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domingo, março 15, 2026

Aventuras e desventuras árticas


Há dias, o Sporting levou uma triste abada em Bodø. Na véspera do jogo, num grupo onde eu estava, só alguns sabiam que se tratava de uma cidade situada acima do Círculo Polar Ártico. 

Fiz então um figurão, ao dizer que não só já lá tinha estado mas que até tinha ali passado a noite numa tenda, num acampamento militar, com uma temperatura de cerca de 10° negativos. 

O Sporting acabou por não apanhar esse frio, mas praticamente congelou por ali as suas ambições na Champions.

Dormir num saco-cama, assente numa placa de esferovite directamente pousada sobre o gelo, numa tenda militar, sob uma baixa temperatura exterior multiplicada pelo vento, é uma experiência para a qual se exige uma certa coragem. Ou inconsciência, como foi o meu caso. A verdade é que a tenda tinha no centro uma espécie de aquecedor, com uma chaminé que saía pelo tecto. E no seu interior, valha a verdade, a temperatura estava bem acima dos números de fora. Mas mesmo assim...

Foi em 1980. Estávamos num campo de treino da NATO, organizado pelas tropas norueguesas. O dia fora longo e, ao fim da noite, partilhava a tenda com dois colegas, um belga e um turco. Mas ali chegados, enfiei-me logo no meu saco-cama, saquei de uma lanterna de bolso, que prudentemente levara comigo, e pus-me a ler o "Herald Tribune" que tinha trazido de Oslo (o jornal ainda existia com esse nome...). Acompanhava-me uma pequena garrafa metálica com um belo whisky de malte, em cuja tampa, com esmero, coloquei algum gelo que raspei do chão. As recomendações NATO tinham sido estritas - nada de álcool! -, mas achei que uma pequena excepção podia ser admissível para o civil inveterado que eu era. E nem a proximidade do Pólo Norte tinha o condão de me afastar de alguns comezinhos prazeres mais cosmopolitas...

Notei que o meu amigo belga adormeceu logo e estranhei ver o turco a tentar fazê-lo fora do saco-cama. Disse-me que estava com calor e que ficaria bem assim...

Acabadas a minha dose de whisky e a leitura, adormeci também. Acordei, creio que cerca de uma hora depois, alertado pelo belga. O nosso colega turco, imprudente, ao ter-se deixado dormir fora do saco-cama, estava enregelado, sentia-se mal e não conseguia aquecer, nem sequer aproximando-se do aquecedor.

Que se podia fazer? Sair da tenda, à procura de ajuda, na gélida e ventosa noite ártica, era um ideia suicida. Adiantei uma hipótese: porque não bebia o nosso amigo turco um trago do meu whisky? Seguramente que isso poderia ter um efeito-choque, ajudando à sua recuperação. O belga concordou que era uma boa sugestão. E é aí que o turco nos surpreendeu: "Não posso beber álcool. Sou muçulmano". E continuava a tremer de frio.

Com alguma diplomacia e poder argumentatório - estávamos entre diplomatas, caramba! - tentámos convencê-lo de que o rigor dos ditames religiosos, com toda a certeza, era passível de uma pontual derrogação quando estava em causa uma emergência de saúde. O whisky podia assim ser considerado, no caso vertente, como um mero medicamento - "embora bem mais saboroso do que é habitual", devo ter pensado. O turco, já um pouco abalado, acabou por concordar em seguir a opção que lhe era oferecida: bebeu uma boa dose do meu velho malte e até repetiu... E lá aqueceu, como previsto, conseguindo dormir.

Pergunto-me, até hoje, se a minha leitura das regras religiosas muçulmanas esteve ou não correta. Ou será que me posso considerar culpado se acaso o meu amigo turco, por via da minha sugestão, mudou de hábitos de vida?

Só acontece em França, é claro!