Com a publicação de um livro da autoria de dois jornalistas, em que são reportados comentários de François Hollande a várias figuras e instituições francesas, o atual ocupante do Palácio do Eliseu deu uma machadada final naquela que era já uma muito remota hipótese de recandidatura. A França é muito dada a este tipo de indiscrições escritas, pelo que o livro de José António Saraiva nunca seria um escândalo por lá.
(Tenho algures um outro livro, também de dois jornalistas, com conversas com Nicolas Sarkozy, igualmente "politicamente incorretas", mas que não iam tão longe como as do político socialista e que, se bem me recordo, em nada contribuiram para a sua derrota, em 2012. Contra Hollande, recorde-se.)
Sei que isto não deve ser muito popular, mas devo confessar que gosto de Hollande como pessoa. Conheci-o em Lisboa, creio que em 1999, quando cá veio a uma conferência no Hotel Ritz, numa iniciativa promovida por Mário Soares e António José Seguro, em que ambos falámos sobre o estado da Europa. Revelou-se um homem cordial e afável, brincalhão e bem disposto. Tenho um fraco por pessoas assim.
Politicamente, Hollande nunca foi "grande espingarda". Assessor de Mitterrand, nunca por este (nem por Jospin) foi levado para o governo, o que pode querer dizer alguna coisa. Gestor hábil da máquina socialista - um "saco de gatos" muito difícil - acabou por emergir como uma espécie de "média aritmética" nas primárias que levaram à sua seleção como candidato da esquerda às eleições presidenciais, numa França então muito cansada da hiperatividade arrogante de Sarkozy. Ganhou com um discurso bastante mais à esquerda do que presidência que depois faria. Portugal deve-lhe uma política fiscal contra os "ricos", que fez com que para cá emigrasse muito capital, que comprou meia Lisboa.
Como presidente, Hollande demonstrou não ter uma estratégia clara para os problemas internos do país, da questão da competitividade à integração social das comunidades, dando sinais contraditórios com algumas escolhas que fez para o executivo. Mas portou-se bem nas questões da segurança. No plano externo, revelou um elevado sentido das responsabilidades globais que competia à França assumir - de que a sua ação no Sahel fica como um marco significativo. Na área europeia, não conseguiu disfarçar a crescente fragilidade da França. O saldo global, como se vê com os seus 4% (!) de aprovação, é, contudo, abaixo de medíocre.
Custa-me dizer isto de um país de que gosto muito: o problema francês, isto é, a inadequação que me parece evidente das suas ambições face à realidade, tornam o seu problemático futuro - quem que seja quem a dirige - numa questão para todos quantos dependem da sua capacidade como poder para reequilibrar a balança europeia, principalmente agora que dizemos adeus a Londres no quadro comunitário.
Em 2012, François Hollande afirmou querer ser um presidente "normal", para contrastar com a imagem de Sarkozy. Infelizmente, acabou por ser um presidente banal, tocando mesmo alguma vulgaridade, em especial no modo como geriu as dimensões públicas da sua vida sentimental.
Posso estar a ser simplista, mas, nestas derivas afetivas, creio ter vislumbrado em Hollande algum "mitterrandismo" tardio, uma teatralização à Feydeau da vida meio-política-meio-pessoal em que os franceses são mestres, a qual não deixa de colher os favores da minha nostalgia. É que Hollande manteve sempre em tudo isso um registo humano com que não consigo deixar de simpatizar. É também por isso, para além das dimensões políticas, que tenho pena que acabe por sair da cena da História desta maneira.
