Fui há pouco ouvir Helder Macedo apresentar o livro "Ritornelos", onde se acolhem poemas de Joana Emídio Marques. É o seu primeiro livro de poesia. Deixo aqui um texto:
Beirute
e já não há carne que possa chamar um nome,
fico a vê-la
ir pela estrada de pó
que não leva à cave-escombro sem interior
mas aos hologramas que atravessam os olhos
e abrem neles um grande buraco.
Beirute morre
ou serão os hologramas
que a comandam e arrancam a carne à desolação?
Ele atravessa Beirute
sem ver senão o que paira nos lábios do que não responde.
Já não há carne que possa evocar um nome
nem sequer Beirute.
Ele atravessa Beirute
e não vê o corpo que carrega.
Só ela sabe que Ele veio dessa vez
a única vez.
E carregou-a nos braços
depositou-a no sono.
Só ela sabe que Ele veio dessa vez
tomar-lhe a carne
espalhá-la pelas ruas de pó
pela face dos que fogem
pela boca dos que gritam
Beirute
Beirute.
E já não há carne
a que se possa chamar um nome.
a que se possa chamar um nome.
Só Deus atravessando uma palavra,
carregando-a nos braços
devolvendo-a ao sono, anuncia:
Beirute
O nome é Beirute. Podia ser Kiev. Dedico este poema a um amigo ucraniano, Roman Chlapak.
(A imagem que ilustra este post é um quadro de um autor ucraniano. Parece ser uma imagem da Primavera. Por ora, por lá, ainda é Inverno. Porém, mais cedo ou mais tarde, haverá Primavera na Ucrânia)
(A imagem que ilustra este post é um quadro de um autor ucraniano. Parece ser uma imagem da Primavera. Por ora, por lá, ainda é Inverno. Porém, mais cedo ou mais tarde, haverá Primavera na Ucrânia)
