quinta-feira, junho 30, 2011

Árabes

O salão árabe do Palácio da Bolsa, no Porto, é uma das grandes curiosidades daquele belo edifício. Várias vezes estive por lá em eventos ou refeições e sempre me havia perguntado o que significavam as inscrições que estão repetidas por todas as paredes. No passado sábado, fotografei uma delas.

Ontem, perguntei a uma amiga do Bahrein o que aquilo queria dizer. Eis a sua leitura, fruto da diversidade com que o árabe é lido nos vários países: "Alá proteja a segunda sultana mariana". Mais tarde, esclareci melhor o mistério. Os responsáveis pelo palácio pretenderam homenagear a raínha dona Maria II, que autorizou a construção daquela sala (entre 1862 e 1880), a qual foi inspirada no palácio de Alhambra. Assim, o que o texto procura significar é "que Deus proteja a rainha Maria II". 

Tudo acaba por ter uma explicação.

quarta-feira, junho 29, 2011

Polónia

A Polónia é o maior Estado de quantos passaram a integrar a União Europeia, em 2004. Vai assumir amanhã a sua primeira presidência semestral rotativa, num tempo em que isso tem já um significado um tanto residual, atentas as alterações introduzidas pelo tratado de Lisboa.

Ontem à noite, o meu colega polaco, Tomasz Orłowski, um amigo de há quase vinte anos, na abertura de um concerto que ofereceu em Paris, disse que o seu país tinha como objetivo vir a exercer uma presidência simples e útil. Uma finalidade bem sensata, nos tempos que correm.

Do "logo" da nova presidência transparece graficamente a memória do Solidarność, essa magnífica aventura liderada por Lech Walęsa, que hoje se constata ter sido a primeira verdadeira brecha no muro de Berlim. 

Recordo ainda a emoção partilhada com Jorge Sampaio quando, um dia, em Gdańsk, passámos à porta do estaleiro Lénine. Afinal, tudo havia começado ali.

Empresas e diplomacia

O ministério dos Negócios Estrangeiros francês - o Quai d'Orsay, no jargão vulgar - proporciona aos embaixadores aqui acreditados, bem como a personalidades parlamentares ligadas às relações externas, encontros matinais, à volta de um café e de um croissant, com dirigentes dos maiores grupos económicos franceses. Estive hoje em mais uma dessas reuniões.

Não somos muitos aqueles que, impreterivelmente, entre as 8.30 e as 9.45 da manhã, comparecemos, com regularidade, a esses encontros. Devo dizer que, sem uma única exceção, saí até hoje dessas palestras, seguidas de perguntas, sempre mais enriquecido com as informações e as análises transmitidas por essas figuras relevantes do tecido empresarial francês. Para além de ficar a conhecer as suas empresas e o modo como elas olham o mundo e o seu futuro, esses encontros também me têm feito entender melhor as razões do êxito dos principais setores da economia francesa.

Uma última nota: nesses encontros, estão sempre presentes os dirigentes de topo desses grupos económicos. Nunca se fazem substituir, por exemplo, devido a "impedimentos de última hora". "À bon entendeur".

O país

Há dias, li que uma atriz portuguesa sofreu gravíssimas queimaduras e se mantém em estado crítico. Recordo-me de ter lido o nome da senhora nos jornais e, ao ver a sua fotografia, a sua cara não me era estranha. Mas nada mais.

Hoje, faleceu, vítima de acidente, um ex-vocalista dos D'zrt, um grupo cujo nome me diz alguma coisa, mas do qual não conheço qualquer música. A morte provocou uma forte emoção nos seus admiradores, como se constata da comunicação social.

A condição de "estrangeirado" provoca esta sensação de "dépaysement", um sentimento que não é necessariamente cómodo e que se liga a uma certa distância que fomos criando face ao país real. Tenho esta mesma reação quando, nos aviões ou nos consultórios médicos portugueses, me confronto com certa imprensa que trata o mundo da moda, da televisão ou dos "reality shows". Não conheço imensa gente que hoje é muito popular no país que represento.

Há um Portugal desconhecido que (não) espera pos nós.

terça-feira, junho 28, 2011

TPI

O Tribunal Penal Internacional (TPI) iniciou um processo contra o líder líbio Mouhamar El Kadhafi e familiares. Nada de espantar, tendo em atenção os inaceitáveis atentados perpetrados, sob a sua ordem, contra populações civis. 

A independência e a legitimidade de ação do TPI, uma instituição cujo prestígio é da maior importância reforçar, muito ganhariam se tivesse a imediata iniciativa de proceder, de idêntica forma, face a outras práticas similares atualmente em curso. Mesmo que aí não haja petróleo nem se verifique uma tão vigorosa reação, salvo no plano declaratório, dos "powers that be" internacionais.

segunda-feira, junho 27, 2011

Dedicatória

Vi-o ao longe. Estava mais gordo, com uma forte bigodeira. Mas não havia dúvida: era aquele velho conhecido que estivera comigo na tropa, com quem passara longas horas à sueca, na messe da EPAM, nos tempos que antecederam a Revolução de 1974. Nas três décadas que tinham entretanto decorrido, havia-me cruzado com ele num restaurante e num aeroporto. Momentos breves, em que falávamos de amigos comuns, por onde cada um de nós andava e de uma almoçarada que nunca acontecia.

Eu estava sentado a uma mesa, com uma longa fila de gente à frente, para dedicatórias que fazia em exemplares de um livro que lançava nesse dia. Tal como as centenas de pessoas que tinham tido a simpatia de querer estar comigo na sessão, esse amigo, que devia ter lido num jornal que eu publicara um livro, quis ir dar-me um abraço e obter uma palavra escrita minha no seu exemplar, como a nossa velha relação pessoal mais do que justificava.

Só que, de repente, uma imensa angústia me começou a invadir: como é que aquele amigo se chamava? Eu sabia o nome, várias vezes falara dele a outras pessoas, mas, naquele preciso momento, não me "saía". À medida que eu ia "aviando" quantos o antecediam, ele sorria-me, com uma proximidade física vez mais temível, seguro da nossa cumplicidade de outros tempos. Eu estava já a ter alguma dificuldade em me concentrar nas dedicatórias feitas às pessoas que estavam à sua frente, temendo mais alguma "branca", que o meu crescente nervosismo pudesse provocar. É que, francamente, não me estava ver com a "lata" de lhe perguntar: "ó pá! desculpa lá! relembra-me o teu nome". Mas que diabo podia eu fazer?

E o momento fatídico chegou. O meu amigo estava, enfim, no topo da fila, frente à mesa, sobre a qual colocou o exemplar que comprara à entrada. Eu levantei-me para lhe dar um abraço, agradeci-lhe ter vindo e voltei a sentar-me, derreado pela tragédia da impossível dedicatória. Até que o ouvi dizer, para meu imenso descanso: "Dedica isso ao Luís, o meu filho, que quer entrar para a carreira diplomática e a quem tenho falado imenso de ti". 

Claro que dediquei, com todo o gosto, lembrando, no que escrevi, a minha velha e imprescritível amizade com o pai. Nunca soube se o rapaz chegou a entrar para as Necessidades. Mas, um destes dias, vou dar uma vista de olhos àquele inventário de nomes, a que chamamos lista de antiguidade. É que, entretanto, eu nunca mais me esqueci do apelido do homem.

Rádio Alfa

O forte calor parisiense marcou ontem a tradicional festa da Rádio Alfa, que comemorou 26 anos consecutivos de realização. Mas a animação e a alegria daqueles milhares de pessoas, que picnicaram sob as árvores do belo parque de Créteil, resistiu bem ao sol.

Esta bela festa dos santos populares, que o comendador Armando Lopes e a sua equipa realizam em Créteil, constitui, lado a lado com a festa de Pontault-Combault, um dos momentos altos das celebrações que a comunidade luso-francesa promove, um pouco por toda a França, por esta época.

Tal como aconteceu em Pontault-Combault, uns milhares de pessoas ouviram os breves discursos dos oradores, entre os quais o embaixador de Portugal. Breves, porque a finalidade do auditório era escutar quem vinha cantar a seguir, nomeadamente "Santos e Pecadores", Quim Barreiros e Rui Veloso, com uma especial cerimónia de homenagem da Rádio Alfa a Cesária Évora.

Fado no Procópio

Li "anunciado" no "Sol" que, no âmbito das festas de Lisboa, houve fado - e do bom! - no pequeno largo em frente ao lisboeta bar Procópio. 

Já não bastava a proprietária, a "Sedonalice", ter deixado de organizar a tradicional festa de verão (se é por causa da crise, então andamos em crise há muito tempo...), com entrega dos renomados "prémios Procópio", como agora fazem fadistadas "p'ra animar a malta", sem avisarem os clientes históricos que estão "offshore"... 

De Paris, aqui fica a queixa. Não é bonito!

(Em tempo: mandou-me dizer a "Sedonalice" que nada teve a ver com a fadistice. "Prontos", já não está cá quem falou...)

domingo, junho 26, 2011

Do Brasil

Num comentário a um post sobre o S. João do Porto, um leitor deixou esta mensagem:

Sou Português, mas resido muito tempo no Brasil. Acho que os portugueses estão muito pessimistas, encasquetam por pouca coisa, seus comentários são muito rancorosos. Isto aí é apenas uma festa para celebrar o Santo e a alegria. Aproveitem e sejam felizes. Deixem os azedumes para a política e os políticos.

Que bem que me fez ler isto!

Ainda o Porto

"Infanção" foi a categoria atribuída ao embaixador de Portugal em França pela venerável Confraria do Vinho do Porto que, neste sábado, o entronizou, com direito a capa e tomboladeira, numa cerimónia de grande aparato, que teve lugar no palácio da Bolsa, seguida de cortejo, com cavaleiros e banda, que desfilou para um ato de grande gala da Alfândega do Porto. Aqui fica a nota, "for the record".

sábado, junho 25, 2011

S. João

Tenho pena de não ter comigo o belo texto que François Mitterrand dedicou ao S. João do Porto, no "L'abeille et l'architecte"*. O antigo presidente francês, que visitava Portugal a convite de Mário Soares, terá percebido, nesse mergulho na noturna multidão tripeira, muito do nosso caráter como povo.

Há anos que não vinha a um S. João. E não me arrependi de ter voltado a experimentar esta noite, que é única no mundo. 

Conheço portugueses que vivem obcecados em fazer visitas turísticas a longínquos destinos da moda, como se disso dependesse o seu currículo cosmopolita, e que confessam nunca ter estado num S. João no Porto. Coitados...

* Um leitor corrigiu-me: eu pensava que o livro era "La paille et le grain"

sexta-feira, junho 24, 2011

Aquela gabardine

Vou ter saudades daquela gabardine, daquele jeito desajeitado de coçar a cabeça posta de lado, daquele olhar enviesado a rasar o chão, daquele tabaco orgulhosamente incorreto, daquela gravata descaída (agora já tão em moda...), daquela inteligente dúvida final que, quase sempre, traçava o princípio do fim do culpado.

Morreu Peter Falk, o detetive "Columbo", um anti-herói, um dos meus atores íntimos.

quinta-feira, junho 23, 2011

"Hotel de Ville"

... e foi então que se ouviu a jovem mulher daquele funcionário da embaixada de um país, que tal como Cervantes dizia para um certo lugar da Mancha, "de cuyo nombre no quiero acordarme":

- Gosto tanto de viajar pela França! Têm lá aqueles hóteis tão simpáticos da cadeia "Hotel de Ville". Já ficámos num, não ficámos, querido?

"Back home"

O presidente Barack Obama acaba de anunciar uma retirada de parte das tropas americanas presentes no Afeganistão. Trata-se de uma decisão que, seguramente, deve ter assentado numa avaliação positiva da evolução da situação securitária no país e, do mesmo modo, deve estar ligada aos recentes contactos empreendidos por Washington com os "taliban".

A ninguém escapa que, por detrás desta decisão, estão também razões de política interna americana, em tempos de crise económica, de impopularidade dos compromissos militares externos e, "last but not least", quando se aproximam eleições nos Estados Unidos.

A operação liderada pelos EUA no Afeganistão foi executada sob a legitimidade de um mandato das Nações Unidas e com um importante empenhamento dos parceiros da NATO, que plenamente partilharam as razões de segurança que justificaram aquela ação militar. Agora, os governos desses países, colocados perante esta decisão americana, não poderão furtar-se à pressão das respetivas opiniões públicas, que os tentarão conduzir no mesmo sentido da posição tomada pelo presidente Obama. Prouvera que tudo isto se não faça em detrimento de todo o esforço coletivo desenvolvido desde há quase uma década no Afeganistão. 

quarta-feira, junho 22, 2011

Humor político

Uma excelente iniciativa francesa é o prémio anual "Press Club humour et politique", que consagra "bon mots" de figuras públicas.

O vencedor este ano foi o antigo primeiro-ministro socialista Laurent Fabius, premiado por esta frase: "Mitterrand é hoje adulado, mas ele já foi o homem mais detestado de França. O que não deixa de constituir alguma esperança para muitos de nós...".

Veja-se esta de Nathalie Artaud, candidata trotskista da Lutte Ouvrière às próximas eleições presidenciais, que afirmou: "Eu talvez não seja eleita presidente da República, mas não serei a única".

Notável também foi o dito do antigo ministro chirarquiano da Cultura, Renaud Donnedieu de Vabres: "Passar de ministro a passeador do nosso cão supõe um enorme trabalho sobre nós mesmos".

Uma das minhas preferidas é, porém, a frase de Patrick Devedjian, cujo futuro político parecia ameaçado pelos muitos inimigos que criou e que acabou por ter um resultado surpreendente nas últimas eleições cantonais: "Havia tanta gente no meu enterro que eu decidi não estar presente".

Geração à frente

A eleição de Assunção Esteves para a presidência da Assembleia da República, bem como o facto da média etária dos integrantes do novo governo ser bastante inferior à do anterior, constituem prova de que está a processar-se um interessante salto geracional na sociedade portuguesa. Verifico isso também nos empresários que por aqui passam.

Este assumir (estava tentado a escrever "esta assunção") de altas responsabilidades por figuras na casa dos 40 anos - os "quadra", como dizem os franceses - e início dos 50 pode ser sintoma de um apressar da maturidade que, deseja-se, simbolize também uma crescente afirmação de novas ideias.

Mas voltemos à eleição de Assunção Esteves, uma ótima surpresa, não só por ser uma pessoa de convicções, por ser uma mulher e, perdoe-se-me o regionalismo, por ser transmontana, como o seu assumido sotaque de Valpaços orgulhosamente revela - embora só "iniciados" saibam distinguir, no seio de um "som" comum ao norte de Trás-os-Montes, as subtis diferenças entre quem é de Chaves, de Valpaços, de Mirandela ou de Bragança. 

Parabéns, felicidades e um forte abraço, Assunção!

terça-feira, junho 21, 2011

A chamada

A reunião da Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses (ASDP), de que eu era vice-presidente, decorria já há mais de duas horas. Estávamos em outubro de 1995 e um novo governo entraria em funções dentro de semanas, após recentes eleições legislativas. Desde há muito que a ASDP andava às voltas com um projeto de um novo Estatuto para a carreira diplomática e queríamos aproveitar a existência de uma nova equipa ministerial para a convencer, logo no início, de algumas das nossas reivindicações. Sob a presidência de António Santana Carlos, a discussão ia longa e intensa. Caminhávamos artigo a artigo, com divisões entre nós, fruto do confronto de diversas sensibilidades. 

Desde meados dos anos 80 que eu tinha estado envolvido em grupos de trabalho que haviam desenhado vários projetos de "estatuto", uns mais ambiciosos do que outros. Muito mais do que reivindicações de natureza económica, pretendíamos regular com maior rigor o funcionamento da carreira, os processos de transferências e promoções, os direitos e deveres dos funcionários, acautelar uma imensidão de questões relativas à situação dos familiares, etc. À época, eu tinha ideias muito assentes sobre todos estes aspetos até porque, meses antes, tinha feito parte da equipa negocial que, sem sucesso, tentara um acordo com o governo que agora ia cessar funções.

A certo passo da discussão no seio da associação sindical, fiquei isolado. Num determinado artigo desse projeto, creio que o 28º, eu tinha uma posição completamente oposta à da generalidade dos meus colegas de direção. Expus os meus argumentos, mas, embora não convencido, fui vencido. E passámos à frente.

Íamos nós já na análise do "wording" de outros artigos quando o telefone tocou, numa mesa da sala de reuniões. A chamada era para mim. Atendi, verifiquei que não podia ter a conversa naquele ambiente de debate, tomei nota do número, pedi um telemóvel emprestado e saí, para ligar de outro local.

Minutos depois, regressei à reunião, que já tinha avançado pelo articulado adiante. Numa pausa, pedi ao António Santavna Carlos se poderia reabrir o debate sobre o artigo 28º. Houve um coro de protestos. Não apenas a vontade coletiva era esmagadora no sentido de consagrar a solução encontrada para aquele artigo como a minha tentativa de retomar uma questão fechada punha em causa a metodologia de trabalho acordada por todos, comigo incluído.

Com dificuldade, consegui adiantar uma explicação para a minha estranha atitude: "O problema, meu caros, é que a solução que vocês pretendem impor nesse artigo não creio que possa ser acolhida pelo novo governo".

A sala explodiu em perplexidade: "Essa agora!", "como é que sabes?", "ainda não iniciámos a discussão com eles!".

Aí, com um sorriso, deixei cair: "Sei isso porque acabo de ser convidado para fazer parte do novo governo, aceitei e nele vou defender a minha solução".

Era verdade. E, para quem se possa surpreender pela ousadia da revelação imediata do convite, esclareço que não estava a quebrar nenhuma promessa de silêncio, porque havia sido acordado que, naquele preciso momento, a indigitação seria revelada à imprensa. 

segunda-feira, junho 20, 2011

O senhor Ferreira

Quando o novo governo entrar hoje em funções não encontrará, à sua chegada à residência oficial do primeiro ministro, a figura discreta, educada e prestável que, durante décadas, fazia o primeiro acolhimento a todos os visitantes: o senhor Ferreira. 

O senhor Ferreira ocupava um pequeno espaço, à esquerda de quem entra na residência, acompanhado por um polícia, à paisana. Em tempos que por lá andei mais, era uma senhora. O senhor Ferreira conduzia os visitantes que não fossem conhecidos e não soubessem os cantos da casa à sala de espera, ao elevador ou à escadaria que acede ao primeiro andar - onde se situam os principais gabinetes e onde Marcelo Caetano criou uma sala onde reunia o conselho de ministros. Essa sala, que tinha uma mesa em forma de U fechado, foi, no tempo de António Guterres, mudada para a cave. Era nela que, muitas vezes, reunia o conselho de ministros, em alternativa ao edifício existente na rua Gomes Teixeira, perto dos Prazeres.

A figura do senhor Ferreira, que passei a conhecer melhor nos anos 90, sempre me fascinou. Soube um dia que tinha entrado ao serviço ao tempo de Salazar. Como se teria dado com a senhora Maria? Que histórias, se as quisesse e soubesse contar, o senhor Ferreira não teria, olhando o mundo político daquela portaria, desde os anos 60?! Mas o senhor Ferreira era um homem discreto, com a lealdade essencial que os servidores do Estado devem ter, para além dos regimes e governos que servem. Várias vezes "puxei por ele", tentando saber coisas desses tempos antigos, memórias esparsas que pudessem ajudar a desenhar um retrato dessa época. Salvo coisas vagas, nunca me contou rigorosamente nada.

Um dia, nuns minutos de conversa que pudemos ter, quem lhe contou uma história fui eu. Tinha-se passado em 1975, pouco antes do Natal. Terminava então um dos anos anos mais turbulentos da política portuguesa, em todo o século XX. A Revolução, iniciada em abril de 1974, tinha atravessado imensas peripécias - e imagino os tempos "épicos" que o senhor Ferreira não deve ter tido, à beira de vários ataques de nervos, naquela portaria de S. Bento, nesses tempos do PREC (o crismado "processo revolucionário em curso", para elucidação dos leitores mais novos), com fardas e barbas a entrar de roldão, com golpes e contra-golpes a prenunciarem-se e a pronunciarem-se pelo corredores e gabinetes, nas várias encarnações governativas do general Vasco Gonçalves.

Como disse, 1975 ia terminar. O movimento "retificativo" de 25 de Novembro já tivera lugar e o VI governo provisório, que vira a sua existência ameaçada desde a sua formação, em setembro, entrava finalmente nas suas primeiras semanas de verdadeira velocidade de cruzeiro, chefiado pelo almirante Pinheiro de Azevedo.

Eu trabalhava então, destacado pelo MNE, no Gabinete Coordenador para a Cooperação, a primeira estrutura de ajuda pública ao desenvolvimento, criada após a Revolução, voltada para as relações com as colónias africanas recém-independentes. O projeto de um determinado diploma legislativo havia sido por nós preparado e havia urgência em que fosse entregue, em mão, ao então secretário de Estado responsável por aquela área, o comandante Cristóvão Moreira, que deveria entrar para a reunião do conselho de ministros, em S. Bento, dentro de minutos. Fui encarregado de levar o texto e de lhe transmitir oralmente algumas curtas informações complementares. 

Cheguei à residência num velho Mercedes preto. Os portões abriram-se de imediato e, sob continência dos polícias, o carro avançou até ao fundo da escadaria exterior, que dá acesso à entrada do edifício. Estranhei a facilidade com que a viatura foi admitida, sem qualquer pergunta, identificação ou controlo, mas tomei isso à conta de ser, provavelmente, uma matrícula conhecida. Na pequena área no alto da escadaria, o dr. Almeida Santos falava para televisões (perdão, para a televisão, porque então só havia uma...). Procurei alguém que me indicasse como é que eu poderia chamar o comandante Cristóvão Moreira. Foi-me dito para subir ao primeiro andar. Aí, repetida a pergunta, indicaram-me uma sala. Era o conselho de ministros. Estava prestes a iniciar-se a sua reunião, com o primeiro ministro Pinheiro de Azevedo já no topo da mesa, alguns membros do governo sentados, outros em conversas entre si ou com colaboradores. Descortinei o meu secretário de Estado, inconfundível na sua teimosa camisola de gola redonda, entreguei-lhe o documento, dei-lhe a mensagem e saí.

Ao abandonar o edifício, ainda aturdido pela incrível facilidade que tivera, no acesso desde a rua à sala do conselho de ministros, sem nunca mostrar a minha identificação e sem o mínimo controlo de segurança, perguntei quem era o responsável pela portaria. Foi-me então apresentado, pela primeira vez, o senhor Ferreira. Sorridente, muito agradável no trato, ouviu o comentário pelo qual eu lhe transmitia o meu espanto, respondendo assim: "O senhor doutor (presumiu que o era) tem toda a razão. É verdade, não há quase segurança nenhuma! Mas sabe o que é que acontece? Nunca houve um governo tão grande como este. Entre ministros, secretários e subsecretários de Estado são 84 pessoas! Fora os membros do conselho da Revolução! Todos têm chefes de gabinete, adjuntos e assessores que entram frequentemente por aqui dentro e, se lhes perguntamos quem são, ficam quase ofendidos por não os conhecermos. Por isso, temos alguma dificuldade em controlar estas coisas...". Percebi então melhor o embaraço do senhor Ferreira.

Contei-lhe esta história em 1995. Obviamente, não se lembrava da conversa que, vinte anos antes, tivera comigo. Mas recordava-se bem desses tempos complicados da política portuguesa, que atravessara, profissional e discretamente, na portaria de S. Bento. Reformou-se já há uns anos. Se ainda por lá estivesse, e a partir de hoje, ter-se-ia cruzado com o mais pequeno governo da história política portuguesa pós-25 de abril, por contraste com aquele imenso VI governo provisório.

Não sei se o senhor Ferreira ainda é vivo. Espero bem que sim e que possa receber o meu abraço. 

Le Bourget

Em 2009, eram apenas 10 as empresas portuguesas que, num pequeno e esconso espaço, estiveram no salão aeronáutico bianual de Le Bourget. Falei disso aqui

Na altura, senti alguns hesitantes, outros mais entusiastas, ainda com escassa ligação entre si. Recordo-me que organizei entre eles um jantar de trabalho, que correu bem. Na sequência deste encontro, marquei, a pedido de algumas dessas empresas, contactos em Portugal, a níveis que considerei adequados. Vim a saber que se revelaram frutíferos.

Passaram dois anos e o panorama, na visita que lhes fiz na manhã de hoje a Le Bourget, é outro bem diferente: são agora 37 empresas, com elevado grau tecnológico, num excelente e apelativo stand, agora sob a coordenação da AICEP,  com uma imagem que muito dignifica o nome de Portugal. Algumas dessas empresas têm já uma muito razoável carteira de negócios, outras avançam com projetos magníficos. Grande parte delas colaboram entre si, somam valências e, muitas vezes, estão a aproveitar a porta que a presença da Embraer no Alentejo começa a abrir. No Brasil, tive o privilégio de ter sido testemunha presencial, em S. João dos Campos, do momento em que se lançaram as bases para aquilo qur se pretende venha a ser um polo de indústria aeronáutica em Portugal. O caminho está aberto, finalmente.

Hoje à tarde, juntei cerca de meia centena desses empresários numa receção na embaixada. De todos colhi otimismo e alguns fizeram-me a descrição do que foi o percurso de progresso que os trouxe até aqui. 

Há dias em que ser embaixador de Portugal é particularmente gratificante. Hoje foi um deles.

domingo, junho 19, 2011

O "28"

Há dias, aqui em Paris, uma amiga estrangeira revelou-me ter sido assaltada na linha mais conhecida dos elétricos lisboetas, o "28", onde lhe roubaram uma máquina fotográfica. Contou-me que conhecia várias outras pessoas, todos turistas estrangeiros, que aí tinham tido idênticos problemas, nessa linha recomendada a todos quantos nos visitam, por atravessar várias e tradicionais zonas da cidade. Na conversa, e para minha tristeza, alguns dos presentes, maioritariamente de nacionalidade francesa, ecoaram a atual má fama universal do velho "28".

Dias depois, num jornal português, li uma notícia segundo a qual, diariamente, há registo de imensos roubos a turistas, dentro do "28". O caso já começou a aparecer em alguma imprensa internacional, identificado como um dos "cancros" no turismo de Lisboa, com uma dimensão só superada pela dos famigerados taxistas das chegadas, no aeroporto. No mesmo texto, era revelado que a quantidade de "carteiristas" que atuam, simultaneamente, naquela linha de elétrico, em certos dias, chega a atingir a dezena!

Neste tempo em que o turismo constitui um dos importantes fatores de ingresso de divisas para a nossa economia, em que procuramos, por todo o lado, promover a ida de estrangeiros a Portugal e em que sempre gabamos o nosso proverbial bom acolhimento, não será possível fazer nada pelo clássico "28", ajudando a que os turistas possam, sem assaltos nem sobressaltos, descobrir a "Graça" e os "Prazeres" da nossa capital, sem terem de passar pela "Feira da Ladra"?

Verdades

De quando em vez, acontece-me ter de apresentar um livro. Na maioria dos casos, trata-se de obras de não-ficção, porque romances ou contos (...