segunda-feira, julho 27, 2020

E hoje?


Ontem, foi assim.

Memória

Alguns acham que a nossa memória coletiva procura esconder os tempos colonialismo e da escravatura. Outros acham que estamos sempre a lembrar o fascismo e o Salazar. No fundo, o que divide o país é a memória?

Ronaldo


“Nenhum outro jogador ganhou as três ligas (inglesa, espanhola e italiana). Não importa o país, quando vens de outro planeta”, escreveu hoje a Fifa, no que pretendeu ser um elogio a Cristiano Ronaldo. 

Ora essa! Claro que importa o país! Ronaldo veio de Portugal, campeão da Europa. Anotem, para o caso de não saberem!

sábado, julho 25, 2020

Ferreira Fernandes

José Ferreira Fernandes reinicia hoje a sua colaboração com o “Público” com uma belíssima carta de amor a Angola.

(Uma vez, sem exemplo, permito-me reproduzir um artigo de um jornal que, para ser lido, deve ser pago)

Bom senso e bom gosto


sexta-feira, julho 24, 2020

quinta-feira, julho 23, 2020

Corredoura


No início dos anos 80 do século passado, vivi por alguns meses no Hotel Trópico, em Luanda. Tendo misteriosamente “desaparecido”, antes da minha chegada, por artes mágicas e nunca investigadas, o apartamento que albergara os meus antecessores na embaixada, num edifício na marginal de Luanda, não tive outro remédio senão ocupar, por esse período que me pareceu bem longo, um quarto no hotel, então já bastante degradado.

Era no Trópico que se acolhiam muitos estrangeiros, em especial portugueses em negócios e tripulações de aviões, numa mescla cuja convivência até poderia ter alguma graça, não fossem as dificuldades do abastecimento, nesses dias de guerra civil e recolher obrigatório.

Com o nosso cônsul-geral (este também por lá aboletado, embora por menos tempo do que eu), Fernando Andresen Guimarães, e o ministro-conselheiro da embaixada, José Stichini Vilela, eu almoçava e jantava, quase por regra, no "grill" do hotel, uma facilidade rara, que não era estranha à nossa, localmente muito invejada, condição diplomática.

Nesse tempo, obter uma "reserva" para comer no "grill" era uma benesse pouco comum, muito apreciada pelos portugueses e angolanos que para lá convidávamos. Diga-se que esse privilégio acontecia não obstante as tensões políticas que, à época, marcavam fortemente as relações entre Lisboa e Luanda, o que só revela que alguma afetividade, fruto de certas cumplicidades, se sobrepunha à difícil conjuntura política bilateral que se vivia. Por essas e por outras é que, ainda hoje, tenho amigos lá por Luanda.

Com algum exagero, o humor local corrente afirmava que, no outro restaurante do Trópico, no topo do edifício, que era bem menos sofisticado, havia, ao almoço, "arroz com peixe frito" e, ao jantar, "peixe frito com arroz"... No "grill", as coisas era ligeiramente melhores, mas a variedade de menus também não ia muito longe. Longe, sim, iam os tempos em que os grelhados teriam dado nome ao local. Recordo apenas o cíclico "émincé" de vitela, que nos pousava na mesa várias vezes por semana, e o sempre presente bolo Trópico, uma espécie de pão-de-ló coberto com claras de ovos, com que fechava a maioria das refeições.

O "chefe de sala" era um velho e simpático angolano que havia trabalhado no "Café de Paris", em Lisboa, o Smith. Quando perguntado sobre o menu do dia, costumava ironizar, sabiamente, respondendo coisas como: "Eu hoje aconselhava um magnífico caldo verde, seguido de um bacalhau à lagareiro. Depois, teremos um bife à Marrare. E fecharemos com um pudim abade de Priscos, que está "de truz" ". Esses e outros pratos virtuais, que se deliciava a relembrar, com expressões do léxico luso, fruto da sua longínqua memória da culinária e da vida lisboeta, logo contrastavam com as limitações do pobre menu do dia, a única realidade a que iríamos ter direito.

O vinho era, invariavelmente, o mesmo: português, de uma marca que nunca esquecerei, de que nunca mais ouvi falar - Corredoura. Não o retive, contudo, na minha memória sensorial como um néctar digno de figurar na história vinícola portuguesa, embora, nas condições locais da época, a minha escala de valores em matéria de consumo tivesse então atingido generosos limites de complacência.

O serviço às mesas do "grill", chefiado pelo Smith, coadjuvado pelo excelente Sambo, era feito por alunos da escola de hotelaria local, que rodavam com grande frequência. Eram jovens muito simples, alguns vindos das províncias, inexperientes, terreno fácil para ensaiarmos algumas graças.

A piada cíclica mais fácil era perguntar ao jovens alunos: "Há vinho?". A resposta era sempre positiva, como antecipadamente sabíamos. Essa era então a oportunidade para que um de nós lançasse, variando cada dia de fórmula, uma coisa assim: "Hoje, estava-me a apetecer um vinho português. Talvez um maduro tinto. Por acaso não tem um Corredoura, não?". Ou assim: "Para acompanhar o almoço, traga-me um tinto. Podia ser, por exemplo, Corredoura. Tem?"

Os olhos dos ingénuos e solícitos rapazes brilhavam de felicidade. "Por acaso", tinham - esse que era o único vinho existente, à época, em toda a Angola, "de Cabinda ao Cunene", para utilizar um lema então em voga. E, minutos depois, a uma temperatura sempre sinistra, lá surgia, saído da cave, um Corredoura tinto.

Consumimos então o que me pareceram serem hectolitros de Corredoura. Provavelmente esgotámo-lo. Deve ser por isso que nunca mais ouvi falar desse vinho. Tenho ideia que era dele este rótulo, que hoje encontrei.

quarta-feira, julho 22, 2020

Legalidades

A necessidade de mudar a lei, que até agora exige a luz verde municipal, para a construção do aeroporto do Montijo, lembrou-me a clássica frase atribuída a Correia de Oliveira, ministro de Salazar: o que é legal faz-se por despacho, o que é ilegal faz-se por decreto.

Rir no fim


Poucas pessoas desprezaram mais as instituições europeias do que Margareth Thatcher. A antiga primeira-ministra britânica olhava o projeto que tinha Bruxelas por eixo como uma perfídia institucional destinada a sabotar as soberanias nacionais, em proveito de uma burocracia que a si mesmo se tinha por iluminada, ao serviço de um objetivo centralista, fruto de um conluio de potências que, no fim do dia, eram adversas dos interesses britânicos. Via isso como uma espécie de “socialismo pelas portas traseiras”, como alguns por cá também ecoaram.

O Reino Unido, que historicamente começara por recusar a integração europeia, rendera-se, com íntima relutância, a ter de dele fazer parte, pelas desvantagens que resultavam da sua ausência. Fugiu, depois, a todos os compromissos que pôde evitar. Até um dia. Thatcher teria rejubilado, se tivesse assistido ao Brexit.

Lembrei-me ontem dela. As cinzas não riem, mas dei-me ao luxo de imaginar algumas gargalhadas a saírem do sítio onde as de Thatcher repousam, no Royal Hospital, em Chelsea. Mas teria ela razão para rir?

Ao assistir à feroz barganha das últimas horas, em especial à multiplicação dos “cheques” para compensação de alguns parceiros que mais avessos se tinham mostrado ao compromisso, lembrei-me do célebre “I want my money back!” (Quero o meu dinheiro de volta!), que sintetizava a sua postura reivindicativa dentro da Europa.

O processo financeiro europeu embrulhou-se ontem num modelo da maior complexidade, com algumas incoerências, induzindo dúvidas sobre a racionalidade de algumas soluções.

Mas isso importa para alguma coisa? Ontem, a Europa foi capaz, com todos esses defeitos processuais, de levar à prática exatamente aquilo para que foi criada: resolver os problemas dos cidadãos.

Há uns meses, falar da mutualização da dívida era um tabu. O tabu desfez-se. Por anos, era inviável a criação de “novos recursos”, isto é, novas fontes de financiamento orçamental. Agora, são inevitáveis.

A Europa é lenta no processo, hesitante nas decisões, complexa nos mecanismos. É defeito? Talvez seja, mas é um defeito democrático. Quem se senta à roda daquela mesa tem um mandato a cumprir. Uns foram votados para serem avaros, com a solidariedade no fundo das prioridades. Outros clamam por compensações pela abertura dos seus mercados, arrostando com a imagem de pedinchões. Cada um tem a sua legitimidade. Discutem e resolvem.

Thatcher pode ter-se rido, ontem. Mas, na Europa, ri melhor quem ri no fim.

terça-feira, julho 21, 2020

Confissão

Devo ser dos poucos portugueses que não tem a menor certeza sobre se deve haver ou não TGV. E sou talvez o único que não tem qualquer opinião sobre o lugar onde deve ser o novo aeroporto. E então sobre a terceira travessia do Tejo...

Onde anda a trovoada?



“Anda cá! Chega aqui!”.

Encostado ao muro de pedra da varanda da Casa do Pereiro, em Bornes de Aguiar, do lado do caminho, o meu tio Fernando, o mais novo dos irmãos da minha mãe, disse-me para olhar para o céu, onde raiava uma tempestade das antigas, com uma caloraça, soprada a vento, que, agora imagino, devia anunciar uma chuvada forte para dali a pouco.

Conto isto hoje, com toda a ciência e calma, mas, nessa altura, nos meus seis ou sete anos, estava completamente acagaçado com o ribombar dos trovões, com receio de que um daqueles raios acabasse por se despenhar sobre a casa dos meus avós, nesse início de noite de verão, depois do jantar.

Até a empregada lá de casa eu tinha visto a remoer orações a Santa Bárbara, prenúncio certo de que as coisas poderiam descambar para o torto. Em noites parecidas, na minha casa lá por Vila Real, havia assistido a tudo entrar no breu, com as luzes a irem abaixo, às vezes com estrondo, uma vela a surgir e alguém, mais jeitoso, a ir colocar um filamento metálico no fusível. Nada que sossegasse minimamente uma criança, filho único, nada dada a riscos, temente ao escuro e ao desconhecido! Ao lado do meu tio, contudo, sentia-me protegido, ao ver a sua coragem para enfrentrar os elementos, própria, penso hoje, de quem teve a infância no campo. 

“Vais aprender a que distância está a trovoada”. Achei aquilo estranho. A trovoada andava por ali, saltitava, via-se, mas era um pouco etérea essa ideia de onde ela “estava”.

“Já viste que entre o instante em que vês o relâmpago, a luz, e o momento em que ouves o trovão, o ruído, passa um certo tempo?”. De facto, notara isso, mas nunca ligara muito, eu que nunca tive uma grande curiosidade pelas coisas da natureza.

Ele explicou-me, então: “A luz anda mais rápido do que o som. O raio é praticamente instantâneo. O som é mais “preguiçoso”, anda a 330 metros por segundo. O que é que são 330 metros? Olha, é aí do Fundo de Vila até à estrada para Vila Real. Quer dizer: por cada três segundos que o som demora a chegar, isso significa que a trovoada está a um quilómetro, que é três vezes essa distância. Agora, olha e ouve-a bem!”.

E lá fiquei eu a contar pelos dedos, num ritmo que equiparei a segundos, o tempo que me demorou a ouvir o som correspondente ao raio seguinte que vira no céu. E recebi uma lição de geografia rural: se fosse a dois quilómetros, em linha, a trovoada andaria aí por Rebordochão ou por Vila Meã, se passassem cinco ou seis segundos já estava em Vila Pouca ou, se fosse para norte, depois de Sabroso, ia a caminho do Reigaz e de Oura.

Esta noite, sob a fortíssima trovoada que desabou sob Lisboa, lá estive eu a fazer as minhas contas, trocando o Beato por Eiriz, Odivelas por Nuzedo, Algés por Soutelinho, a outra banda pelo Bragado. E lembrei-me que devo isso ao meu tio Fernando. 

“Mas isso serve-te para alguma coisa?”, perguntará um cético, munido de alguma app que, se calhar, já foi criada para essas medições. Não sei, ou melhor, sei: sei que, entre saber ou não saber coisas, prefiro saber. Que se há-de fazer? Feitios! 

Raios e coriscos


Isto, aqui por Lisboa, na última meia hora, esteve tão animado em matéria de relâmpagos pela noite que, por um instante, dei comigo à espera de ouvir o Carlos Fino a relatar do quarto do hotel Palestina, em Bagdad... E lembrei-me das Lajes!

segunda-feira, julho 20, 2020

Livros para férias

Só para esclarecer: os livros que por aqui tenho mostrado como “para férias” não são, de forma alguma, recomendações: são apenas aquilo que vou (ou tenciono) ler (ou reler). Nada de confusões! 

Dois amigos


Conheço Carlos Costa há bastantes anos. Recordo-me da primeira conversa que tivémos, em Bruxelas, a meu pedido, em casa de João de Vallera, no final de 1995, tinha eu acabado deve entrar para o governo. Ele era então chefe de gabinete do comissário europeu Deus Pinheiro e eu pretendia algum “insight” sobre os equilíbros dentro da Comissão. Ao contrário de alguns outros portugueses que operavam nas instituições comunitárias, que se deliciavam a afirmar a sua “neutralidade” perante os interesses do país de onde eram originários (não me obriguem nunca a usar a memória sobre isto, por favor!), Carlos Costa foi sempre de uma grande lealdade face a Portugal. Acho que já posso revelar que, durante a delicada negociação da Agenda 2000 (o quadro financeiro plurianual entre 2000 e 2007, cuja negociação foi concluída em 1999), o tivémos em “alta voz”, numa chamada telefónica de Bruxelas, com Guterres como interlocutor, num conselho de ministros. Não tenho competência técnica para me pronunciar sobre o seu papel como governador do Banco de Portugal, mas não me custa admitir que possa ter cometido, com a sua equipa, alguns erros na forma e no tempo das suas funções de regulação. Mas tenho a certeza absoluta de ser um homem que sempre agiu, bem ou mal, tendo o interesse do país como referente da sua ação. Envio-lhe um abraço de amizade, neste momento.

Mário Centeno é um conhecimento mais recente. Fizemos dupla num debate, na Universidade Nova de Lisboa, creio que em 2013, sobre o processo de ajustamento da Troika. Nunca antes o tinha visto, embora tivesse lido coisas que publicou. Disseram-me então que era um quadro superior do Banco de Portugal e lembro-me que me impressionou pela simplicidade culta e profunda com que desenvolvia os seus argumentos. Voltámos a cruzar-nos em bastantes outras vezes, a partir de então. Mário Centeno demonstrou, nos anos seguintes, toda a sua capacidade técnica, mas também política, quando soube desenhar, com maestria, a planificação orçamental que permitiu compatibilizar o cumprimento estrito das obrigações europeias a que o Estado português estava comprometido com as medidas de política que permitiram ao PS garantir um apoio parlamentar, ao longo de toda a legislatura. Não foi só o país que apreciou o trabalho de Centeno: os seus colegas do Eurogrupo deram-lhe a presidência desse órgão, o que representou, simultaneamente, um raro reconhecimento e uma forte prova de confiança. A sua ida para o Banco de Portugal não é um prémio: é algo que deveria ser uma coisa óbvia para o país. Por mim, quero enviar-lhe uma saudação de amizade, com votos de muitas felicidades.

Só a medíocre chicana política em que está mergulhado o debate público em Portugal pode justificar a polémica que se criou a propósito da ida de Centeno para o Banco de Portugal. A inveja, o despeito e o horror ao sucesso alheio, que fazem parte da matriz comportamental de muita gente que por aí vegeta, no tempo que vivemos, procuraram criar obstáculos a que o antigo ministro das Finanças viesse a ter o destino a que melhor estava destinado. Ainda bem que António Costa não hesitou nunca nessa decisão. E que o presidente da República o apoiou. 

Ao que se sabe, Carlos Costa e Mário Centeno não são, entre si, os melhores amigos do mundo - e isto é um “understatement”... A mim, dá-me prazer tê-los a ambos como amigos.

A crise em várias perspetivas


Oitavo livro para férias


sábado, julho 18, 2020

Olha a mala!


O pequeno avião da Air Gabon que nos trazia de Libreville para S. Tomé nem sequer vinha cheio, nesse final de fevereiro de 1976. Fazia o percurso, de ida e volta, apenas uma vez por semana. Era a única ligação de S. Tomé ao mundo, nesse tempo em que os voos de Luanda estiveram suspensos, pela guerra junto de Luanda. 

Constava que, como passeio tradicional local, sem muito para fazer, havia pessoas de S. Tomé que se deslocavam de carro, da cidade até ao aeroporto, apenas para ver quem chegava nos raros aviões que pousavam na ilha. Chamavam-lhe mesmo, como acontecia em outras ilhas portuguesas, o “Dia de S. Avião”!

Tinha à minha espera, no aeroporto, um colega mais velho, que conhecia, embora sem intimidade, das férias da minha juventude em Viana do Castelo, João da Rocha Páris. Começou por dizer-me que decidira não me instalar, como eu tinha solicitado por telegrama à embaixada, num dos escassos e pouco confortáveis alojamentos da cidade: oferecia-me a sua própria casa. Também o embaixador, Amândio Pinto, me convidava, na residência, que era ao lado, para tomar todas as refeições do dia (foi, desde essa bela experiência, que passei a “pequenalmoçar” fruta, para o resto da minha vida). Que excelente e amável receção eu estava a ter! 

Aproximou-se de nós, entretanto, um homem, com idade que não deveria ser muito distante da minha, o qual, com um sorriso simpático, me disse: “Sou teu primo, sabias?” A surpresa era grande! Estranhei, confesso, o súbito tratamento por tu, logo apurando que era filho de um primo da minha mãe e neto de um farmacêutico de Vidago, irmão da minha avó, que eu nunca conhecera. Viria a oferecer-me, dias depois, uma bela almoçarada de cozinha africana, em sua casa, com amigos, graças ao hábil dedo culinário da sua mulher.

Entretanto, as malas saiam no tapete rolante. Eram poucas, tal como os passageiros, e a minha “Tauro”, de falsa pele acastanhada, lá estava. Levámo-la no banco de trás do “carocha” preto, que a tropa portuguesa tinha deixado para a embaixada. (Seis anos depois, eu viria a herdar, em Luanda, um carro idêntico, já com buracos de ferrugem no chão, por onde entravam baratas voadoras...)

Ainda em Libreville, a mala parecera-me um pouco mais pesada do que inicialmente a recordava, mas levei isso à conta da livralhada que adquirira em Paris, nos dois dias que por lá passara. A cave da “Joie de Lire” tinha sido irresistível.

Chegados à casa do João, decidi tomar um banho e mudar-me, para irmos jantar a casa do embaixador, uma hora depois. Abri a mala e... fiquei gelado, naquele infernal calor dos trópicos! Aquela não era a minha mala! Nela se destacavam duas “peças” que nunca mais esqueci: uma colcha acetinada, com desenhos coloridos de cavaleiros e castelos, e uns sapatos de homem, de tacão bem alto, de quem gosta de disfarçar a pequenês, de uma cor castanha amelada! 

Dei a trágica novidade ao João e, com a mala garantidamente alheia, que presumimos ter sido trocada na passadeira do aeroporto, logo partimos à desfilada, no “carocha”, para os três únicos locais onde havia hospedagem para quem vinha de fora: a antiga pousada, lá no alto, a conhecida pensão “Benguidoche” (não sei se se escreve assim!) e outro local qualquer. O património hoteleiro local esgotava-se nesse triângulo.

Não, em nenhum lado havia o menor registo de alguém ter levado a minha mala! Comigo desolado, regressámos a casa. Fez-se uma peritagem pelos pertences alheios e descobriu-se que era de alguém, de Guimarães, que aparentemente trabalhava nas plataformas petroliferas em Pointe Noire, no Congo ex-francês. Devia ter estado em Libreville, em trânsito, como eu.

A culpa tinha sido toda minha! “Puxada a fita atrás”, recordava-me de ter forçado a entrada na sala das bagagens, em Libreville, irritado com a lentidão do funcionário, deitando a mão à primeira “Tauro” que encontrei, sem sequer conferir o número da senha. Que não era a da minha mala! E despachara para S. Tomé a sua “sósia”!

No dia seguinte, foi mandado um “rádio” do aeroporto de S. Tomé para o de Libreville, para tentar localizar a minha mala. Mas fui logo avisado, pelo responsável (português) da torre de controlo: “Nunca, no passado, nos responderam a nada...” E assim iria ser dessa vez.

Ali estava agora eu, sem nenhuma roupa para mudar, sem alguns medicamentos (nada de essencial, porque então era novo e alguma coisa haveria na cidade, na farmácia da Dra. Rosa Botica, um apelido bem adequado), sem coisas para combater mosquitos de que, prevenidamente (eu fazia, há muito, minuciosas check-lists, quando viajava, mesmo à boleia), vinha munido. E sem água de colónia, sem gilete para a barba e coisas importantes assim! Estava furioso comigo mesmo! E o meu sobretudo e pullovers, essenciais para regressar por Paris, onde faziam temperaturas negativas? E a montanha de camisas, polos e calças, que caprichara em trazer?

Que fazer?, como se perguntava o clássico soviético que seguramente não perdeu a mala, quando chegou à estação da Finlândia, em Petrogrado, para os mais de dez dias que haviam de mudar o mundo.

“To make a long story short”, sobrevivi, por uma semana, com as mesmas calças e sapatos, pedi de empréstimo ao João alguma roupa interior, polos e camisas, sem grandes preocupações de vestuário protocolar, que a conjuntura não exigia. Bastava, se necessário, o meu blazer!

Sete dias depois, viajei de volta para Libreville. O avião atrasou-se um pouco em S. Tomé, à espera do primeiro-ministro Miguel Trovoada, o que me preocupou, pela possibilidade de poder vir a perder a ligação do voo da “Air Afrique” para França.

Fomos à conversa toda a curta viagem. Ele, que também acumulava com o cargo de ministro da Cooperação, tivera, num desses meus dias de S. Tomé, a imensa e inesperada gentileza de me receber em audiência. Ainda hoje penso, surpreendido: a mim, um jovem “adido de embaixada”, na sua primeira missão de responsabilidade! 

A minha semana tinha, aliás, sido bem proveitosa: além de ter resolvido a greve que mobilizara os professores cooperantes (o mundo lusófono é uma “aldeia”: o responsável santomense pelo setor era um velho amigo da universidade, que tudo facilitou), eu tinha decidido fazer dossiês individualizados sobre a situação de setenta e tal servidores públicos portugueses que tinham ficado, com diferentes estatutos, em S. Tomé. E, também sem que ninguém mo tivesse pedido, tomei notas para um longo relatório sobre as principais carências do país, em termos de cooperação, depois de conversas que também tivera com a presidente da Assembleia Popular, a carismática Alda do Espírito Santo e com quatro outros ministros, todos com uma grande disponibilidade. A semana, mesmo sem mala, tinha acabado por ser de intenso trabalho, mas ainda dei uma saltada a uma praia. Chegado a Lisboa, viria mesmo a receber um louvor do secretário de Estado da Cooperação, Gomes Mota, que muito me agradou! 

Durante a viagem para Libreville, ofereci a Miguel Trovoada um livro já clássico, que tinha acabado de ler: “L’ Afrique Noire est mal partie”, de René Dumont. Não havia, é claro, a menor ironia nessa oferta. Trovoada, a quem, na anterior conversa, eu já cedera um exemplar do “Le Monde”, que trouxera de Paris, ficou encantado. Cruzámo-nos várias vezes, no futuro.

Chegado ao aeroporto de Libreville, “voei” para o depósito das bagagens. E lá estava a minha mala! Com os segundos contados para poder fazer o “check-in” para Paris, expliquei tudo, aceitaram os meus argumentos, deixaram-me trocar as malas e embarquei. Nunca pude confirmar se o nosso compatriota de Guimarães chegou a receber a sua vistosa colcha e os sapatos alteadores, com a “Tauro” gémea da minha. Em África, tudo pode acontecer: até nada!

(ps - dei a este texto o título de uma canção de Celeste Rodrigues, que por cá foi muito famosa, em longínquos tempos idos)

Adiar o cifrão

Até hoje, nunca gastei um tostão (devia dizer um cêntimo, eu sei) com nenhuma rede social, nem fiz nenhum "upgrading" nos sites de...