia da Mãe, que metáfora melhor para expressar esse amor maternal, único e indivisível do que uma passadeira de flores com as pétalas macias, como serenos os caminhos que as mães traçam para os filhos.

Guilherme Sanches disse...

A minha rua é serena. Tem onze casas, uma carpintaria e dizem que não tem saída, mas tem - é pelo mesmo lado da entrada.
Na carpintaria do Sr Serino fazem móveis que até parece impossível, os quais exportam e instalam por essa Europa central.
Na serenidade da rua, na primavera cresce erva entre os "paralelos", e no outono nascem "coprinus comatus", cogumelos comestíveis a que ninguém mais liga além de mim. que se esvaem rapidamente em tinta preta.
Na minha rua fazem-se passadeiras de flores. De flores e de serrim tingido, da carpintaria do Sr Serino, com desenhos e moldes que por aqui fazemos. Não têm a beleza dos de Vila Real, onde ontem estive e para onde este post me transportou, nem dos de Vila do Conde, mas os da minha rua também são os mais belos desta aldeia. De três em três anos, é a tradição.
Um forte abraço

Portugalredecouvertes disse...

Sr. Embaixador e que dizer ao ataque aos tapetes de flores que em muitas cidades portugueses se fazem pelo Corpo de Deus? com o desaparecimento do feriado é uma machadada nessa tradição de grande beleza! alguém tem pena??!!