quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Arafat

Na ocasião em que passam cinco anos sobre a morte de Yasser Arafat, apetece-me recordar o que, nessa altura, escrevi no jornal "Público", sob o título "Com olhos em Gaza":

"A face pálida de Yasser Arafat tornou-se ainda mais lívida, ao ouvir o que lhe disse o colaborador que interrompeu bruscamente a conversa que o presidente da Autoridade Palestiniana mantinha com Mário Soares, na minha presença. Arafat balbuciou qualquer coisa e saiu, apressado, para uma sala ao lado, deixando-nos a conjecturar sobre o que tanto o perturbara. Quando regressou, denotava uma imensa preocupação: Shimon Peres, então ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, acabara de lhe confirmar que, pouco antes, o primeiro-ministro Itzhak Rabin havia sido alvejado num comício em Tel-Aviv. Não se conheciam ainda pormenores sobre o seu estado. Sem o dizermos, o cenário de um atentado de autoria palestiniana atravessou-nos a todos. Minutos mais tarde, veio a saber-se que o autor dos disparos fora, afinal, um judeu radical e que Rabin, entretanto, morrera.

Estávamos em Gaza, em 5 de Novembro de 1995, após um jantar oficial, regressados à "guest house" da Autoridade Palestiniana, numa inédita visita do Presidente da República portuguesa iniciada nessa tarde, que eu acompanhava em substituição de Jaime Gama. A simpatia por Portugal e o imenso respeito de Arafat por Mário Soares ficaram patentes em vários gestos, desde a nossa chegada. O líder palestiniano fazia questão de recordar a atitude corajosa e solidária de Soares quando, anos antes, este fora visitá-lo a Beirute, sob fogo, durante o cerco sofrido pelas forças da Al Fatah.

A comitiva portuguesa saíra de Jerusalém, nessa manhã, após uma visita oficial de três dias a Israel. A presença do presidente português ficara marcada pela contínua expressão da amizade e admiração de Itzhak Rabin e de Shimon Peres, que viam em Mário Soares, simultaneamente, um sólido amigo de Israel e um militante pela reconciliação no Médio Oriente, defensor dos direitos do povo palestiniano. Viviam-se os tempos de esperança posteriores aos Acordos de Oslo e Washington e, a avaliar pelas medidas de segurança excepcionais que rodeavam Rabin, que haviam obrigado a súbitas mudanças do programa, pressentiam-se os riscos que o primeiro-ministro israelita estaria a correr para forçar, de uma vez por todas, as portas da paz possível. Mas estávamos muito longe de pressentir a tragédia. Arafat despediu-se de nós, nessa noite, com uma sombra triste no olhar que não perderia na manhã seguinte, quando abreviámos a visita, para nos deslocarmos ao funeral de Rabin. Acto a que ele, contudo, não pôde assistir, como desejaria. Recordo as palavras trocadas por Soares com Arafat, no momento da nossa saída de Gaza. Do pesar que ambos sentiam pela desaparição de Rabin ressaltava a consciência mútua de que nada voltaria a ser igual no destino daquilo a que então se chamava o Processo de Paz do Médio Oriente.

Voltei a encontrar Arafat algumas outras vezes - em Barcelona, em Malta, em Bruxelas e em Nova Iorque. Sem excepção, perguntava-me sempre pelo seu "amigo Mário Soares" e teimava em relembrar, na sua voz cada vez mais trémula, aquela noite em Gaza, que lhe deve ter ficado na memória dos seus sonhos perdidos de uma Palestina livre.

Yasser Arafat cometeu, nos anos que se seguiram, uma imensidão de erros políticos, imerso numa conjuntura em que se deixou enredar, em que o radicalismo tomou conta dos acontecimentos, de um lado e do outro de uma barricada de ódio, hoje ironicamente simbolizada num muro real de incompreensão. O conflito israelo-palestiniano converteu-se, entretanto, numa imolação de inocentes, numa bola de neve de violência e de terror, com que já convivemos sem espanto, à vista do cinismo estratégico dos feiticeiros da realpolitik, da cobardia complacente de alguns e da fraternidade hipócrita de outros. O mundo tarda em perceber que, graças à aliança objectiva de messianismos contraditórios, alimentados pelo desespero e pelo fanatismo, se ateou a partir das margens do Jordão, à vista de todos, um incêndio imenso, que não pára de estender-se e que está, cada vez mais, longe de ser debelado, ardendo como o petróleo que lhe alimenta as raízes.

Em 5 de Novembro de 1995, morreu Itzhak Rabin. O ocaso de Yasser Arafat terá começado na mesma data, precisamente nove anos depois. Esta coincidência sela o destino trágico dos dois homens que mais perto estiveram de obter a paz para os seus povos."

Apetece-me perguntar: mudou, entretanto, alguma coisa?

3 comentários:

Helena Oneto disse...

Lembro-me que estava de visita no Brasil quando Itzhak Rabin foi assassinado. Segui, em directo, pela CNN, o derolar dos acontecimentos. Fiquei horrorizada pois apercebi-me logo que o Processo de Paz iria ficar mais que comprometido.
Os multiplos erros políticos, e não só, que Arafat cometeu, e os demais que deixou cometer, condenaram-no a um fim bem triste. Arafat levou com ele as esperanças de paz na Palestina.

Gil disse...

Não, não mudou muita coisa.
Ainda ontem vi um excelente cartoon: no centro do desnho, uma mesa de negociações; de um dos lados, deixando uma cadeira vazia, afasta-se, de ombros vergados e ar frustrado, Mahmud Abbas.
Do outro lado,um tanque de guerra com um canhão cuja boca esta apoiada na mesa; em cima do tanque, com ar acusador, de mãos nas ancas, Byniamin Netaniahu diz: "Veem? Ele não quer negociar..."
Rabin foi condenado a um triste fim porque quis negociar.

Gonçalo Pereira disse...

Prezado senhor embaixador. É a segunda vez que lhe faço isto: usei um post seu como muleta de arranque para um texto meu. Não volto a repetir.
Evoco aqui a primeira entrevista (que eu saiba) de Yasser Arafat aos media portugueses: http://ecosferaportuguesa.blogspot.pt/2013/02/a-entrevista-da-tsf-yasser-arafat.html
Cumprimentos,
GP