Em meados de Dezembro de 1972, um avião da Pan American, que vinha de Nova Iorque, não pôde aterrar em Lisboa, por virtude do nevoeiro. O destino europeu final do voo era Barcelona. Eu, tal como todos os passageiros que vinham nesse voo, acabei por ir aterrar nesse inesperado destino.
Durante dois dias, Lisboa não "abriu" e, para irritação de muitos passageiros e indizível gozo de outros, como era o meu caso, que acabei por ter um prolongamento de férias pagas, por ali ficámos, alojados num belo hotel na costa do Mediterrâneo.
Recordo-me de que, no grupo, vinha uma vedeta da música popular portuguesa, Gabriel Cardoso, intérprete de uma canção então muito "na berra", como na altura se dizia – "Ericeira". O cantor mostrava-se furioso com o imprevisto, que lhe alterava o calendário de espetáculos. Na precária familiaridade que essas circunstâncias às vezes proporcionam, eu e ele acabámos à conversa, no "hall" do hotel.
Três meses depois, fui para Mafra, junto à Ericeira, fazer o meu serviço militar. Obrigatório, bem entendido. Por um imenso bambúrrio, acabei por ter o privilégio de fazer parte de um grupo de "soldados-cadete" que, ao final das tardes, saídos da Escola Prática de Infantaria, ia para a Ericeira. Ocupávamos então a casa do Vasco Bramão Ramos (um abraço para ti, Vasco!), onde jogávamos à roleta e às cartas, além de treinar os testes militares, cujo sucesso dava a possibilidade de sermos autorizados a passar em casa o fim de semana.
À época, eu era o único membro do grupo que, estranhamente conhecedor do "nacional-cançonetismo", sabia a música e a letra da canção "Ericeira", de Gabriel Cardoso. Ensinei-a aos restantes comparsas – éremos meia dúzia, com o Vasco, o António Franco, o Miguel Lobo Antunes e um Ribeiro de quem me escapa o primeiro nome– e que desde logo passou a ser o "hino" desses nossos momentos de lazer.
A casa do Vasco tinha um terraço sobre a rua onde se preparavam uns deliciosos grelhados. Lembro-me de dali saudarmos, com distante ironia, os oficiais de Mafra que calhava passarem pela rua e que não podiam evitar que, do alto, nos exibíssemos em trajes civis. Pequenos prazeres desses tempos de "trabalhos forçados"...
Acontece que, no dia de hoje, estou pela Ericeira. Há pouco, acabei de passar ao lado da casa do Vasco. E, para surpresa de quem me acompanhava, dei comigo a trautear, pela rua: "Ericeira, onde o sol é mais azul / das belas belas praias do sul / de doirada e fina areia". Isto de colocar a Ericeira no sul, era bem próprio de alguém que era oriundo das ilhas, como o Gabriel Cardoso, que a sida levou deste mundo, vai para 26 anos.
O pôr-do-sol do final da tarde de hoje era o da imagem, que foi tirada da vidraça do "Brisa", onde comi umas gambas, umas ameijoas à Bulhão Pato e uma sapateira, acompanhadas de um Soalheiro "primeiras vinhas" – tudo de se lhes tirar o chapéu!

Sem comentários:
Enviar um comentário