Quando vivi em Luanda, nos anos 80, num tempo de relações muito frias entre Portugal e Angola, eram raros os membros do executivo do MPLA que privavam com diplomatas portugueses.
Por vezes, essa distância formal — ditada pela conjuntura política — dissolvia-se em jantares em casas de amigos comuns, onde quase sempre acabávamos a falar de coisas de Portugal, país que, no fundo, lhes estava muito mais próximo do que podiam confessar.
Foi assim que, numa certa noite, em casa do advogado Miguel Faria de Bastos — um amigo a quem deixo aqui um abraço saudoso —, acabei por conhecer uma determinada figura do governo angolano, à volta de uma mesa farta e de copos generosos.
Era um africano um pouco mais velho do que eu, que trabalhara algum tempo em Lisboa. Conversámos longamente e, a partir dessa noite, nasceu entre nós uma relação de forte cordialidade, que não ficaria muito distante da amizade e que se iria prolongar pelos anos fora.
Voltei a encontrá-lo várias vezes: de novo em Luanda, depois em Lisboa e em outras cidades do mundo. E, ao contrário da nossa primeira conversa, dominada por Lisboa, passámos a trocar sobretudo memórias de Luanda e de amigos comuns.
Um dia, numa capital europeia, a conversa entre nós, por uma qualquer razão, derivou para Moçambique.
É um segredo mal guardado que, entre angolanos e moçambicanos, a corrente humana não passava então com facilidade — há várias leituras para o explicar, algumas de natureza histórica, e até é possível que as coisas já não sejam bem assim.
O meu conhecido especulou sobre a influência britânica no modo de ser dos povos urbanos da África oriental, que os tornaria mais fechados e formais — uma tendência que, em Moçambique, a proximidade com a África do Sul teria acentuado.
Sublinhou, depois, o que considerou ser um contraste evidente com os povos da costa africana atlântica: mais expansivos, mais abertos, de relação humana mais imediata.
E acrescentou, com convicção e cumplicidade, mas sem a menor acrimónia: “Nós, os angolanos, estamos muito mais próximos dos portugueses do que os moçambicanos. Nós e vocês somos latinos. Eles são índicos."
