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quinta-feira, fevereiro 27, 2014

Joaquim Paço d'Arcos

Há duas figuras nas letras portuguesas que sempre achei depreciadas pela crítica e pelo "consenso" público: Joaquim Paço de Arcos e Pedro Homem de Melo. Dir-se-á que é o facto de ambos terem sido figuras conservadoras, "de direita", não ajuda a que sejam reconhecidas por um mundo literário onde, diga-se o que se disser, a esquerda continua a prevalecer. Será o caso de Agustina Bessa Luís a exceção a confirmar a regra? Pode haver aqui alguma ponta de verdade, mas há que convir que, mesmo entre os seus pares ideológicos, estes dois nomes foram sempre tratados com alguma sobranceria, sendo a ambos negada ostensivamente a ascensão ao patamar superior da literatura portuguesa. Estou longe de ser um especialista, mas, como simples leitor, e em ambos os casos, isso parece-me injusto.

No caso de Pedro Homem de Melo, Vasco Graça Moura já pôs os "pontos nos is" no prefácio que há muitos anos fez à recolha da obra completa do poeta que a Imprensa Nacional editou. Recordo-me que ofereci esse livro ao meu pai, que tinha uma veneração pela poesia de Homem de Melo a que não era seguramente alheia a sua dedicada escrita sobre o mundo minhoto ("Havemos de ir a Viana..."). E que, ao ouvi-lo declamar alguns poemas, decidi comprar outro exemplar para mim.

Ontem, ao final da tarde, estive numa sessão que o Círculo Eça de Queiroz organizou para celebrar a reedição, num só volume, das "Memórias da minha Vida e do meu Tempo", de Joaquim Paço d'Arcos. Fernando Pinto do Amaral faz uma magnífica evocação do autor e da importância do livro. Guilherme Oliveira Martins complementou-o com sábias evocações. Dois homens de esquerda a saudarem um autor conservador, um excelente prosador, um escritor com uma forte sensibilidade e uma perceção muito rara das idiossincrasias da sociedade portuguesa. Sem alguns dos seus romances, uma certa Lisboa da viragem da metade do século passado é mais difícil de entender. Com estas "Memórias", ao longo dos anos, aprendi muito sobre um certo Portugal. Devo isso a Joaquim Paço d'Arcos e a minha presença na sessão de ontem teve também muito a ver com esse facto.

É a vida!

Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semana...