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segunda-feira, março 23, 2026

... e Jospin


A propósito de François Bayrou, escrevi aqui que estavam a desaparecer as figuras da "outra" V República. Nem por acaso, acaba de surgir nas notícias a morte de Lionel Jospin, figura destacada dessa mesma época. 

Em 2003, ao ficar surpreendentemente em terceiro lugar - depois de Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen - na primeira volta das eleições presidenciais, Jospin veio a testemunhar, a uma distância humilhante, uma votação "norte-coreana" em Chirac - o qual, medidas as diferenças, acabou por ser uma espécie de Seguro "avant la lettre". Nessa noite, como logo anunciou, Jospin colocou um ponto final na sua vida política.

Lionel Jospin era das figuras mais respeitadas no seio dos socialistas franceses - e não só. Diplomata na sua origem profissional, tivera no passado uma ligação aos movimentos trotskistas que prolongou, já como militante do PS francês, por um período de tempo politicamente imprudente. Alguns levaram isso à conta de uma deliberada atitude de "entrismo" - a tática trotskista de se manter como "sleeper" dentro de outras organizações. As explicações que posteriormente veio a dar sobre o assunto não convenceram toda a gente.

Jospin era um homem frio, rigoroso, na ideologia um socialista a sério - e isto é um elogio. Estive com ele em algumas reuniões, acompanhando António Guterres, quando ele era primeiro-ministro da "coabitação" em que Chirac estava no Eliseu, depois da inesperada vitória socialista de 1997, resultante da desastrada dissolução da Assembleia que Dominique de Villepin, então SG do Eliseu, inspirou. 

Fiquei ao seu lado num almoço em Matignon, de que recordo sobretudo os excelentes vinhos, já que a nossa conversa foi breve - através da mesa, ele falava com António Guterres e tinha à sua direita Jaime Gama. Não sei como, veio à baila o MES, o Movimento de Esquerda Socialista, a que eu tinha estado ligado e sobre o qual ele tinha alguma curiosidade. A certa altura, Jospin disse-me: "Como saberá, fui trotskista. O MES também tinha trotskistas?" Com o tempo, vim a concluir que a minha resposta foi, sem querer, algo premonitória: "Pode dizer-se que o MES teve, como longínqua referência francesa, o PSU, de Michel Rocard. Mas não me recordo que tivesse trotskistas. Em Portugal, os trotskistas tiveram um caminho próprio. Mas com os trotskistas nunca se sabe, não é? Podem ter "entrado" no MES..."

Recordo ainda as longas noites do encerramento do Tratado de Nice, com Chirac no comando das operações e Lionel Jospin e o MNE Hubert Védrine num papel mais recuado, com muito escassa intervenção nas complicadas negociações, madrugada fora. Chirac e Jospin foram ali a encarnação viva do "gaullo-mitterrandisme", essa doutrina teorizada por Hubert Védrine. 

"Maire" de Paris