A "Mesa Dois" do bar Procópio nunca foi apenas uma mesa. Por décadas, foi um "conceito", como agora dizem nos restaurantes que pretendem armar ao fino. Nos dias de hoje, sobrevive como mesa, mas, ao que se sabe, já não funciona como espaço regular de tertúlia.
Alguns dos antigos frequentadores continuam a frequentar-se. Há dias, organizaram um jantar durante o qual, imaginem!, nunca a expressão "Mesa Dois" foi referida. Aquilo é malta pouco dada a nostalgias.
Sem nostalgias, mas não sem interrogações. Fui agora descobrir que um poeta, que por lá era useiro e vezeiro, mas que se baldou ao tal jantar, se perguntava, há precisamente 20 anos, num "Poema para a Mesa Dois":
Ás vezes pergunto-me: onde estarão os da mesa 1?Que pensaram todo este tempo, como nos viram viver, passar, jogar e perder?E a mesa 3, alguém pensou na mesa 3? Aquela mulher de pele dourada, a saia mais curta cada noite, seria ela da mesa 3?Ah, tudo o que nós perdemos por ser da mesa 2!Dai-me uma nova mesa cada noite, uma promessa nesse olhar enternecido de whisky e tempo passado, uma palavra peregrina entre mesas e balcões! E então abandonarei o ponto de exclamação.
