O mundo não é a preto e branco. A Venezuela de Maduro era, sempre foi, uma ditadura. Contudo, ao contrário do que muitos pensam, uma parte da oposição a ele e a Chávez nunca foi "flor que se cheire". Ser contra aquele regime não significa ter credenciais democráticas.
Exatamente. Muito bem escrito.
ResponderEliminarBasta ver a indignidade do episódio da medalha do prémio Nobel.
ResponderEliminarTotalmente de acordo de que análise política vigente sobre a Venezuela é feita a “preto e branco”.
ResponderEliminarAo ver certas análises enviesadas, é como se a ditadura neste país se tivesse cingido aos regimes de Maduro e Chavez, e como se antes do surgimento destes, a Venezuela vivesse em democracia.
Convém recordar a ditadura militar de Marcos Pérez Jiménez (1952-1958) que culminou no seu derrube, abrindo caminho a um novo ciclo político na Venezuela que para evitar os golpes/ditaturas militares que haviam governado grande parte da história do país (Juan Vicente Gómez Chacón 1908-1935; Eleazar Lopez Contreras 1935-1941), os principais partidos assinaram o “Pacto de Punto Fijo”, acordo esse que estabelecia regras de alternância no poder, respeito pelos resultados eleitorais e partilha do Estado entre as forças signatárias.
Sabe-se como o colapso de governos pretensamente democráticos ao abrigo do “Punto Fijo” se verificou sob a governação de Carlos Andrés Pérez (dito social-democrata) na sequência da adopção do pacote de reformas neoliberais, imposto pelo FMI, e cuja consequência foi o “Caracazo” uma explosão de protestos populares e repressão violenta, que resultou em milhares de mortos e, que no fundo, esteve na origem da ascensão ao poder de Hugo Chávez em 1998, que encarnando o descontentamento popular contra a corrupção, a desigualdade social e a submissão às políticas neoliberais, foi eleito Presidente na sequência de eleições reconhecidas então como legítimas pela comunidade internacional.
Outra mentira – veiculada aquando da recente invasão da Venezuela e o propósito de Trump de os EUA retomarem a exploração das reservas de petróleo venezuelanas – é a de que foi o regime de Chavez/Maduro a operar a nacionalização da exploração petrolífera.
A trajectória política da Venezuela, tanto do modelo rentista da governação liberal como do modelo autocrático centralizado, sempre esteve dependente da exploração petrolífera pelas empresas americanas.
A Lei de Hidrocarbonetos de 1943 já havia estabelecido uma divisão mais favorável ao Estado (50/50) entre o governo venezuelano e as empresas estrangeiras e foi o governo social-democrata de Carlos Andrés Pérez que em 1975 operou a nacionalização da indústria petrolífera, culminando na criação da PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.), embora na década de 1990 o mesmo Andrés Pérez (2.º mandato) tenha permitido uma maior participação de empresas estrangeiras em associações e contratos com a PDVSA.
Chávez ao aprovar a Lei Orgânica de Hidrocarbonetos (2001), limitou-se a reafirmar o controlo soberano sobre os recursos naturais, a aumentar os “royalties”, garantindo a maioria accionista do Estado em empreendimentos petrolíferos (por ex. a Chevron, ao contrário de outras empresas norte-americanas que optaram por sair do país em conflito com a política petrolífera de Chavez, manteve sempre uma presença significativa (mesmo durante o governo de Maduro) no sector petrolífero venezuelano através de “joint ventures” com a PDVSA.