A cadeira chamava-se "Etnografia" e era "dada" no ISCSPU, pelo professor António de Almeida, uma figura algo típica, com vasta obra publicada sobre o tema, a propósito da África colonial portuguesa. Quando lhe propus fazer um trabalho sobre a louça de barro negro, de Bisalhães, perto da minha Vila Real natal, não o vi grandemente entusiasmado. Essa falta de entusiasmo traduziu-se no "13" com que encerrei a cadeira, nessa segunda metade dos anos 60 (do século passado, como agora começa a ser de regra assinalar). Há meses, encontrei o meu pequeno estudo - umas dezenas de páginas com algumas fotografias - e acabei por dar-lhe razão: o trabalho tinha escassa qualidade, estava mal apoiado em bibliografia e, aqui entre nós, era mesmo muito banal. O "13" foi merecido...
Para quem é de Vila Real, as peças de barro negro da aldeia de Bisalhães, a escassos quilómetros da cidade, fazem há muito parte da "paisagem". Durante anos, apenas surgiam na Feira de S. Pedro, em duas qualidades distintas. Os mais baratos eram uns "panelos" em forma de vaso, muito finos, com escassa cozedura, a preços muito baixos (lembro-me deles a "dez tostões"). Compravamo-los para os "trocarmos" pelo ar, em desafiantes jogos que, cedo ou tarde, acabavam em cacos que enchiam o chão da Rua Central ou da Rua Direita. Ao lado, com outro preço, os artesãos de Bisalhães vendiam objetos mais artísticos (de que a "bilha de segredo" era talvez o mais sofisticado), mais úteis (como tachos para irem ao lume) e até curiosas miniaturas de serviços de loiça. Com o fim da festa, a louça desaparecia da cidade e só era visível em exemplares nas montras do Turismo, na Avenida Carvalho Araújo. De há uns anos para cá, algumas barracas de venda permanente da louça ganharam lugar a norte da Almodena. Mas sabia-se que o artesanato de barro preto passava por tempos bem difíceis.
Um dia, o novo presidente do município, Rui Santos, deu-me conta da sua intenção de impulsionar um melhor conhecimento e proteção daquela atividade artística, através de uma candidatura à inscrição do processo de confeção da louça preta de Bisalhães na Lista de Património Cultural Imaterial da Unesco que Necessita de Salvaguarda Urgente. Considerava - e bem! - ser essa a forma de evitar que a atividade fosse desaparecendo, risco muito evidente nos últimos anos, o que destruiria uma tradição artística do maior interesse. Numa reunião realizada com a sua equipa, em Vila Real, verifiquei que o trabalho técnico-científico, mobilizado pela Câmara Municipal, estava já muito avançado. Na minha qualidade cumulativa de vila-realense e de antigo embaixador junto da Unesco, acompanhei depois os contactos feitos no Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa. A minha "ajuda" acabou aí.
Passaram alguns meses. As coisas iam, entretanto, fazendo o seu caminho no âmbito da Unesco, impulsionadas pela respetiva Comissão Nacional e encaminhadas pela nossa missão em Paris. Sabia que o assunto iria hoje à reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, reunido em Adis-Abeba e que as hipóteses de sucesso eram elevadas. Há algumas horas, rejubilei quando vi a notícia de que a louça de barro negro de Bisalhães havia ganho o estatuto que se ambicionava.
Bisalhães e os seus artesãos estão de parabéns. Vila Real também. E essa vitória tem três nomes: o presidente do município, Rui Santos, a vereadora da Cultura, Eugénia Almeida, e o principal responsável pela organização técnico-científica do dossiê que permitiu esta vitória, João Ribeiro da Silva. Entre várias outras figuras que se revelaram decisivas para este sucesso, um outro nome é de destacar, o de Clara Cabral, cuja competência técnica no âmbito da Comissão Nacional da Unesco sei ter sido um fator fundamental.
Um outro importante trabalho começa agora, com acompanhamento da reconstituição da malha daquela pequena indústria local. A vitória em terras do Preste João é apenas o início do muito que agora aí vem. Mas, agora, a esperança em Bisalhães renasce.
