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terça-feira, fevereiro 18, 2014

Vitor Gaspar

Acabei de ler a longa entrevista de Maria João Avillez a Vitor Gaspar, que agora saiu em livro. Não me trouxe grandes surpresas, mas deu-me alguma informação que não tinha. Sem qualquer ironia insultuosa, várias vezes me lembrei, ao longo do texto, da frase de Salazar - "sei o que quero e para onde vou".

Vitor Gaspar mostra, com uma transparência de que talvez ele próprio não tenha total consciência, a arquitetura cristalina do seu pensamento. Compete a um decisor político fazer escolhas, hierarquizar valores. Vitor Gaspar fá-las sob a lógica de um determinismo que a si próprio se impôs, porque não se permite pensar "fora da caixa", porque isso violentaria o modelo que, para si, considera sagrado, por inelutável e inescapável. O capítulo em que fala da construção da TSU é, talvez, o mais paradigmático exemplo dessa distanciação a que se obrigou. Diz também muito do entrevistado o modo como aborda a indignação social que o anúncio da medida gerou, que vai muito para além da surpresa: sente-se, no fundo do rebuscado discurso, como que um indizível impulso de "mudar de povo", para utilizar o termo de Brecht. Uma última nota: o país, a Pátria, Portugal surgem sempre na "narrativa" do antigo ministro quase que como uma mera dimensão geográfica, produto de um acidente histórico, despido de qualquer afetividade, como se o esgrimir do sentimento nacional pudesse poluir o rigor da aplicação do modelo. É impressionante!

(No meu tempo de culto marxista, cuidava em "corrigir-me", sempre que notava em mim uma deriva "mecanicista", isto é, a crença na causalidade mecânica, histórica ou social; ao ler este discurso, constato que esse desvio "marxiano", porque não marxista, faz parte integrante do estado a que hoje chegou a ideologia liberal, embora "ao invés").

Saí deste livro - um livro indispensável, um serviço público para a compreensão dos atores políticos contemporâneos do país e daquilo que os orienta, que ficamos a dever à boa escrita de Maria João Avillez - com um sentimento de imensa preocupação.

É a vida!

Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semana...