Iniciei a minha primeira atividade profissional em 18 de novembro de 1971. Já lá vão quase 55 anos. Nesse dia, para poder ser funcionário público, tive de ler em voz alta o texto que está na imagem. Todos tínhamos de o fazer. Era uma hipocrisia, mas a ditadura a isso obrigava.
Ora a verdade é que eu não estava confortável com a "ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933" (em cuja aprovação, com 99,5% (!), as abstenções tinham contado como votos a favor). Não tinha - nem hoje tenho - "activo repúdio do comunismo": nunca fui comunista, mas sempre respeitei, e continuo a respeitar, muito mais um comunista do que um fascista. Por essa época, os comunistas lutavam ao nosso lado contra o fascismo. Nesse ano de 1971, confesso que quase "todas as idéas subversivas" me eram simpáticas, porque as considerava um meio para nos vermos livres do sinistro regime que nos obrigava àquela farsa. Tudo isto apenas para poder ingressar na função pública.
Lembrei-me disto na manhã de hoje, ao tomar posse de determinadas funções numa empresa. Nada me foi perguntado sobre as minhas ideias. É assim em democracia, com a nossa bela Constituição, que agora faz 50 anos e na qual - agora sim! - me sinto plenamente integrado.
