terça-feira, 30 de julho de 2013

Memória do CDS

Nos idos de 1974/75, o CDS foi alvo de uma forte campanha política adversa, com atos de violência que, nomeadamente, levaram ao saque da sua sede nacional em Lisboa e ao boicote sistemático de muitos dos seus comícios, um pouco por todo o país. Casos houve em que os seus dirigentes tiveram de abandonar os locais pelos telhados das casas e correram riscos de integridade pessoal.

A acusação mais vulgar, feita pelas forças de esquerda, era a de que o CDS era uma formação política onde se refugiara muita da direita saída diretamente do salazarismo e do marcelismo. Ora isto, não sendo necessariamente mentira, estava longe de esgotar a verdade. Muita gente conservadora, sem atividade política no Estado Novo, a quem o "25 de abril" abrira a possibilidade de intervenção e defesa democráticas das suas ideias, não se revia no socialismo e nos partidos da esquerda dominante, optando igualmente por não seguir as ideias em torno das quais Sá Carneiro instituíra o PPD. E havia decidido apoiar o partido que Freitas do Amaral criara logo após a Revolução e que apelidou de "centrista", pretendendo identificá-lo com uma matriz democrata-cristã. 

Um dia, um grupo de responsáveis do CDS, chefiado por Sá Machado e integrado por Emídio Pinheiro e uma outra personalidade que não recordo, foi recebido, a seu pedido, pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), numa reunião que teve lugar naquele que é hoje o Instituto de Defesa Nacional, na calçada das Necessidades. Não consigo precisar a data, mas tenho a ideia de que deverá ter sido em fins de outubro ou novembro de 1974, isto é, depois do "28 de setembro", que forçou o afastamento de Spínola e levou ao isolamento temporário de um importante setor da ala direita militar. A delegação do MFA era dirigida pelo então coronel Franco Charais, meses mais tarde graduado em general e que viria a chefiar a Região militar do centro, sendo uma das figuras do chamado "movimento dos Nove", que se opôs às corrente comunista e populista no MFA.

Nessa reunião, Sá Machado expôs, com elegância e sem dramatismos, a penosa existência do novo partido, praticamente desde a sua criação. Ele sabia, de certeza segura, que o CDS estava longe de ser visto com bons olhos no seio da maioria dos setores que haviam feito a Revolução, mas também não desconhecia que as Forças Armadas, que conviviam com Diogo Freitas do Amaral no Conselho de Estado, não se podiam dar ao luxo de aceitar a exclusão da vida política, por via da força, de um partido que afirmara cumprir os princípios básicos que orientavam a Revolução e cuja ação não suscitava objeções importantes.

A certo passo da sua intervenção, feita no tom calmo embora um tanto pomposo que era o seu, Sá Machado inquiriu se as Forças Armadas estavam ou não disponíveis para garantir condições básicas de segurança para as sedes e as reuniões de propaganda que o CDS procurava organizar pelo país. Recordo ele ter dito mais ou menos o seguinte: "São os senhores que têm de decidir se querem ou não que continuemos a existir. Se o direito de reunião e organização política nos continuar a ser negado, talvez tenhamos de vir constatar que deixa de haver condições para o exercício da nossa atividade enquanto partido. Nesse caso, o MFA deve ter consciência de que um setor da opinião pública portuguesa se sentirá alienado do sistema político instituído pelo "25 de abril". E isso terá naturalmente as suas consequências na própria legitimidade futura do regime". Foi uma declaração frontal, corajosa para os padrões da época. Vários partidos considerados extremistas de direita e saudosistas haviam já desaparecido (Partido do Progresso, Movimento Federalista Português, Partido Liberal) e, com isso, o CDS ficara "colado" ao limite direito do espetro político.

Charais reagiu, dizendo que "outros partidos de direita, como o PPD" (nem o CDS se assumia como de direita, quanto mais o então PPD, mas a linguagem dos tempos era essa...), também sentiam dificuldades em organizar-se em certas regiões, mas que isso era devido ao facto de, nesses locais, CDS e PPD serem "o refúgio dos fascistas", pelo que a aceitação "popular" da sua legitimidade de afirmação política passava muito por uma escolha mais criteriosa dos seus quadros, que deviam ter "sólidas credenciais democráticas". Sá Machado retorquiu que o CDS não permitia a adesão de pessoas ligadas ao anterior regime e que, por isso, eram infundadas as acusações feitas ao seu partido.

A discussão prolongou-se por uma boa meia hora. Já não me lembro se houve algum "follow-up" no âmbito militar. Mas a mensagem passou. À distância dos anos, há que reconhecer que a criação do CDS acabou por permitir a organização de um espaço político para enquadramento democrático de uma certa direita. E isso não foi um serviço menos relevante que o CDS prestou à vida política portuguesa. O facto do partido! um ano depois, não ter votado a Constituição emanada da Assembleia Constituinte fixaria claramente a sua identidade no contexto político-partidário futuro. Mas, nesse futuro, o CDS não deixou de evoluir muito, de uma forma que se pode mesmo considerar singular.

Vem-me agora à memória esta cena, que hoje aparecerá quase como surreal, num tempo em que se verifica a assunção pelo CDS de uma força, inédita na sua história de quase quatro décadas como formação política, no seio da governação portuguesa. É também por estes e por outros episódios, que entendo interessante recordar, que melhor se constata o imenso caminho que (todos) percorremos desde esses já longínquos dias.

13 comentários:

Anónimo disse...

Grande pancada na rapaziada no artigo no DN caro embaixador

Anónimo disse...

Este seu artigo, sobre o percurso do CDS, é curioso e vem no tempo certo, leva-nos a pensar as voltas que a política dá. Mas os próximos tempos nos esclarecerão melhor o resultado desse trajeto.

Anónimo disse...

Como não sou politizado, depreendo que este regime é de facto de esquerda dura. Será que nestes termos temos condições de pertencer à U.E. ou toda esta trapalhada que andamos a viver advem ainda disto?
Parece haver muito a reformar.

Anónimo disse...

O fantástico desta história está no facto de quem a escreve ter estado lá! A experiência deste homem!

Anónimo disse...

Um CDS, o desse tempo, embora de Direita, que tinha valores e princípios que o CDS de hoje, de Paulo Portas, não possui.

Anónimo disse...

É interessante perceber por estes episodios o modo como as coisas se passaram.

CSC

Alain Demoustier disse...

Bravo Francisco, estas suas memórias (souvenirs) são
historicamente fundamentais !
Um abraço
Alain

gherkin disse...

Episódios como estes são cada vez mais raros. Verdadeiros pedaços da istória, mais valiosos se tornam não apenas pelo relato de uma testemunha ocular, mas pela forma em como são retratados na maior das simplicidades! Sabemos que há muito mais. Por isso, vasculhe a memória para gáudio de todos que seguem bem de perto este importante e invulgar "cantinho".
O habitual abraço.
Gilberto

Portugalredecouvertes disse...


Boa lição de história
Sr. Embaixador

Angela

patricio branco disse...

o cds terá o relato deste e doutros episódios da sua historia e trajectos nos seus arquivos?
deveria ter. a história desse partido, como dos outros, está tambem incluida na historia da democracia portuguesa.
mas o cds será o mesmo partido de há 40 anos ou será outro muito diferente apenas com o mesmo nome?

EGR disse...

Senhor Embaixador: sem qualquer pretensiosismo permita-me um pequeno testemunho pessoal: a partir das primeiras eleições autárquicas tive algum envolvimento na politica da minha cidade; recordo bem os militantes do CDS com quem partilhei essa tempo e recordo, especialmente, a o seu impecável comportamento democrático,e a qualidade dos seus contributos para os debates que então se travavam.
Não direi o mesmo de muitos dos membros do PSD que, esse sim, pareciam vir diretamente do anterior regime, nem mesmo sendo possível associa-los a chamada ala liberal da Assembleia Nacional.
Sempre me impressionou a coragem e a serena firmeza dessas pessoas deles guardando uma grata memória.

Anónimo disse...

Os partidos conduziram o País à banca rota! A B
A história é esta! Tudo o resto são historietas!
Alguém no seu perfeito juízo, admitiria, nessa altura, que o Sócrates, que andava lá por V Real, iria ser PM e o FA, presidente do CDS iria ser seu MNE? Nem o mais louco!
Pois o surreal aconteceu!
O mundo dá muitas voltas? Não! Nós é que andamos aos trambolhões e agora já vamos em queda livre....

Anónimo disse...

São realmente pedaços de história da esquerda jacobina que originou o estado actual de Portugal.


Alexandre