A título pessoal, só conheci de modo muito superficial Augusto de Ataíde, cuja morte acaba de ser anunciada.
Augusto de Ataíde fez parte de uma geração de políticos que Marcelo Caetano fez emergir na sua breve passagem pelo poder, a maioria dos quais saídos do viveiro universitário em que o sucessor de Salazar se movia melhor e em que foi cultivando a sua gente. Trabalhou no governo de Caetano nas áreas da Juventude e Educação e, a exemplo de outras personalidades dessa geração política, aportou por alguns anos ao Brasil, na sequência do temor às sequelas do 25 de abril. No seu pacífico regresso ao país da democracia, reintegrou-se na vida universitária e, tal como outras figuras académicas conservadoras, normalmente juristas, com raízes sociais na aristocracia ou com laços com a alta burguesia, foi cooptado por importantes grupos privados para integrar a teia dos seus lugares de representação institucional. A política em liberdade não parece tê-lo seduzido.
Um dia, há já alguns anos, caiu-me nas mãos uma biografia de Augusto de Ataíde. Não era um texto político, relevava do memorialismo pessoal e familiar, com a curiosidade de se centrar muito na sociedade açoreana, um microcosmos a que sempre atribuí uma graça especial. Sem ser uma obra excecional foi, contudo, para mim, uma curiosa revelação, não apenas por me ajudar a compreender melhor o ambiente de um certo Portugal do Estado Novo de província mas, muito em particular, por expor, com uma candura que só pode merecer o nosso respeito, uma séria crise na sua família, que muito terá marcado a existência do autor. Não tinha a menor ideia pessoal sobre Augusto de Ataíde, desde a sua saída da cena política. Com a leitura de "O Percurso Solitário", nome do seu livro, dei-me conta de estar perante um homem de bem, sendo embora alguém que sempre esteve num quadrante que nunca foi o meu. Mas, no que me toca, tenho sempre pena ver desaparecer pessoas de bem, venham elas de onde vierem.
