terça-feira, 16 de abril de 2013

Sindicalismo diplomático

Nem sempre os funcionários diplomáticos portugueses foram sindicalizados. Quando entrei para a profissão, em 1975, não havia nenhuma estrutura sindical representativa dos diplomatas. Um dia, creio que dois ou três anos mais tarde, foi criada uma Associação dos Diplomatas Portugueses. Por algum radicalismo que à época partilhava, decidi não entrar como associado dessa estrutura, por não ver a palavra "sindical" incluída no respetivo nome, condição de representatividade que achava indispensável. Cheguei mesmo ao ponto de mobilizar um grupo de jovens colegas como forma de tentar obstruir essa iniciativa, que considerava "recuada" e pouco ousada.

Mais tarde, nos anos 80, as coisas mudaram e foi, finalmente, criada a Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses. Dela cheguei a ser vice-presidente, nos anos 90. Alguns colegas mais antigos não apreciaram a mudança registada e reagiram fortemente à dimensão sindical da nova Associação.

Porque o tema dos diplomatas terem um sindicato era verdadeiramente novo e o "Expresso", por discreta sugestão de alguns de nós, tinha trazido uma notícia sobre o assunto, tive a ideia de escrever uma carta ao respetivo diretor, em nome do "ministro plenipotenciário Pedro Leite de Noronha", na falsa qualidade de um dos contestatários do novo sindicato. Nessa carta, escrita num tom snobe, expressava o "desgosto" por ver os diplomatas do MNE "banalizarem-se" e enveredarem "tristemente" pela via sindical, trazendo a público questões que, no passado, eram sempre resolvidas "entre os claustros e a tapada" das Necessidades. O "Pedro Leite de Noronha" ia mais longe e considerava que o facto dos diplomatas andarem a colocar "nas bocas públicas do mundo" as peculiaridades da sua vida profissional refletia, muito simplesmente, "o facto do nível social do seu recrutamento ter baixado", fruto dos "lamentáveis ventos de abril", de terem "deixado, na sua maioria, de possuir fortuna própria", o que os tornava "permeáveis às pulsões materiais da vida".

Nos dias subsequentes à publicação da carta, os comentários sobre a mesma motivaram muitas conversas "entre os claustros e a tapada", muito embora ninguém alimentasse a menor dúvida sobre a autenticidade do texto, tanto mais que não havia, nos quadros do ministério, nenhum "Pedro Leite de Noronha". Deve reconhecer-se que o nome tinha um toque onomástico suficientemente "bem" para poder abrir caminho à sua credibilização em áreas para fora da casa. E todos perceberam que o absurdo do argumentário da carta mais não era de que uma forma de ridicularizar o reacionarismo primário de quantos se opunham à nova associação sindical.

Só tempos depois vim a saber que, por essa altura, numa embaixada portuguesa numa importante capital europeia, por onde curiosamente eu viria a passar alguns anos mais tarde, o embaixador comentara o assunto com uma colega (hoje também já embaixadora) com uma observação do género: "É evidente que este nome é falso: não temos nenhum colega que se chame assim. Mas que ele tem bastante razão, lá isso tem!"

12 comentários:

Anónimo disse...

E quem era o Luis da Cunha, Senhor Embaixador?

Isabel Seixas disse...

O Analfabeto Político


O pior analfabeto é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguer, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

Bertolt Brecht

Anónimo disse...

O único ministro dos negócios estrangeiros a sério foi o Trotsky: propôs extinguir imediatamente o Ministério! Um exemplo a seguir.

a) Liberal assanhado

Helena Sacadura Cabral disse...

Como sempre um post delicioso pelo que lá está e pelo que cada um percepcionará. Todos estes post´s sobre o quotidiano dos diplomatas e de caminho do MNE, são um enorme contributo para se entender esta carreira.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador ainda tem o texto?! Gostaria de conhecer a prosa desse princípe das necessidades, o saudoso "Leite de Noronha".

N371111



Anónimo disse...

A ASDP começou cheia de boas intenções, mas, desde há alguns anos a esta parte, transformou-se num veículo para promover quem a dirige e quem lá está na direcção. E, pior ainda, nem sequer defende hoje em dia os seus associados e os diplomatas em geral. Para além de ter vindo a assumir uma atitude subserviente relativamente à Tutela, seja ela qual for. Está amorfa de todo. Quando o MNE e a imagem dos diplomatas é atacada, ou denegrida, na imprensa, a ASDP não reage, ou quando o faz, já é tardiamente e muito redonda. A ASDP é actualmente uma coisa de nada. E perdeu muitos dos seus antigos associados. Fundadamente. É um poço de interesses e do tráfico dos mesmos. Nem sequer foi capaz de apresentar uma reforma do actual Estatuto Diplomático com pés e cabeça. O projecto que se conhece é aviltante. É caso para se dizer, que para o que acabou por vir a ser, a ASDP nunca deveria era ter nascido.
a)Um ex-associado

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Eu até nunca percebi qual a razão porque haveria de existir um sindicato dos funcionários diplomáticos portugueses se as regalias para eles são excelentes e ordenados (por exemplo eu em certa altura auferia num ano o montante que um adido, no início da carreira, recebia num mês) e outros privilégios.
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Bem melhor sabe do que eu, o Senhor Embaixador Seixas da Costa, que o Palácio das Necessidades é um estado dentro de outro estado e por lá existem as “capelinhas” (ex-MNE Luís Amado disse um dia) sem justificação de um diplomata de carreira produzir lutas, iguais aquelas, que o outros funcionários inseridos no sindicato dos trabalhadores das missões diplomatas e consulados que todos os direitos que reclama são travados, à cabeça, dentro das Necessidades.
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Há muitos trabalhadores/funcionários das Necessidades a passar carência do viver e alguns (tenho conhecimentos) na pobreza.
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O meu caso foi igual a outras centenas de trabalhadores que segui ganhando a maçã dos porcos por anos e anos (24 anos) e cheguei a uma reforma (com os descontos) 604 euros mensais enquanto passavam pelas minhas mãos aqueles cheques chorudos que o meu salário de um ano ficava por baixo.
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Seu admirador há vários anos e saudações de Banguecoque
José Martins
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P.S. – Estou inserido na ADSE. E porque só tarde vim a saber que sofria de asma crónica, foi natural que um velho como eu, de 76 anos na altura tivesse de ser internado numa clínica particular. Sendo a asma uma doença crónica (certificada pelo meu médico tailandês de família), parece com quase total cobertura, gastei 4.506.88 euros e a ADSE reembolsou-me 1.129 euros (longe da vista, longe do coração). Não estou a pedir cêntimo que seja ao Governo Português nem vou escrever aqui (como a Marta o disse num programa popular no Brasil) ser um erra crasso ter nascido em Portugal, mas apenas um lamurio.

freitas pereira disse...

Um embaixador é um homem honesto que é enviado para o estrangeiro afim de mentir para o bem do seu pais.

Quem não conhece o raspanete de Mitterrand ao seu ministro dos negócios estrangeiros, Claude Cheysson, que disse num discurso : " Um Estado Palestiniano deve ser criado nos territórios ocupados" ; Mitterrand, furioso disse : " o que é grave é que, o que você disse, é justo, mas agora já não podemos manobrar" .

Já citei uma vez neste blogue o nome de Talleyrand. sabemos que Napoleao o detestava. Li bastante sobre o animal político e admiro o profissional da linguagem diplomática, o que prova bem que existem várias maneiras de falar para um diplomata, que tem as suas próprias regras, e que é um hábil malabarista na gestão meticulosa das palavras, e sobretudo das "nuances" semânticas.
Tenho a impressão que o diplomata prevê sempre uma porta de saída, uma possibilidade de se libertar do discurso precedente.

J. de Freitas

Anónimo disse...

Actualmente estamos entregues a um bailarino....

Franco Nogueira, deve dar voltas no túmulo....!

Alexandre

patricio branco disse...

a proposito, vejo nas noticias espanholas que o consul-geral da espanha em boston foi hoje destituido por ter ontem fechado o consulado que dirigia à hora normal, apesar dos atentados contra a maratona.
isto nada tem a ver com o sindicato dos diplomatas portugueses e a historia contada, sindicato cuja documentação para a sua constituição e legalização foi entregue por 2 diplomatas que foram de taxi e voltaram de autocarro, depois de terem sido recebidos por uma senhora num dos andares do ministerio do trabalho na praça de londres, senhora quer deu uma vista de olhos ao dossier e disse que parecia tudo bem, era talvez 1989 e primavera, no solar do vinho do porto foi depois organizada uma reunião com a imprensa e tv e radio para lhes explicar tudo, agora com a direcção completa, estavam todos, lá estava entre os jornalistas carlos albino que já se ocupava de coisas do mne, pois o balanço do que conseguiu a asdp em 25 anos deveria ser feito e escrito, quem tem geito e paciencia que escreva a historia da asdp, é certo que parece haver uma certa apetencia por ser dirigente da asdp, coisas normais, etc etc

Anónimo disse...

Sempre pensei que os diplomatas eram como os militares. Serviam os governos e o Estado. Quando não concordavam com o governo no poder pediam escusa para não exercer e só depois poderiam deitar abaixo esse governo. Diplomatas sindicalizados... enfim havemos de ver tudo.

Anónimo disse...

Caro anónimo das 19.02,
No seio da União Europeia há mais países onde existe este tipo de “Associações Laborais de Diplomatas”. A Itália tem mesmo um Sindicato, nós, como somos “meigos”, temos uma Associação Sindical. Seja como for. Agora não se pode nem deve comparar diplomatas com militares. Um militar dá, em tempo de guerra, a vida por si (por você), por mim, e por todos nós - em prol da Pátria. Um diplomata, pelo contrário, trabalha no secretismo do seu gabinete (cheio de papeis) para conseguir que a tal guerra, ou não se inicie, ou, uma vez tenha eclodido, termine com o menos número de vítimas possível, o menor número de danos e, sobretudo, com o menor belisco possível para a soberania nacional. Por outras palavras, um militar se tal for necessário, dá a tal sua vida por nós todos, o diplomata tudo fará para que, uma vez tenha eclodido o tal conflito, se chegue a bom termo e se poupem vidas militares e se consiga salvaguardar a tal dignidade nacional. Enfim, tarefas diferentes, ambas de louvar, ainda que – sem a menor réstia de dúvida – aquela dos militares venha, claramente, ao de cima. Por isso mesmo, sou, em princípio – até prova em contrário – contra o sindicalismo na tropa, mas não me repugna esta espécie de “sindicalismo associativo” que temos por estas bandas do Palácio das Necessidades. Uma coisinha mesmo nossa, mas nossa, pronto! Pergunto-me, na sequência deste meu primário raciocícinio, e então o que fazer com o sindicalismo que já existe, no seio das Forças Armadas? De Sargentos a Oficiais? Como conviver com uma eventual futura não existência de sindicalismo na tropa? Bom, o melhor é, acho eu, modetamente, poder toda a agente, desde o PM ao porteiro, se assim o entenderem, sindicalizarem-se. Por mim, faço votos para que no MNE cor-de-rosa, assim é a cor do Palácio das Necessidades, um dia a ASDP possa vir a ser um Sindicato, a exemplo dos colegas italianos. E, porque não, quem sabe, um dia igualmente, ainda venha a surgir um Sindicato dos Oficiais de Alta Patente. Vamos lá não dramatizar. E depois, com Passos Coelho a seguir o exemplo neo-liberal de Margaret Thatcher, um dia destes os sindicatos desaparecem e quem for sindicalizado não tem emprego.
a)Diplomata reformado em Portalegre