sábado, 20 de julho de 2013

Livros

Distraído com outras coisas, dou-me hoje conta que a "Sá da Costa", a histórica livraria do Chiado, vai fechar nas próximas horas. Sinto-me especialmente triste pelo facto? Nem por isso, exceto na medida em que o encerramento de uma livraria é sempre uma machadada no património cultural.

Recordo, bem jovem, entrar naquele ambiente escuro e sentir, com alguma incomodidade, as conversas da tertúlia idosa que abancava no local suspenderem-se com o surgimento do intruso. Por alguns anos, a "Sá da Costa" intimidava-me, criava-me um certo desconforto, o que me levava a ser um visitante esporádico. Em certas alturas, tinha a sensação de que faziam um favor ao venderem-me algum livro. Nos últimos tempos, sentia, por vezes, alguma curiosidade em entrar naquele espaço decadente apenas para apreciar a estranha mescla de volumes que compunha as mesas laterais de entrada: "best sellers" misturados com obscuras edições de autor, estudos microscópicos sobre temáticas raras junto a volumes para turistas, prolongando a especiosa escolha que era feita nas duas montras. 

Nunca percebi a "Sá da Costa", a sua lógica e a sua filosofia. Reconheço que o defeito deve ser meu. E deve ser o mesmo que fez com que não tivesse sentido muito o fim da vizinha "Diário de Notícias" ou da "Portugal". Ou que me faz ser algo "neutral" face à "Bertrand", que apenas reconheço fazer parte da identidade da zona, hoje transformada numa espécie de Algarve lisboeta. Por mim, guardo saudades livreiras do Chiado apenas para a "Moraes" e para a "Opinião".

7 comentários:

patricio branco disse...

ficarão os classicos sá da costa dessa livraria que deve ter tido o seu papel, função, especialização e espaço, quem se reunia lá? na bertrand era o aquilino, o almada negreiros, na sá da costa não sei, está por fazer uma historiografia das livrarias de lisboa, não o habitual, albuns de fotografias antigas, mas o papel que tinham, o tipo de livros que vendiam, a especificidade de cada uma, os grupos intelectuais que cada uma reunia, os seus catálogos como editoras, não só vendedoras, etc.
muitas outras terminaram, a luso-espanhola, a portugal, as citadas moraes, uma francesa mais acima, quase no largo trindade coelho, a parceria abaixo, os antiquarios livreiros e alfarrabistas tambem a fechar quase todos, ficam a bertrand e a ferin, sim, não sejamos nostalgicos, mudam se as vontades e os tempos, hoje há novas fnacs, leyas, depois que haverá?

Catinga disse...

Sempre me cheirou a mofo essa livraria. Era entrar e sair.

Anónimo disse...

Não conheci as duas últimas que mencionou. Sobre a Sá da Costa, concordo que o ambiente era estranho e que, dificilmente, nós sentíamos à vontade em folhear um livro ou perguntar por um autor. Tudo arrancado a ferros.
Mas foi lá que descobri alguns dos meus autores favoritos e onde se vendiam as edições da finisterra e de outras revistas inexistentes noutras espaços.
Nos últimos tempos, já com poucas esperanças de sobreviver, um grupo de jovens fez daquele sítio uma verdadeira livraria: conhecedores, amáveis e com edições que só ali se encontravam. Tenho pena por esses miúdos.
Recomendo a Letra Livre, livraria de fundos que, a par com alguns alfarrabistas resistentes na zona, ainda sabem que produto vendem: o livro.
Já gora, aproveito para referir as saudades que tenho da Eterno Retorno e da Ler Devagar na Rua de São Boaventura.
António Nunes

Anónimo disse...

Não tendo sido nunca politizado, desde sempre a Sá da Costa foi para mim uma livraria de esquerda republicana. Quando lá ía era mais para ver o que se publicava nessa área. Assisti a uma decadência que nunca percebi a razão mas.... eu não sei se não será a mesma que este país está agora a atravessar.

Anónimo disse...

Curiosamente, há largos anos, das poucas vezes que lá entrava, me recordo de ver um grupo de "intelectuais" de idade já entradota, ao fundo, com ar observador para quem entrava..., o que mos deixava pouco à vontade.

Anónimo disse...

Caro embaixador: que grandes recordações do Sr. Edmundo Costa da Morais, no Largo do Picadeiro!Grande livreiro!!!

Anónimo disse...

do ponto de vista olfactivo, sempre um critério essencial para julgar uma Livraria, a Sá da Costa vinha no topo da lista (memórias de 1971)

JRyder