Eduardo Paz Ferreira lançou, há dois dias, na reitoria da Universidade de Lisboa, uma coletânea de textos produzidos entre 2008 e 2013, a que deu o sugestivo título de "Crónicas de anos de chumbo".
Por lá estivemos, a dar-lhe um abraço, bastantes dos seus muitos amigos, num testemunho sincero a um homem que pensa com rigor o país em que vive e que tem uma intervenção académica de grande valia, de paralelo com uma longa dedicação a causas cívicas, desde os seus tempos açoreanos. E que tenho cruzado, com regularidade, ao longo das últimas décadas, num registo de permanente cumplicidade.
Devo dizer que me impressionou o tom geral das intervenções produzidas na ocasião, comummente marcadas por uma manifestação de sofrimento pelo tempo por que passamos, uma espécie de revolta cada vez menos contida, que não se sabe até onde poderá ir. Até pelas canções com que Cristina Branco fechou a sessão passou essa surda tristeza que a todos nos abala nos dias de hoje. Adequada, aliás, ao que se avisa na contracapa: "Este não é um livro alegre". Não é, de facto, mas também não é um livro macambúzio, é um livro simples na forma mas muito denso no conteúdo, feito em boa escrita, com notas de um humor que os dias que correm também convoca, porque, como diz o autor, "a ironia é uma arma muitas vezes mais poderosa do que a raiva". Mas a raiva também faz falta, às vezes.
