terça-feira, 10 de março de 2009

A França e NATO

A classe política francesa está hoje dividida pela decisão, anunciada pelo presidente Sarkozy, de fazer regressar o país à estrutura militar integrada da NATO, por ocasião da próxima cimeira da organização, já em Abril.

Este é um debate complexo, porque se prende com a "excepcionalidade" que o Presidente De Gaulle criou para a França face à organização, num momento em que Paris pretendeu afirmar a sua autonomia em matéria de armamento nuclear. A partir de então, polarizada por uma certa conflitualidade com os Estados Unidos, fruto da rejeição do que considerava ser uma espécie de tutela de Washington sobre a defesa europeia, a França marcou as suas distâncias face à NATO, afastando-se da sua estrutura militar, embora não abandonando os mecanismos políticos da Aliança Atlântica.

O mundo, entretanto, mudou muito. O muro de Berlim caiu, a URSS desmoronou-se e a Guerra Fria acabou, o derrubar das torres gémeas trouxe o alerta para novas ameaças e a segurança e a defesa europeias vieram, progressivamente, impor-se como uma realidade sem a qual tem pouco sentido e eficácia o próprio projecto político integrador do continente. A França acabou por caminhar, nos últimos anos, num relação de crescente proximidade com a NATO, participando em operações da organização, dentro e fora do teatro europeu, e partilhando, na prática, as suas novas opções em matéria de afirmação operacional e doutrinária.

Com as expectativas criadas pela chegada de uma nova administração americana, e com as hipóteses disso poder criar um espaço inédito para a estruturação de uma defesa europeia autónoma mas não conflitual com a pertença à NATO, o Presidente Sarkozy decidiu pôr termo ao isolamento simbólico que a França mantinha. E, com isso, pode garantir a obtenção de postos de decisão no seio da organização, à altura da importância da contribuição francesa, bem como passar a ter uma palavra relevante no respectivo planeamento estratégico.

A decisão de fazer regressar o país à estrutura militar integrada da organização é um opção contra a qual hoje se batem, numa conjuntural conjugação táctica, alguma direita e centro políticos, bem como toda a esquerda francesa. A ironia é que, contra a opção do Presidente, acabou por erigir-se uma espécie de nova frente gaullista, sendo que vale a pena notar que o Presidente francês também se reclama historicamente da herança do General. Interpretando-a, contudo, à sua maneira.

Numa era das especulações, a questão poderá ser: que pensaria hoje o General De Gaulle de tudo isto? Como reagiria perante as novas circunstâncias que se impõem ao seu país?

3 comentários:

Anónimo disse...

Bela síntese. Aprende-se muito consigo.

Carla Meirelles

Anónimo disse...

A contra partida da integração militar da França na NATO era, se eu bem me recordo, o reforço da Defesa Europeia. Onde está ela? No país onde eu vivo, dizem que na Europa só há dois países que contam em termos de defesa e de segurança (FR E UK) e que de política de defesa europeia they never heard about...

Luis

Anónimo disse...

"Que pensaria hoje o General De Gaulle de tudo isto? Como reagiria perante as novas circunstâncias que se impõem ao seu país?"

Pois como Grande politico frances/europeu, o G.De Gaulle, face ao cenário tão bem sintéticamente desenhado pelo Embaixador FSC, tomaria a mesma posição - a França tem de estar por tradição e dever e mais do que nunca dentro do "núcleo de liderança"(europeia/mundial)...

Luis Sá