Carlos Eurico da Costa, poeta surrealista e diretor da Ciesa-NCK, contou-me um dia a história de um elemento da empresa que foi a uma reunião a Paris e, perante uma discussão que entendia pouco produtiva e muito palavrosa, deixou uma frase que ficou no anedotário das agências portuguesas de publicidade: "On parle, on parle et après chapeau!"
Lembrei-me dessa pérola de cosmopolitismo linguístico ao assistir, há dias, ao discurso de Obama em Jerusalém, comparando-o com a mensagem de esperança que, em 2009, ele próprio tinha deixado, na sua célebre intervenção no Cairo. Passaram quatro anos e é preciso dizer que o processo negocial no Médio Oriente regrediu, que a desconfiança entre os dois lados se agravou e que Washington se revelou totalmente incapaz de utilizar o "leverage" que parecia ser o seu naquele contexto. E que tudo indica que, diga Obama o que disser, as coisas continuarão na mesma. Ou pior.
Ontem, comentei isto com um amigo americano com quem jantei em Lisboa. Ele mantém a esperança de que Obama (com John Kerry) vai conseguir, até ao final do segundo mandato, algum avanço significativo no processo de paz do Médio Oriente (se é que as coisas ainda se podem designar assim). Eu, devo confessar, sou muito mais cético. Acho que Israel, na cegueira estratégica a que desde há muito hipoteca a sua sobrevivência, teve artes, uma vez mais, de tornar refém uma administração americana, através da hábil instrumentalização do lóbi judaico no país. E isto não é uma boa notícia, não apenas para a promoção dos direitos dos palestinianos, mas principalmente para a atenuação das tensões maiores que, a prazo, podem pôr em risco a existência em paz do Estado de Israel. Mas espero sinceramente estar enganado.
