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quarta-feira, março 25, 2026

Tariq Ramadan


Menos de um ano tinha passado sobre o 11 de setembro de 2001, dia trágico para o mundo, que eu testemunhara em Nova Iorque, ao tempo que ali era embaixador português junto da ONU. Convidado pelo professor Freitas do Amaral e por Armando Marques Guedes, encontrava-me em Cascais para uma conferência internacional sobre terrorismo.

Uma das figuras proeminentes do encontro era Tariq Ramadan. Por esse tempo, Ramadan era uma sólida vedeta internacional. Com o mundo muçulmano sob pressão após o ataque às Torres Gémeas, ele surgia como a face de um islão moderado, dialogante, distante do radicalismo terrorista que assombrava a época. Filósofo de nacionalidade suíça, com o Islão como especialidade, desenvolvia então uma interessante reflexão sobre a compatibilização dessa religião com a sociedade ocidental e com os modelos democráticos.

Lembro-me da curiosidade com que ouvimos a sua intervenção, num tom intelectual de irrecusável brilhantismo, mas que aqui e ali me pareceu pontuado por alguma ambiguidade. No intervalo, a imprensa portuguesa rodeou-o, num tributo óbvio à sua notoriedade. Troquei com ele escassas e irrelevantes palavras, num qualquer evento social à margem da conferência.

Desde então, fui acompanhando a sua figura pública, constatando que a sua presença como intelectual muçulmano se tornava progressivamente mais polémica, envolvida em controvérsias crescentes. Várias vezes me perguntei se a ambiguidade que julguei detetar no seu discurso, em 2002, não seria já um sintoma do ambiente cada vez mais denso que o envolvia.

Pelo meio, publicou livros, foi professor em Oxford, proferiu uma imensidão de conferências e deu entrevistas televisivas que o mantiveram sob os holofotes - mas também debaixo da controvérsia. E esta acabaria por mudar de natureza. Ramadan veio a ser acusado de graves violências sexuais e teve de prestar contas à justiça.

Agora, após um processo longo - e depois de casos anteriores em que escapara à prisão -, foi severamente condenado, tendo iniciado o cumprimento de uma pena de 18 anos por três crimes de violação. Com apenas 64 anos e sofrendo de uma doença degenerativa, Tariq Ramadan desce aos infernos - seja lá isso o que for no seu Islão.

Tariq Ramadan

Menos de um ano tinha passado sobre o 11 de setembro de 2001, dia trágico para o mundo, que eu testemunhara em Nova Iorque, ao tempo que ali...