terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

França

Começam agora a conhecer-se melhor os pormenores do entendimento que impediu o ataque de uma coligação de potências ocidentais ao poder militar sírio. Uma “oportuna” proposta russa, que abriu a porta à entrega das armas químicas detidas pelo regime de Damasco, deu então aos Estados Unidos o pretexto de que Obama necessitava para não ficar na História como mais um presidente americano responsável por uma acção armada sem mandato legitimador.

O “Le Monde” trazia, há dias, interessantes revelações sobre a decepção que este recuo de Washington trouxe ao governo francês, o qual, desde o início, se havia revelado o mais empenhado e entusiasta proponente de um ataque militar, tal como depois se assumiria como o maior “falcão” na negociação nuclear com o Irão. E é interessante constatar que o recorrente alheamento alemão e o conjuntural anti-belicismo britânico transformaram Paris no “enfant chéri” dos americanos, como há uma semana se observou no tapete vermelho que a Casa Branca estendeu a Hollande.

Mas, que diabo! Não é a França que está na soleira de uma crise de défice, que ameaça o cumprimento das metas europeias, já para não falar da observância dos objectivos do Tratado Orçamental? Não terá a França outra coisa mais em que pensar do que empenhar-se em dispendiosas operações militares, como já foram a Líbia e está a ser o Sahel, sendo óbvio que essa nova “drôle de guerre” não seduz um único eleitor interno? É o resgate da memória de uma potência decadente que leva Paris a envolver-se desta forma no seu tradicional “Proche Orient”?

Ao afirmar a sua centralidade no tabuleiro político-militar global, a França demonstra que, independentemente dos líderes de turno, tem a perfeita noção de que a sua força simbólica no mundo resulta da preservação de um vasto conjunto de sinais, onde não é descurado o seu aparelho diplomático, a atenção às Forças Armadas e uma aguda percepção da importância das suas alianças e fronteiras estratégicas. A França percebe que, na barganha económico-financeira a que não poderá furtar-se no quadro continental, esta sua relevância à escala internacional não deixará de ser contabilizada. E ponderada.

Os países com História e com laços que dela derivam têm a obrigação de não descurar o conjunto de projecções que deixaram na memória colectiva internacional, de aproveitarem, se possível ainda com maior acuidade, todos esses “nichos” de afirmação potencial, que os tornam relevantes aos olhos da comunidade global, que lhe oferecem uma capacidade de interlocução em diversos tabuleiros, da cena diplomática à projecção militar. Dir-se-á, com realismo, que nem todos são a França, que o poder de outros Estados com evidentes debilidades não se assemelha ao de uma das maiores economias do mundo. Assim é, mas há países que já deram provas que, no quadro internacional conseguem “to punch above its weight”, para usar uma expressão historicamente cunhada. Felizes os Estados cujas lideranças têm a lucidez para perceber que é na área externa, onde hoje se joga muito do seu destino, que é necessário manter uma presença activa, mobilizada e consciente dos seus interesses estratégicos. E, a contrario, infelizes os outros.

Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

4 comentários:

Anónimo disse...

Ich verstehe nicht was du sagst.

a) Onkel Wolfgang

patricio branco disse...

as relações da frança com o mundo arabe foram excelentes, com a libia p ex, desde há uns tempos deu se uma reviravolta, vamos lá perceber porquê! afirmação da frança como potencia no mundo? ideologia socialista hollandesa?
tratamento especial de países ou zonas onde historicamente, há muitas décadas, teve influencia? siria, libano...
mas a italia também teve na libia e não se mete nisso, já lhe basta o problema da imigração que vem dali e ainda por cima é acusada de tratar mal os que ali chegam!!
que seja, a frança lá sabe, mas a jogada dos eua apoiada pela solução russa foi de mestre.
também hoje se começa a pensar o que será melhor, se o diabo ou o demónio?
veja se o que se passa no Egipto...
talvez a frança não confie nada no melting pot que é a oposição siria.
eu por mim preocupo-me agora com os horrores que se passam na venezuela, a ue olha para o lado, ali há muito petróleo e gás, e alumínio e carvão, até ministros nossos lá vão mensalmente, entretanto foi morto um universitário português a tiro pela policia de choque, espero que o mne tenha pedido explicações,etc etc

Anónimo disse...

O caro Onkel Wolfgang poderá saber o que é sardinha e brasa mas parece não conseguir deduzir o que é “puxar a brasa à sua sardinha”…
Por vezes os comentários às situações políticas são muito mais complexos do que as próprias situações políticas: Sou capaz de imaginar um sorriso de admiração de Hollande, após tirar o capacete e ler este artigo…
antonio pa

Anónimo disse...

A ler no "DE" : "Facções"

Alexandre