quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Eça

Há mais de três décadas, uma editora oficial que oferecia os livros que publicava (é verdade, havia disso!), chamada "Terra Livre", deu à estampa as "Imagens do Portugal Queirosiano", de um (até então) para mim desconhecido A. Campos Matos. Vim a saber tratar-se de um arquiteto que se dedicava ao estudo de Eça de Queirós (um "queirosiano", como de diz em Portugal, ou um "ecista", como se diz no Brasil). A partir daí, adquiri tudo quanto Campos Matos publicou, incluindo as duas edições e o suplemento do magnífico "Dicionário de Eça de Queirós", que coordenou.

Surge agora, editado em Paris, da autoria de A. Campos Matos, pela mão das "Editions de la Différence", com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, o livro "Vie et Oeuvre d'Eça de Queiroz". Trata-se não apenas da primeira das (até agora) oito biografia existentes do escritor que surge em língua francesa mas, igualmente, da primeira cuja edição original é aqui publicada.

Os interessados em adquirir o livro devem ter alguma calma. É que, segundo a Amazon, ele só estará disponível no dia 4 de Março. Perdoarão, no entanto, que este "colega" mais novo do antigo cônsul português em Paris usufrua o privilégio de já dispor de um exemplar...

Na impossibilidade de mostrar uma imagem razoável da capa do livro, fica, pelo menos, a clássica fotografia que a ilustra, onde o nosso Eça figura no seu jardim em Neuilly.

23 comentários:

José Barros disse...

Já ouvi falar, mais de uma vez, de uma certa mediocridade de alguns diplomatas portugueses... Mas também há, e sempre houve, em todas as épocas, os de elevado mérito e que ficam na história para muito tempo. O Eça e o Aristides de Sousa, de entre os que representaram Portugal em França, devem figurar nos primeiros lugares.
Um pequeno reparo para a foto escolhida: O cigarro Sr. Embaixador, o cigarro... O Sr. não tem tesoura?

Margarida disse...

“(…) Um pequeno reparo para a foto escolhida: O cigarro Sr. Embaixador, o cigarro... O Sr. não tem tesoura?”

(Excelência, vamos lá para o ringue, exercer uma espécie de contraditório…)

Caro José Barros, esperando ter interpretado bem o seu reparo, tenho de produzir o meu: os homens (“y compris” as mulheres) estão longe de ser modelos de perfeição (o que quer que isso seja) e, atrevo-me a defender, as pequeninas falhas, os ligeiros desvios, os ínfimos pecadilhos e as latentes deficiências, são o sal (e a especiaria) da essência de quem somos.
Eça era um modelo de muita coisa, e seguramente dos tempos em que vivia; tempos esses em que o tabaco fazia elegante parte.
Eliminar o cigarro ou colocar-lhe uma tímida palhinha na imagem, como fizeram com o imperturbável Lucky Luke, seria um tremendo atentado à verdade da História. E lembra certos retoques estalinistas de má memória. O ‘politicamente correcto’ é excessivas vezes algo deveras atroz.
Estes juízos muito níveos do que devem ser usos e costumes castram a liberdade pessoal de uma forma despótica. E profundamente injusta.
Atrevo-me a imaginar que nos dias que correm Eça fumaria, sim.
Apesar de tudo o que se sabe sobre os malefícios da coisa.
Fumaria enquanto lhe responderia, a explicar com a classe que não possuo, que a pedagogia deve parar à porta do gosto e, acima de tudo, do prazer individual.
Não o faria em local público, por certo, cavalheiro que eternamente será, mas arranjaria espaço de tertúlia apropriado aos ‘viciados’ no fumo.
Um prazer especial para quem o pode e sabe apreciar. Sem perturbar o próximo, obviamente. Mas também sem deixar se ser quem se é.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Barros: Nunca, jamais, em tempo algum eu eliminarei um cigarro de uma fotografia. Esse "politicamente correto" comigo não será seguido. Pelo contrário: já aqui tenho protestado por esse fundamentalismo sem sentido, a propósito de Lucky Luck, Coco Chanel, M. Hulot ou Alain Delon. Já basta o que basta!
E, convém que o diga: não fumo nem nunca fumei...

Margarida disse...

Dois contra um é que não…, fico logo condoída e quase só me apetece ‘mudar de campo’!
Convenhamos que o ‘politicamente correcto’ é uma malaise contagiante.
Que tantas vezes, se distraídos, os deixamos levar pela onda.
Mas há sempre hipótese de arrepiarmos caminho.
De fazermos frente ao cinzentismo ou à ‘normalização’ empobrecedora que nos tentam impingir e com a qual pretendem uma espécie de ecologia mental.
Tantas vezes me deparei com incongruências pessoais; e com mudanças de rumo.
Às vezes diametralmente opostas àquelas pelas quais cuidava seguir bem.
Também se chama a isso aprender, crescer, conhecer melhor e sentir mais.
Conceder a diferença a quem a deseja. A quem assim é.
Porque, excelência, no ringue, além dos pugilistas, só há o árbitro. E, vá lá, nos cantos sanguinolentos e aflitos, o treinador animado.
Quanto ao (seu) remate, apetece-me muito cantarolar: “Take a walk on the wild side…” tschu-tschu-ru, tschu-tsch-ru…
...K.O. ...?
:))))

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Margarida: um dia, num restaurante em "downtown" Manhattan, ouvi atrás de mim, numa mesa, uma voz que me parecia conhecer. Resisti à curiosidade por minutos e, quando olhei... era o próprio Lou Reed! Vivia em frente, segundo me disse o empregado. Coisas do "wild side".

Anónimo disse...

Ainda ontem comprei na Galileu em Cascais uma (nova) biografia de Eça de Queirós de A.Campos Matos. Recentemente, tinha lido o livro de Filomena Mónica sobre Eça, que também apreciei e A.Campos Matos tem um outro muito interessante sobre com ilustrações das personagens dos livros de Eça, esta uma publicação de há um par de anos atrás. Eça e tudo o que verse sobre ele recomenda-se sempre!
P.Rufino

Margarida disse...

(L'agent provocateur,no caso, l'agente provocatrice... ;)... e um cocktail de Poncha, s.f.f. (é a chamada 'boa vida', que às vezes é tão necessária..., allons-y! Ou como por causa de Eça acabamos todos 'nos copos' a cantarolar amicalmente!)

"Les cigarillos ont cet avantage d’ faire le vide autour de moi
J’en apprécie le tabac
Et la prévenance
Les cigarillos n’ sont pas comme moi, empreints de timidité
Et leur agressivité
Est tout en nuance
Sans vous dire jamais rien qui vous blesse
Ils vous congédient avec tendresse

Ah ! quel tabac
Quel tabac
Quel tabac
Quel tabac

Les cigarillos me valent bien souvent les adieux éplorés
Des femmes de qualité
Et de courtisanes
Les cigarillos savent comme moi que ce n’ sont pas mes beaux yeux
Qu’elles implorent, mais un peu
La fin du havane
Sans attendre que tout se consume
Elles disparaissent dans la brume

Ah ! quel tabac
Quel tabac
Quel tabac
Quel tabac"


Serge Gainsbourg - Les Cigarillos

Bento Freire disse...

Senhor José de Barros, eu, que não sou diplomata, julgo que a mediocridade de que fala está longe de caracterizar a grande maioria dos diplomatas portugueses. Pelo contrário, só uma escassa minoria deve merecer essa classificação.
E, entre os que devem figurar nos primeiros lugares, não incluiria o Eça que figura, merecidamente, entre os maiores escritores da nossa língua mas não se distinguiu na área da diplomacia.
Se tentasse, por exemplo, citar-lhe nomes de escritores-diplomatas, teria grande dificuldade em esgotar uma lista, tantos e tão bons eles são.
Mas, claro, alguns, como escritores são bons diplomatas; outros, como diplomatas são bons escritores. Mas há um punhado deles que são bons em ambas as coisas.

Margarida disse...

Aclaração:
não faço a apologia do tabaco, mas da responsabilidade pelos gostos, tanto próprios, quanto alheios. Fumo pouquíssimo (quase nada, porque um cigarro /dia até o meu cardiologista concorda) e sempre por gosto e nunca por vício.
Isto desde os 13 anos, pelos jardins do liceu Rainha Santa Isabel, onde tal constituía a transgressão disponível. E possível, face às minhas cautelas e formação.
De todos, o fumo dos cigarros é o menos… perfumado (o de cachimbo é absolutamente hipnótico… convivi com ele por anos e ainda me faz sorrir).
Depois há aquele ritual dos charutos…
Mas, sobre isto, haverá vozes mais abalizadas (onde anda Milady?!)
:)

Anónimo disse...

Eu e meus irmãos chegámos a fumar um tapete (de palha, creio eu) de meu avô da Beira-Alta, quando nos “impunha” umas rezas a anteceder o jantar, sempre que lá íamos visita-lo e passar férias com ele (que muita saudade nos deixou!). Devagarinho, lá íamos extraindo parte do dito, enrolávamos os “pingos” de tapete e fumávamos “secretamente”. Nosso admirável avô, postado de joelhos (estávamos todos nessa posição de frente para o oratório que lá tinha), fingia que não percebia (tinhamos entre 13 e 10 anos!) e a certa altura, sem se voltar, dizia: “sinto fumo, meu marotos! Toca a rezar! Se me volto e vejo algo errado, ninguém janta comigo à mesa!” E lá apagávamos o “cigarrito”. Todos contentes por termos feito uma malandrice, sem perceber que o velho avô topava tudo. Bons tempos! Mais tarde fumei cigarro, cachimbo e charuto. Depois optei apenas pelo cachimbo e hoje não fumo, há muito, coisa nenhuma. Mas não sou fundamentalista.
E fumo por fumo, prefiro o do tabaco ao da corrupção.
P.Rufino

Helena Sacadura Cabral disse...

Maggie,
Milady esteve, embevecida, a ler-vos enquanto fumava um Cohiba, devagar devagarinho, que os prazeres, na minha idade, são os que duram mais tempo. O balão ligeiramente aquecido,tem um ótimo Bas Armagnac ( de La Fontaine de Coincy)que acompanha o fálico símbolo. E é neste ambiente que vos saúdo depois de um dia estafante a discutir o eventual PEC que, sabe-se, é como discutir o sexo dos anjos.
Desta vez Margarida, foi Madrid e não Paris...

José Barros disse...

Desculpem-me aquela diversão involuntária do assunto principal tratado neste tema. Estou de acordo que a história é a história e é dever de cada um opor-se aos atropelos. Só tenho pena aquela minha diversão ter sido tomada a sério... Pensei que a forma como escrevi a última frase, com tom irónico, ao falar de tesoura nestas circunstâncias de censura de má memória, permitiria outra leitura diferente o que não aconteceu. Precisaria de uma gargalhada acentuada que não soube manifestar. Mas ri depois, de contente, ao constatar os protestos à minha galhofa. E meus senhores e minhas senhoras, até podem vir fumar para o meu salão que eu preparo-lhes café ou chã...

Margarida disse...

…ah, os terrores da escrita…
O que lavro traduzirá deveras o que sinto?
E, sobretudo, entender-me-ão verdadeiramente?
Porque existe também quem considere que “na nossa escrita todos revelamos apenas a imagem que pretendemos revelar, no pressuposto (errado) de que os outros compram essa imagem por boa. É tudo um jogo de espelhos”.
Isto entristece-me tanto…, mas compreendo. Com o tempo a ingenuidade some-se ou é-nos retalhada.
A candura quanto à verdade do que lia foi depredada, quando, entre risos de incredulidade, me asseveraram que o que lera não correspondia à realidade. Vinda de quem vinha e sobre quem se tratava (dois dos meus deuses da palavra), foi demolidor.
Aí, sim, revelou-se um mundo de espelhos; uma farsa.
Ou demonstrou-se que eu era excessivamente crédula, simplesmente.
O amigo José Barros defende ter empregue um tom irónico, mas é facto que, não o conhecendo, a nossa leitura foi linear e severa e nessa medida hasteámos bandeiras de uma causa pífia.
Fico deveras contente que não tenha entendido o remoque de outra forma e que o seu estupendo sentido de humor tenha prevalecido porque as contendas me provocam séria urticária.
E, já agora, esse convite deve entender-se virtual ou eventualmente exequível?
É que sabia pela vida um chá branco com aroma a baunilha…

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Maggie, agora é que acredito que a neblina que ontém me envolveu, lerdou meu raciocínio...
" É que sabia pela vida um chá branco com aroma a baunilha...".
Não entendo.Milady precisa ser esclarecida...ou terá de charutar menos e não tocar em Armagnac's!

Margarida disse...

...um dia monsieur l'ambassadeur corre com os convivas que se instalam pelo salão, enchendo-o de fumo, de tilintares de gelo e de gorjeios, comme les petits oiseaux...
.. :)
Milady, falo do chá como opção a propósito do gentil «convite» (?) do nosso bem humorado José Barros...
Mas na falta deste (chá), um café duplo também é aceitável ou (é a loucura) um Bas Armagnac ( de La Fontaine de Coincy) ou quejando!
Num dia como o de hoje, em que já desabafei "(...)estou capaz de 'matar cachorro a grito', só me apetecem disparates, a saber: esganar o meu chefe; jogar pela janela um colega que eu cá sei; dormir cinco dias seguidos; partir para o Japão ou atravessar a América pela 66 numa auto caravana com mais um punhado de gente gira (e um cão); comer duzentas-e-cinquenta-e-cinco gramas de chocolate com nougat; beber dois ou três cálices de... qualquer coisa(..)"...
Bem , num dia assim, mais me valia ficar muda e queda e resistir à sua querida interrogação...
Mas eu, helás, não regulo!
É desta que monsieur l'ambassadeur me dá voz de prisão! (pode, não pode?!... nunca sei bem os "poderes" dos diplomatas...)
... e vejam só onde Eça nos pode, inadvertidamente, levar...!
;)

Julia Macias-Valet disse...

Senhor Embaixador, desta vez nem sequer foi necessaria uma frase no final para desviar os comentarios de um caminho literario.
Excepçao seja feita a P. Rufino...Eça agora !

Sao impossiveis estes(as) comentadores(as)... ; )

Helena Oneto disse...

Em tempos difíceis onde a meteorologia se alia à política para nos “saper le moral”, o melhor remédio é ler Eça ou sonhar como no “Rooms by the Sea” ou sublimar a solidão no "Nighthawks" de Hopper ou ler o que aqui se escreve à propósito de um simples cigarro! Tal como «Terra Livre» ofereceu leitura, também neste “espaço livre” nos é dado não só cultura como o prazer de descobrir prolíferas vocações literárias. Viva o Eça!

Margarida disse...

Julia: Ouch! :)

Helena: "vive monsieur l'ambassadeur!" - que demonstra uma excepcional tolerância e um "charmant" espírito humorístico que o seu ar quase severo (eu escrevi 'quase'!) não deixa adivinhar...
;)

Helena Oneto disse...

Oui Margarida, c'est un Monsieur charmant et en rien sevère... quant à tolérance et à l'humour il en a à revendre!

Margarida disse...

Que vous êtes heureuse d’en savoir!
Je le soupçonnais, quand même…
:)

Julia Macias-Valet disse...

Dear Maggie, o que escrevi nao foi uma critica (quem sou eu para criticar...) mas apenas uma constataçao ! E bem que me diverti enquanto a li.

Quanto ao cigarro também partilhei esse prazer. Fumei o primeiro com 11 anos numa colonia de férias na Areia Branca. Creio que foi o meu primeiro passo da crise da pré-adolescência. Sim porque fumar cigarros da marca "Sporting" quando se é filha de um nao-fumador e socio cativo do Benfica, é a revolta maxima que se pode ter para com o poder parental...

Caso esteja perdoada "me apunto" também para a hora do cha (mas nao gosto, nem do branco nem do fumado) ou do café (e ai gosto de todos).

Margarida disse...

Julia ( o nosso anfitrião já deve suspirar, arrependido de tanto ter franqueado a porta da casa..."Então eu a escrever afanosamente sobre algo tão interessante e estas visitas só no 'tré-lé-lé' inconsequente?! Ai!" ).
"Critique" à vontade, Julia. ;) e sossegue que percebi o carinho.
Chá, café ou o que seja, quem sabe um dia?!
Coisas mais 'estranhas' já nos sucederam na vida, tenho a certeza!
:)

Anónimo disse...

Sr. Embaixador
Faço eu um pequeno retiro a Valladolid no ambito da internacionalização, Bolonha and so on...
E à luz da subjectividade e da vontade de partilhar os seus serões intemporais estas senhoras "Aparcam aqui sem preâmbulos"com a desculpa do mote do Eça Agora(oh! Júlia achei o máximo), Bem então a menina Margarida se fosse para mim um simples Mail despoletava logo o seu miminho, assim eu chego e o que vejo?!!!!
Nove?!!! posts?
Mas comprou o espaço que lhe dá mais direitos?
Sim Senhor...Posso também auferir do café carinhoso? Chá não, que tomei muito em pequena e como podem ver não adiantou nada, então no que concerne ao parece mal...
Isabel Seixas