terça-feira, 29 de julho de 2014

Descolonização

Foi em 27 de julho de 1974, fez agora 40 anos, que António de Spínola, enquanto presidente da República, cargo que desempenharia apenas por mais dois meses, assinou a lei 11/74, que iria abrir a porta ao processo de descolonização. Apenas três meses antes, tinha-se recusado a aceitar o modo (ainda assim muito "recuado") como o assunto fora proposto, na primeira versão publicada do programa do Movimento das Forças Armadas, logo após o 25 de abril. Essa seria, aliás, a primeira crise entre os "capitães" e Spínola.

O processo de decisão que levou Spínola a alterar a sua atitude face à descolonização é um dos mais interessantes capítulos desse período. Para ele contribuíram a evolução das condições no terreno, a mudança nas relações de força no seio do MFA, e como consequência de tudo isso, a sua desistência da linha programática que tinha estado por detrás da conceção do livro "Portugal e o Futuro". Por esclarecer fica o mistério dos seus encontros com Nixon e Mobutu e o que neles terá sido dito sobre Angola (do primeiro, haverá apontamentos de Vernon Walters, a única pessoa presente, cujas memórias, contudo, nada trazem de interessante?)

Na passada semana, na revisão de alguns livros atrasados, li com bastante interesse o 2º volume do "Quase Memórias", de Almeida Santos, dedicado ao processo de descolonização, ao tempo que era ministro da Coordenação Interterritorial, o patusco nome que a Revolução encontrou para substituir o termo "Ultramar". No seu estilo muito próprio, o meu amigo António Almeida Santos faz nele um bosquejo sobre a evolução de todos os territórios, de Cabo Verde a Timor, incluindo mesmo o caso de Macau. O seu papel em todos esses casos é ali detalhado com aspetos curiosos. Sendo um ávido leitor do tema, devo dizer que aprendi mais algumas coisas que desconhecia e que me ajudaram a entender melhor o que então se passava nos corredores político-militares de Lisboa, por onde, curiosamente, eu também me movimentava, embora como figurante menor.

5 comentários:

Anónimo disse...

"Colónias" "Províncias Ultramarinas "Interterritoriais". Ah, se os nomes mudassem o espírito!... outro galo nos cantaria.

Anónimo disse...


no outro dia num texto estava mencionado que as populações pagavam muito caro o facto de existir imensos recursos como o petróleo nos seus território
queira Deus que a história mude esse drama

patricio branco disse...

a mudança de nome dos ministerios é coisa corrente entre nós, raramente um ministerio mantem o mesmo nome durante decadas, como p ex no reino unido ou eua. a excepção é talvez o mne, embora se tivessem ido acrescentando subnomes (das comunidades, da cooperação). colonias, ultramar, coordenação interterritorial (não diz nada de facto, a geografia estava ausente). o min do interior passou a administração interna, ganhou? não. pescas, mar, outra variação.
devem ser interessantes as memórias de almeida santos não duvido. freitas do amaral e adriano moreira tambem publicaram as memórias.
40 anos sobre a descolonização, pois vêm à memória imagens, soares a ir a correr para o senegal em 2 ou 3 de maio como mne, spinola com mobutu na ilha do sal, etc

Anónimo disse...

Eu só gostaria de perceber, por que razão o meu avô e a minha avó, então com setenta e muitos anos, tiveram de ir para Chelas partilhar casa com outro casal. Casa composta por uma sala e dois quartos. "Faz-se o que se pode", dir-se-ia. "E já é muito", diriam outros. Não questiono. Deste lado, as possibilidades não eram muitas. Mas, caramba, de quem foram eles inimigos? Por que raio tiveram de acabar assim? Não tivémos tempo de aprender qualquer coisa com o que se passou com os nossos vizinhos europeus?
À distância é fácil falar. Eu percebo. Mas há uma mágoa persistente: uma queda de um 4º andar, que é difícil esquecer.

Anónimo disse...

descolonização exemplar(mente) irresponsável, período negro da história de Portugal.