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segunda-feira, novembro 14, 2016

Miguel Veiga


Morreu um homem livre, que pensava exclusivamente pela sua cabeça, mesmo que isso o obrigasse a ficar sozinho, contra tudo e contra todos. O que algumas vezes aconteceu. Tinha a coragem própria dos que não dependem dos outros, de quantos não mendigam lugares ou prebendas, tendo como única ambição serem eles mesmos. Social-democrata de gema, num espaço político-partidário onde essa espécie quase já só se encontra à lupa, era um saudável heterodoxo, senhor de um discurso afiado e irónico, onde ao traquejo da barra se somava uma convivência íntima com os clássicos e um mundo de debate criativo onde sempre brilhava.

Como pessoa, era uma figura encantadora, culta, cosmopolita, muito agradável, com histórias deliciosas. Gostava das coisas boas da vida, era um epicurista felizmente incurável. E era um cultor feroz da amizade.

Um dia de dezembro de 2002, no Porto, num jantar oficial, num tempo em que eu fora objeto público de uma vilania, aproximou-se de mim e disse: "Meu caro, vi o que lhe fizeram. Deixe-me dar-lhe um abraço forte, com a minha solidariedade". E, como homem do Norte que era, deixou na conversa um qualificativo adequado aos fautores da patifaria. Nunca esqueci esse gesto, vindo de quem vinha.

Estive com Miguel Veiga, pela última vez, na evocação de Artur Santos Silva (pai), que ele fez com brilho, na Fundação Mário Soares, há cerca de dois anos. Senti-o já bastante frágil, longe da graça, quase adolescente, que era a sua imagem de marca. Mas sempre com a inteligência viva e a palavra certa.

Homens livres como Miguel Veiga fazem muita falta ao país cinzento e burocrático que aí anda.

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