Desde há muito que sinto um imenso fascínio pelas fronteiras. Recordo, como se fosse hoje, a emoção que tive ao atravessar pela primeira vez a fronteira entre Portugal e Espanha, entre Vila Verde da Raia e Feces de Abajo (deixo uma imagem contemporânea do espaço), para ir à festa do Lázaro (nós dizíamos "dos Lázaros") a Verín. Passar para o "outro lado", para o lado do "outro", foi uma experiência que me marcou para sempre.
Ao longo dos anos, atravessei fronteiras muito diversas. Fui interrogado numa fronteira alemã, durante longos minutos que me pareceram horas, no dia em que Ulrike Meinhof foi detida. Senti o incomparável gelo do "checkpoint Charlie" quando Berlim era "a sério". Fiz fila, com compatriotas emigrantes, para tomar forçadamemente um medicamento em Handaye, quando ia "à boleia" de um Portugal onde a cólera era considerado um problema (não obstante ter as vacinas em dia). O meu passaporte foi sujeito a um longo escrutínio quando pretendi entrar em Israel com vários carimbos de anteriores visitas (em trabalho) à Líbia. Anos mais tarde, a coreografia das armas e segurança, na travessia para a faixa de Gaza, deixou-me uma impressão inigualável. Guardo para sempre o ambiente único da fronteira entre a Tanzânia e o Quénia, rodeado de inquisitivos Masai, numa tarde de imenso calor. Passei as "passas do Algarve" para conseguir aceder ao Usebequistão, ido do Quirguistão, com um grupo da OSCE. Nessa mesma qualidade, foi muito curioso ser submetido a um longo interrogatório, quando atravessei a tensa fronteira da Geórgia para a Ossétia do Sul. E fui protagonista de (pequenos, mas memoráveis) incidentes em fronteiras de entrada em países como os Estados Unidos, Gabão, Cambodja ou da antiga União Soviética. Podia escrever por horas, sobre fronteiras atravessadas.
A minha (antiga) profissão não existiria sem fronteiras. Os diplomatas só têm razão de ser porque existem entidades nacionais distintas. As fronteiras são a "encadernação" dos Estados. Sou, por isso, um profissional de fronteiras. Ainda hoje, para não "perder a mão", atravessei a de Barrancos para Ensinasola, agora já sem a "graça" dos pides e dos tricórnios da Guardia Civil.
Por esta ou por outra razão, fiz ontem parte de um painel que, em Moura, discutiu fronteiras, ou melhor, o tema "Moura - das fronteiras locais às fronteiras globais". Foi um grupo de oradores muito diverso, que cobriu vertentes institucionais, culturais, antropológicas, geográficas, económicas e geopolíticas. Foram cerca de duas horas muito interessantes, num exercício pouco comum numa urbe de província, habilmente mobilizada por um município disposto a abalar a rotina dos dias locais. Parabéns, Santiago Macias, e obrigado pelo privilégio que me deu de fazer parte desse belo debate.
