quarta-feira, 17 de julho de 2013

Uma outra esquerda

A democracia portuguesa tem alguns fenómenos curiosos.

Um deles, bem conhecido, é o Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV), uma formação na qual nunca ninguém votou diretamente em qualquer eleição, porquanto aparece sempre incluída numa "frente", que em tempos já se chamou APU e que agora se designa por CDU, onde o PCP é, sem surpresas, o partido dominante. O aproveitamento constitucional de uma "quota" de representação política, que permite a criação de um outro grupo parlamentar, duplica assim os tempos de palavra e, como agora se vê, garante que, no âmbito da mesma CDU, possam ser suscitadas duas moções de censura. Durante muitos anos, o PEV tinha como face mais visível a minha amiga Isabel de Castro. De há já algum tempo para cá, é a inconfundível voz de Heloísa Apolónia que passou a fazer parte do património sonoro do nosso parlamento.

A mais enigmática formação neste âmbito é, porém, a "Intervenção Democrática", uma estrutura política cuja visibilidade e atividade quotidiana mereceria, estou certo, ser estudada numa tese de doutoramento. Desde sempre dirigida por um homem simpático, com quem tenho uma relação bem cordial, Corregedor da Fonseca, surgiu como que uma espécie de herdeiro do MDP-CDE, esse "alter ego" ou "compagnon de route" dos comunistas, que chegou a ganhar um lugar na história político-partidária portuguesa. Até 1988, a ID (é esta a sigla de uma formação a cujos comícios os portugueses nunca terão o privilégio de assistir) teve um grupo parlamentar e tudo. Desde então, surge apenas sazonalmente, numa espécie de "troika" com o PCP e o PEV no seio da CDU, criando a ideia de que forma uma aliança política, de incidência eleitoral, fruto da laboriosa conjugação dos três programas.

Se estas três organizações - PCP, PEV, ID - se mantêm independentes, uma lógica de razoabilidade deve levar-nos a pensar que têm doutrinas e programas próprios, os quais, tendo necessariamente pontos comuns que justificam a permanência da "aliança", também têm, com certeza, divergências que justificam a sua existência autónoma. Ora esse é, para mim, o grande mistério. Em que pontos se afastam? Qual a sua idiosincrasia própria? Que conflitos ideológicos alimenta a ID com o PC? Em que se opõe o PEV ao PCP? Que temáticas dividem "Os Verdes" da ID?

Estas são dúvidas com que vivo há anos. Serão bem-vindos comentários que me ajudem a atenuá-la. 

18 comentários:

Anónimo disse...

Porque assim podem fazer uma "Frente Unitária" e a união faz a força.
José Barros

patricio branco disse...

é uma associação de conveniencia, para as 2 partes, o ppm tambem já esteve mais ou menos assim, embora noutra zona partidaria, tenho uma ideia.
pena não termos um verdadeiro partido verde defendendo politicas verdes no parlamento, eventualmente fazendo coligações, vem me à memória o governo e coligação exitosos durante 7 anos de gherardt schroeder spd - joshka fisher verdes e a efectiva politica verde, ambiental existente na rfa

Catinga disse...

Confesso que alimento um (até agora) secreto desejo de me coligar com a Heloísa. Mas em silêncio...

Anónimo disse...

Caro Embaixador: não há ideologias! Há pessoas honestas e muitas, muito pouco honestas!
Um colega apanhava boleia da faculdade para casa, com outro que tinha carro, e ia todo o caminho a chamar-lhe fascista porque o pai era patrão e roubava os trabalhadores para lhe dar o carro. O do carro ameaçava todo o trajeto que o punha fora da viatura, mas nunca o fez.
Não os tenho visto nos almoços de curso mas parece que continuam iguais: descobri, aqui há dias por relação nominal e pesquisa na net que o filho de um deles é um candidato à Câmara do Porto…
Não sei se vai censurar, também, este comentário, mas é mais para V.Ex.ª ler.

Anónimo disse...

este post é o contrario do "quanto mais me baste mais eu gosto de ti"...

Anónimo disse...

Gostei, anónimo das 09.49. Portugal político no seu melhor.

Anónimo disse...

Relativamente ao comentador de 17.07.2013 às O9:49, lembro que pouco antes do 25 de Abril - 74, uma empregada doméstica de um administrador dum Banco, pediu ao seu patrão para admitir o seu marido como contínuo da Instituição, o que foi conseguido. Pois bem, no dia 11 de Março-75, esse mesmo contínuo vinha à frente de um grupo de colegas que entrou no gabinete do administrador, com a missão de o conduzir preso para Caxias (....)

José Luís Moreira dos Santos disse...

Sr. Embeixador,
Não sabia a origem deste Email

Tive conhecimento deste blog através do Politeia, e por isso, não podia saber quem é o seu responsável. Agora sei, e nada há de extraordinário nisso!Mas a razão que me levou a consultá-lo, foi o titulo do "post", e fiquei exposto a um misto de sensações.Contudo, acho-me no dever de fazer um comentário, ainda que simples, sobre o assunto, mas antes sinto igualmente o dever de fazer como que uma declaração de interesses: conheço gente das três formações que identifica. Por isso, independentemente daquilo que cada uma delas representa do ponto de vista eleitoral, e acho ser essa a razão da sua preocupação, elas têm reconhecimento legal e legalmente fazem os jogos políticos que forem de sua conveniência, como, aliás, é, ou deve ser, natural e normal.Mas a razão pela qual a sua exposição me deixou enfadonhado tem que ver com a forte suspeição com que fiquei de que fora este exemplo de que o Sr. não gosta teriamos uma esquerda mais do que nova, talvez novinha em folha, para usar um termo tão popular! Se o Sr. Embaixador me garantir que assim é, prometo-lhe exercer a pouca mas sempre útil influência que possa ter junto de tantos amigos e conhecidos que fazem parte das referidas formações para, de um só golpe, modernizarmos, neste caso o Sr. e eu próprio, a esquerda em Portugal. Terminado o gozo de um direito, logo se descobria um belo futuro, mesmo que encorralados estes, os direitos. Está mal? Tantas as leis que estão melhor!
Posso calcular, aquela moção!
José Luís Moreira dos Santos
Pardilhó - Estarreja

















Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Luis Moreira dos Santos: eu não tenho "hidden agendas", digo apenas o que penso. E penso que o PEV, que tem todo o direito de existir à luz da lei (que, na minha opinião está errada, mas é a lei), é uma singular fraude política. Pensei que me pudesse ajudar a esclarecer a dúvida que suscitei. Mas já vi que também não me ajuda a esclarecer sobre as diferenças ideológicas entre as três "formações" - ou porque elas são evidentes ou porque não existem. Digo eu...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Barros: para colar coisas diferentes é condição essencial que elas existam

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Catinga: gostos não se discutem. Eu diria mesmo: compreendem-se

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro comentador das 9.49: pois aqui fica publicado o seu comentário!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro comentador das 10.56: não percebi, mas aprendi um novo provérbio.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Patrício Branco: o PPM tem uma identidade política, goste-se ou não da "realidade" que projeta. Um partido verde em Portugal seria muito importante. Mas um partido que fosse a votos com listas próprias e que não fosse uma espécie de "barriga de aluguer" política, independentemente da consideração pessoal que me merece quem dele faz parte.

Anónimo disse...

Só para esclarecer os leitores do comentário, e porque é importante, por não estar explícito, que os dois ocupantes do veículo, da “direta e da esquerda”, eram e continuam a ser, com certeza, pessoas honestíssimas! Tinham a hombridade de “ser” independentemente da circunstância. Bem, mas o Sr. Embaixador terá outras perspetivas quanto à formatação política das pessoas.

Anónimo disse...

""Todo o conhecimento genuíno tem origem na experiência directa."", Mao Tse-Tung.

Por outras palavaras ., o texto não moderado!


Alexandre

Joaquim De Freitas disse...

Relativamente ao anônimo das 14:25: Permita que lhe conte uma historia que vivi há anos atrás quando dirigia a firma onde trabalhei mais de 30 anos. Uma empregada da contabilidade veio pedir-me para dar uma "chance" ao marido que se encontrava desempregado . Havia um lugar a preencher no serviço expedição e, depois de fazer proceder ao exame prévio habitual do qual tinha encarregado o chefe de serviço, a pessoa foi admitida.

Quatro meses mais tarde, numa das greves habituais lançadas a nível nacional pela CGT, sindicato majoritário na firma, com mais dois outros, vi o "nosso" homem à frente do "piquet" de greve. Mais ainda, meses mais tarde, encontrei-o mesmo à minha frente na reunião do "Comité d'Entreprise" para o qual os colegas o tinham eleito.

Claro que aquilo que poderia parecer um ultraje noutros países, aqui, o facto de dar trabalho a alguém não significa que "compramos" ao mesmo tempo a liberdade do cidadão, a opinião política ou a crença religiosa. Só assim se compreende a democracia.

Mas mais surpreendente, foi, para mim, quando descobri que nos Estados Unidos, farol da democracia planetária, na nossa "Corporation" , firma de 2 000 pessoas, havia um numero importante de empregados polacos! Quando perguntei o que explicava a presença tão forte desta nacionalidade de origem, disseram-me que o Presidente era um fervoroso católico! E que uma das perguntas rituais era a religião do candidato ao emprego.

Recordo também que há umas dezenas de anos outras perguntas "indiscretas" , como a opinião política, faziam parte do documento de bordo que era preciso preencher no avião antes de chegar a JFK! Democracia variável!

Anónimo disse...

Acho muito bem o autor do blogue aprovar os comentários. Afinal ele é o responsável, pelo menos moral, do que aqui se diz e comenta. O meu comentário incide sobre a questão do "mistério" ideológico do PC e Verdes. O Amigo Honório talvez possa dar algumas achegas, agora que se reformou. Coloca-se-me a dúvida se a ideologia dos mesmos continua sendo de orientação leninista e se a economia de planificação central continua a ser defendida, mesmo no caso da sua aplicação programática no quadro de um ambiente europeu capitalista. Obrigado desde já por um hipotético esclarecimento.