terça-feira, 22 de novembro de 2016

Reflexão impopular


Ao tempo, deixei por aqui o apelo a que, com presteza e rigor, fosse feita a inculpação, sem tibieza nem falsos "respeitinhos", dos responsáveis pelas mortes em treino dos soldados dos Comandos.

Mas, em Portugal, é ou oito ou o oitenta.

No passado, casos como estes foram sempre abafados, com a culpa a morrer solteira. As famílias bem protestaram, mas toda a gente olhou para o lado. Agora, em face da projeção mediática, e num gesto de demagogia serôdia, foi decidida uma espetacular detenção, para interrogatório, de um grupo de militares de várias patentes, com os nomes escarrapachados na imprensa. E lá foram as "Sónias Cristinas" das televisões acompanhar as carrinhas até ao presídio.

Mas será que havia mesmo perigo de fuga, que justificasse a detenção dos militares, em lugar de serem simplesmente chamados a depor? Pelos vistos, não havia, caso contrário o juiz teriam determinado que ficassem em prisão preventiva.

Mais um triste teatro, num caso que haveria toda a vantagem em ser tratado com grande seriedade. Só espero que, com este inadequada e exagerada encenação, que suscitou legítimas reações de alguns setores militares, não se acabem por criar novas "vítimas", ajudando a esquecer que as verdadeiras foram as que morreram.

15 comentários:

jj.amarante disse...

Penso o mesmo, trata-se de uma prepotência dos procuradores ou dos juízes que preferem deter pessoas para os interrogar em vez de os convocarem para prestar declarações. Já aconteceu na operação Marquês e também com Ricardo Salgado. No Brasil aconteceu com Lula. É pena que não apareça ninguém do meio judicial a condenar em abstracto esta prática que se está a tornar irritantemente comum para os casos mais mediáticos. Será para mostrar quem manda quando os investigados são pessoas com poder (político, económico, hierarquia militar mesmo que pouco graduada)?

Anónimo disse...

"Mas, em Portugal, é ou oito ou o oitenta.
No passado, casos como estes foram sempre abafados, com a culpa a morrer solteira."

talvez seja assim. Seria bom habituarmo-nos a uma cultura de analise, de procura de falhas e correcção destas. Sem ser checks and balances, pois isso não seria aplicado em Portugal por ser uma boa medida, mas antes porque é uma coisa que soa americano... dai a qualidade (no mundo so existe na America, claro.........)

E quando a culpa não morre solteira, la vem o tribunal das correias matinais baralhar e voltar a dar...

ânimo, embaixador, ânimo!... isto daqui a 5 dias ja esta tudo bom!

Anónimo disse...

"É pena que não apareça ninguém do meio judicial a condenar em abstracto esta prática",

Mas quem do meio judicial? Já ouviu António Ventinhas que perante as evidências tonitruantes do lado que viola sistematicamente o segredo de justiça, consegue concluir que todas as suspeições contra essa parte são falsas por existir o exemplo único da captura de Pedro Dias, entregue pelos advogados à RTP?

Que fazer perante estas figuras? Mais, como continuar a captar, formar e reproduzir juristas com este tipo de discurso? Cooptam-se uns aos outros para nossa grande tragédia - como se viu ainda agora também com o Brasil ou com o FBI.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Nem se trata de o juiz não ter determinado a prisão preventiva. Essa decisão só veio confirmar o que entrava pelos olhos adentro do senso comum.

No caso de José Sócrates o juiz determinou a prisão preventiva. Eu pergunto: alguém hoje, passado todo este tempo (e o que mais virá) sem haver acusação, é capaz de afirmar que se justificou a sua prisão?

O nosso problema sempre foi esse: passar do oito para o oitenta, quer seja nas SCUTS (passámos da borla insensata para preços quase incomportáveis), quer seja nas contas do estado (passámos do despesismo sem conta, nem medida, para uma austeridade cega).

Bom senso é o que não temos.

Anónimo disse...

Aí atrás, prega-se o senso comum e depois afinfa-se-lhe com O NOSSO PROBLEMA,
óbvio modo de nada resolver. Hiperboliza-se no estilo choradinho do dizer mal da pátria, um não sei quê que se diz atávico, em vez de tentar mexer no que interessa. E vai tudo a eito, ao estilo dos nossos inglusos, herdeiros provincianos e pacóvios de do também muito provinciano Eça. A Justiça é má por ser má e reproduzir práticas que são dela e não por qualquer fundo comum nacional. A bola funciona, apesar dos videirinhos, no mesmo país dos nossos problemas. Porquê? Por se ter apostado nela.

Anónimo disse...

É uma questão de perspectiva. Para mim, grave mesmo é os casos passados terem ficado silenciados e graves são os relatos do presente caso. Isso sim, é grave. Não merece projeção mediática? E qual foi, afinal, o erro da justiça, neste caso? Ter mandado deter os presumíveis responsáveis para interrogatório? Se não se justifica neste caso, em que casos merecerá?
Já agora, quem quer respeito, tem de o merecer. A instituição militar, tão preocupada agora com a sua imagem, onde estava quando os casos eram abafados e tudo ficava em águas de bacalhau?

Anónimo disse...

Neste miserável "Reino" chamado Portugal, sempre tivemos quase toda a gente a lamber os pés aos poderosos. Assim foi no passado, assim será sempre no presente e futuro.Em Lisboa os bons empregos pagam-se na "cama" ou com negociatas escuras. Na provincia os bons empregos pagam-se em favores vários, desde poder contruir onde não podiam, desde ameaçar gerentes bancários que se tira de lá o dinheiro caso não se arrnje lá um lugarzito para os filhos que serão ou não dele

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Ao anónimo das 12:32 apenas acrescentaria que à falta de bom senso soma-se-lhe a falta de memória. Nada nos fica inscrito (como bem explicou José Gil). Nada nos deixa marcas (para o bem e para o mal). A única marca que nos ficou é a nostalgia de um passado de glória e de um Império que findou, marca da qual eu também padeço.

Anónimo disse...

Sim, Edmundo-Filho: a questão do Sócrates é COMPLETAMENTE diferente. Justificava-se a prisão preventiva.

Anónimo disse...

Reflexão bastante popular resultante dos desgovernos que foram colocados pelos portugueses nos governos(?), governando-se eles e os afilhados:


"Dívida pública supera os 133% do PIB e atinge novo recorde.

A dívida pública portuguesa manteve a tendência de agravamento no terceiro trimestre deste ano, atingindo o valor mais elevado pelo menos desde 2007, mostram os dados do Banco de Portugal.

Juros de Portugal afundam após novo máximo.

A tendência dos juros da dívida pública portuguesa é distinta da verificada noutros mercados, com as "yields" estáveis em Itália e na Alemanha e a subirem em Espanha."

in Jornal de Negócios

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Ao anónimo das 20:24:

Se eu lhe perguntasse por que razão se justificou a prisão preventiva de José Sócrates desconfio que a sua resposta seria mais ou menos esta: PORQUE SIM.

A questão coloca-se de uma forma simples: só deverá ocorrer a prisão preventiva de um arguido se existirem FORTES INDÍCIOS da práctica de um crime. Pergunto, que fortes indícios são estes que ao fim de 24 meses(!!!) de investigações (em 10 deles com o arguido preso) a que se soma os meses de investigação que precederam e determinaram a prisão preventiva (presumo que tenha havido essa investigação prévia...), que não haja ainda qualquer acusação? A resposta só pode ser uma: afinal de contas os indícios não eram assim tão fortes e se não o eram, não deveria ter ocorrido a prisão preventiva.


Anónimo disse...

Ao ver quase todos estes comentários, sou tentado a concordar com um dos anónimos que ai comentou. Existe efetivamente na génese do cidadão português, uma cultura subserviente aos endinheirados e poderosos. Aliás basta ver a curvatura feita aqui por vários comentadores principalmente quando se trata de gente famosa a ir ao calabouço. São pessoas que pela mesquinhez muitas vezes das terras em que nasceram vivem constantemente com a espinha dobrada, mas quem os ouve parecem uns intelectuais.

Anónimo disse...

Relacionada com esta temática, a notícia do Expresso que diz o seguinte:
"Segundo o relatório de investigação da Inspeção-Geral da Administração Interna, “jamais” Manuel Palos “recebeu qualquer quantia monetária” para facilitar o acesso a vistos gold. O IGAI chega mesmo a descrever a sua dedicação ao SEF como “brilhante”.

O ex-Diretor do SEF foi sujeito a medidas tais e a uma exposição pública tal que não são admissíveis. Os danos que lhe terão sido causados são irreversíveis. A justiça deve ser clara e transparente e pública e tudo isso; mas tem um dever de recato e de salvaguarda da integridade das pessoas, de todas as pessoas, sejam polícias, políticos, agricultores, jornalistas do Correio da Manhã, advogados, engenheiros...

Nota: não conheço pessoalmente Manuel Palos, mas conheci de perto a sua atividade profissional e tinha dele a melhor impressão pela dedicação à causa pública, que tanto admiro no exercício da nobre profissão de funcionário público, pelo que a sua prisão me deixara incrédulo... a notícia de hoje vem repor a dignidade da pessoa, a quem desejo a melhor das sortes. O país precisa de servidores públicos na natureza de Manuel Palos.

David Caldeira

Anónimo disse...

Edmundo-Filho, existiam fortes indícios. Não confunda isso com prova.
E é óbvio que Sócrates era uma pessoa com capacidade para perturbar a investigação.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Se Sócrates é homem para perturbar a investigação, dado que esta ainda não acabou e ninguém sabe (nem os investigadaores...) quando a acabará, quer ver que o homem vai mesmo perturbar decisivamente a dita investigação!