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sexta-feira, março 01, 2013

Grillo

Eu tinha à volta de vinte anos. Numa madrugada, o Sud-Express em que seguia a caminho de França parou, por alguns minutos, numa estação espanhola. 

Dado que a "couchette" que me cabia era grandemente incómoda, há horas que eu vagueava pelo corredor do comboio, espantando o sono. Era Verão e abri uma janela, na noite quase deserta de gente, no meio da meseta. Perguntei a alguém que passava onde estávamos: Medina del Campo, foi a resposta.

Foi então que, de alguém que viajava duas carruagens adiante, ouvi, num tom arrastado, num registo de óbvio gozo, uma voz gritar: "Grilo! Ó Grilo!". Ao meu lado, um viajante, também sem sono, comentou: "Quem será este Grilo?". Eu sorri.

Não expliquei, talvez porque era uma longa história, que o passageiro aos berros era, com toda a certeza, um queiroziano de mérito. Numa noite ferroviária em Medina del Campo, repetir o chamamento do "Grilo" era, garantidamente, alguém a reproduzir a cena famosa de "A cidade e as serras", quando um desesperado Jacinto temia que o criado negro, que tinha a seu cargo as milhentas bagagens destinadas a confortabilizar Tormes, se viesse a perder na mudança de comboio. O que acabou por acontecer, com as 27 malas a irem parar a Alba de Tormes...

Lembrei-me deste episódio ao ouvir ontem, em toda a comunicação social, imensas notícias sobre um Grilo. Este Grillo tem dois "ll", é italiano e parece que vamos ouvir falar muito dele no futuro, para mal dos nossos pecados - para quem os tenha, claro.

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