quinta-feira, 26 de março de 2009

A brigada


Saindo há pouco de um dos inumeráveis cocktails comemorativos de dias nacionais que inundam a vida diplomática de Paris, interroguei-me sobre a razão pela qual esses eventos aparecem tão ligados à imagem de "glamour" da nossa profissão.

Será talvez a minha falta de paciência, mas devo confessar que, desde há muitos anos, sinto uma terrível preguiça para frequentar essas ocasiões, até pela regular sensação de que deveria estar a fazer trabalho mais útil. Salvo em casos excepcionais, a minha presença nos cocktails acaba por ser muito curta e dura apenas o tempo suficiente para honrar a data do país anfitrião e corresponder à simpatia do colega que convida.

Nessas ocasiões, ao cumprimentar as pessoas, com as mãos saídas de copos gelados, relembro muitas vezes a razão pela qual os diplomatas são conhecidos como "a brigada da mão fria"...

4 comentários:

Margarida disse...

E lá tenho de me rir! Mas, caso não saiba, suponho que esta 'confissão' seja alvo do atento pessoal da 'Sábado', que na semana passada lá mencionou o 'post' sobre a entediada assitência ao jogo de futebol e ao seu agastado queixume de ter de 'fazer de embaixador'...
'Big Brother is (always) watching you'... - take care...

Anónimo disse...

Há alguns anos atrás, trabalhei com um Embaixador, num determinado Posto, que me ensinou uns “truques” para não perder muito tempo nessas “andanças”. Recordo-me particularmente de um:
Entraria na dita Embaixada, cumprimentava quem me convidava, de seguida servia-me de uma bebida qualquer e “cirandava” pelo salão onde se encontravam os restantes convivas (“mostrando-me” deste modo), sempre com o tal copo na mão (com isso procurando transmitir a ideia de que “estava ali para estar”), com um ar relativamente apressado (“de quem quer ver muita gente e falar com todos”), baixando a cabeça a alguns conhecidos, mas…encaminhando-me, discretamente, para a outra porta, a de saída, se a houvesse, o que muitas vezes sucedia. Com isto, demorava uns escassíssimos minutos, era visto (tinha lá estado) e ninguém percebia (assim não ofendendo ninguém) que a minha presença tinha sido incrivelmente curta.
Se porventura íamos juntos, o motorista que nos levava só tinha tempo para inverter a marcha do carro e ficar, pouco depois, pronto para ir buscar-nos.
Quando tais recepções eram ao final da manhã, o Embaixador costumava perguntar-me: “Oh Dr. quer ir lá casa almoçar, olhe que sempre se come melhor, mais sossegadamente e sem as chatices de ter de palrar com gente chata”!
Enfim, talvez isto contribua para ajudar a desmistificar a ideia de que tanta ida a recepções é uma coisa pela qual os diplomatas se “pelam”.
Manuel das Necessidades

João Antelmo disse...

Bem o sabem os velhos profissionais do Foreign Office: previnem sempre os seus colegas acabados de entrar no serviço, que os três maiores flagelos dos diplomatas sâo "alcohol, colesterol and protocole".

Helena Sacadura Cabral disse...

Anime-se Senhor Embaixador porque essas andanças "fazem parte" da carreira que escolheu ou para a qual foi escolhido.
Suponha, agora, o que sente o mais comum dos mortais quando, por esse país fora, tem que dar autógrafos e manter conversas com pessoas que não conhece mas apreciam o que escrevemos...
E que ainda mandam cumprimentos e "recados" - até aqui sempre simpáticos - para os dois membros da família que decidiram dedicar-se à política!
Com alguma benevolência, é como se participasse de uma peça de Ionesco... Salva-me, Senhor Embaixador, o aguçado sentido do humor de quem não se leva demasiado a sério. Mas que, às vezes, me tira um tempo imenso, que recrimino sempre, lá isso é verdade.
É nestas alturas que tomo consciência de que há pessoas que, nada tendo feito para isso, têm um qualquer karma a cumprir, sabe-se lá porquê!
Desculpe a confissão, mas foi o seu belo texto que indirectamente a provocou.