quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Comunistas

Acabei de escrever há pouco o prefácio para um interessante livro do professor Janela Antunes sobre a vida política portuguesa entre 1974 e 1976. É um trabalho que desejo que seja publicado em breve, porque nele muito se aprende sobre esse tempo agitado de mudança de paradigma na vida política portuguesa. O texto é acompanhado por uma riquíssima e inédita seleção de documentos diplomáticos franceses da época, que têm a curiosidade de nos pôr a ver a nossa realidade sob os olhos do Quai d'Orsay.

Um dos focos importantes do livro e da documentação que o acompanham é a ação do Partido Comunista Português. E dei por mim a pensar que foi uma delegação do PCP a primeira a visitar-me, após a minha chegada a Paris.

Nunca tive qualquer relação política pessoal com o PCP, partido onde tive e tenho vários amigos. De há muito que conservo um grande respeito pela indiscutível coragem dos comunistas portugueses na luta contra a ditadura do Estado Novo. Como muitos oposicionistas, estive, com grande gosto, ao lado deles nas "batalhas" da CDE de 1969 e, frequentemente, na luta associativa académica antes do 25 de abril.

No período subsequente ao 25 de abril, tive fortes divergências com certo tipo de atitudes e opções que o PCP tomou, nomeadamente no âmbito da política militar de então. A leitura do livro do professor Janela Antunes ajudou-me, aliás, a perceber melhor o fundo dessas divergências.

Desde então, a minha relação institucional com o PCP pautou-se sempre por uma atitude de grande respeito democrático, que, na minha perspetiva, tem de estar sempre para além das opções políticas. Tive o privilégio de ter estabelecido um relação muito cordial com figuras do PCP já desaparecidas como João Amaral, Luís Sá ou Joaquim Miranda. E recordo a supresa de Jerónimo de Sousa, o atual secretário-geral, quando, como embaixador de Portugal no Brasil, o fui cumprimentar no início de uma conferência que proferiu numa instituição do Rio de Janeiro, gesto que não me parece que seja muito comum na diplomacia portuguesa. Os comunistas, podendo cometer erros como qualquer força política, não "comem criancinhas ao pequeno almoço" e a democracia portuguesa tem tudo a ganhar em tratar com consideração e equanimidade democrática o PCP.

Mas voltemos à visita que a delegação do PCP me fez, nesse mês de março de 2009. Eram três elementos e, durante quase uma hora, mantivémos uma agradável conversa, em particular sobre a vivência política no seio da diáspora portuguesa em França. No final, um dos integrantes da missão comunista congratulou-se com o facto do pedido de audiência ter sido concedido com grande rapidez, decorridos muito poucos dias após ter sido formulado.

Com um sorriso, esclareci-os: "Eu quis que esta conversa tivesse ligar na data de hoje, que sei que ela lhes é muito grata..". Olharam uns para os outros e, nesse momento, deram-se conta que estávamos em 11 de março, data que os comunistas portugueses intimamente comemoraram como sendo a das grandes nacionalizações de 1975...   

19 comentários:

Vera Lúcia Q. D. Andrade disse...

Parabéns , isto é democracia, todos tem o seus direitos e deveres , amamos a verdade e a liberdade de expressão. Tudo pela justiçs, ordem e progresso social ! Um forte abraço de nós dois .

Anónimo disse...

Por vezes, hoje, dou comigo a pensar: serei também comunista?
É que olhamos para um Bernardino Soares e outros… e mesmo um Carvalho da Silva que, perante a réplica de que não há direitos adquiridos absolutos, ele tréplica, e deixa calado o interlocutor: então comecemos pelo direito à propriedade!...
Ser comunista, para mim, era (e ainda será?) inimaginável!

Anónimo disse...

Talvez seja uma opinião simples de mais mas...
Aquele periodo conturbado da história de Portugal entre 1974 e 76, em que se refletiram as lutas de classe pelo dominio do poder, politico e económico, também foi um periodo de luta acérrima entre as duas potencias, Estads Unidos da América e URSS, para o controlo planetário.
Haverá ainda muita coisa a esclarecer. Ou talvez não. Mas muita gente não conhecerá a missão que levava o Embaixador Carlucci quando o destacaram para Lisboa.
A Wikipédia assinala que: "Em pleno período revolucionário, Frank Carlucci vai seguir de perto o Verão Quente de 75, acompanhando o percurso de políticos como Mário Soares, com quem estabelece uma relação de amizade, entre outros. Abandona as funções a 5 de Fevereiro de 1978, mas mantém várias ligações a Portugal, nomeadamente de carácter económico, das quais se destaca a EuroAmer com Artur Albarran.
Durante a presidência de Ronald Reagan, ocupou várias posições relacionadas com a defesa, e foi Director da CIA."
A atividade de Carlucci em Portugal deverá ter sido muito interessante, também, para a história de Portugal. Se o livro do professor Janela Antunes que agora se publica trouxesse elementos esclarecedores sobre aquela particularidade que ainda não "digeri" seria, para mim, de um intéresse acrescido para o ler.
José Barros

patricio branco disse...

interessante a evolução dos partidos comunistas desde a presidencia de gorbachov e sobretudo desde o fim da urss. o pcp manteve-se ortodoxo, fiel ao marxismo. o pci que já era eurocomunista refundou-se com outra forma e outro nome e notavel antigos dirigentes seus têm sido eleitos para altos cargos, giorgio napolitano pr, massimo d'alema 1º ministro e mne.
em frança, curiosamente, o pci faz parte do 1º governo mitterrand em 1981. hoje com outro nome é pequeno e minoritario, tendo já sido grande no tempo de marchais.
em espanha o pce aparece sob a forma duma coligação, etc.
qual o papel dos pcs na europa da ue?
bem, o livro com o prefácio de fsc deve ser interessante, uma especie de livro branco ou um wikileaks voltado para o passado.
ps. joão amaral era um politico do pcp inteligente, culto, ideias, presença e respeitado.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Barros: eu não me fiaria tanto na Wikipedia...
Aproveito este ensejo para lhe agradecer todas as suas atenções ao longo deste tempo, lamentando não ter tido oportunidade de me despedir pessoalmente. Um forte abraço e votos de que continue a frequentar esta sua "casa", a qual, até ver, se manterá aberta e ativa.

Anónimo disse...

Pois é.... como não sou politizado tentarei aguardar por trabalhos de investigadores menos "engagés" para melhor compreender essa época em Portugal de 1974 a 1975. Mas... eu sei pouco

Anónimo disse...

O PREC é ainda uma história por escrever e nós, aqueles que a vivemos amnesicamente (i.e. sem memória), vemos partir quem a fez e que, por falta de ouvintes/leitores, não a conta.

Registo também a surpresa de Jerónimo de Sousa ao ser por si cumprimentado, penso que tal (além do seu gesto incomum na diplomacia portuguesa?!? - se o é não o devia ser-) também lhe advém de um traço de carácter que me apraz registar devidamente... é genuinamente humilde. Uma humidade que nele advém da raiz da palavra, pelo que verdadeiramente um “filho da terra”. Nunca tendo votado no PCP,confesso uma profunda admiração pelo seu actual secretário-geral.

N371111

Defreitas disse...

O Sr. Embaixador abriu a "caixa de Pandora"! Escrever sobre os comunistas nos tempos que passam, quando os cidadãos/contribuintes são chamados pelos governos para salvar os bancos malabaristas da bancarrota, que Karl Marx tinha previsto, comporta um certo interesse.

Mesmo em França, muitos consideram que são ainda eles que hoje, num discurso que não mudou, põem melhor em evidência a situação dos mais pobres, daquela que permite de olhar o mundo com os olhos dos excluídos. Esta análise marxista é considerada mais adaptada para demonstrar a realidade social a partir da visão dos pobres.

São ainda eles que combatem a estrutura social definida pela lógica das relações sociais do capitalismo. Esta estrutura de classes que cria as injustiças, que permite a uma minoria de se apropriar as riquezas.

Outras vozes, mais moderadas, condenam severamente o capitalismo selvagem e vêm na economia social de mercado ou no capitalismo civilizado, a solução para a harmonia social.
Mas a linha pura e dura dos comunistas resta aquela que considera que a lógica mesmo do capitalismo deve ser contestada e substituída por uma outra concepção da economia.

A tarefa é fácil para os comunistas, porque a crise social que reduziu mais de 900 milhões de pessoas à fome e à miséria, enquanto que uma minoria de ricos concentra as rendas do planeta, é o resultado da maximização dos lucros. Claro que é mais interessante, para a acumulação do capital, de produzir bens e serviços sofisticados para 20% da população dispondo dum poder de compra, que de o fazer para o resto do género humano dispondo de pouca ou nenhuma possibilidade de consumo.

Estou bem de acordo que é importante para o desenvolvimento da democracia no seio das relações sociais, que todos os actores sociais, para lá das fronteiras religiosas e politicas, possam participar à construção da ética necessária à transição para uma sociedade postcapitalista. Talvez um sonho !

Anónimo disse...

Os "verdadeiros comunistas" estão de volta.Vêm ,agora do Japão!A mãe,dos
novos "comunistas" e daqueles que não sabem de onde vêm.

Anónimo disse...

E são dados à prática da adivinhação conforme se pode ler no sítio do Clube dos Jornalistas intitulado Bruxos e Aprendizes de Feiticeiro.

Angie disse...

Penso que é um período que merece bons estudos isentos de ideologia política

uma vez que Portugal foi um pouco o laboratório da história com um governo comunista: reforma agrária, autogestão, emancipação do proletariado, negação da propriedade privada...
que se sonhavam em estilo de utopias pelos intelectuais de outros paises da Europe e que acabaram por acontecer aqui
é só uma ideia!
Angela

domingos disse...

Ao ler este post do Embaixador lembrei-me de uma citação atribuída a Voltaire: « Je ne suis pas d’accord avec ce que vous dites, mais je me battrai jusqu’au bout pour que vous puissiez le dire. »

Helena Oneto disse...

Vou tentar ler o livro do professor Janela Antunes porque gostava de perceber, de forma mais clara, o que eles fizeram ou não fizeram na Comissão de extinção da PIDE/DGS.

Isabel Seixas disse...

Também admiro os comunistas portugueses, na sua determinação e persistência na defesa constante e "desinteressada" dos trabalhadores que na hora da verdade quase só votam nos partidos de alternância...
É a vida...


O Futuro

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

José Carlos Ary dos Santos In "Obra Poética", Editorial Avante, Lisboa, 1994, p 389.

Anónimo disse...

Pois é... Os comunistas até talvez os possa compreender, até porque é simples: não há pobres. O que eu não compreendo são os métodos, para implantar e manter o comunismo, até aqui aplicados. Mas... eu sei pouco

Anónimo disse...

Não me lembro bem do que se passou nesse período. Só sabíamos em Londres o que se dizia na BBC. Quem chegava de Portugal vinha com a cabeça "quente". Na Páscoa desse ano lembro que nevou bastante. Fui a Pimlico rd, na zona mais alta "Pimlico Hills" porque fica mesmo a seguir a Royal Hause, perto da casa aonde eu vivia. Um grupo de professoras e de estudantes italianos perguntaram-me pela melhor hipótese para chegarem a Royal rd, sem tomarem metro. Lá respondi o melhor que pude sem esconder que não era inglesa. Depois de informadas lá fizeram questão de adivinhar de que país eu era.Depois de se enganarem sempre que julgavam que estavam a acertar, lá disse que era portuguesa. Nunca mais esqueci o coro que se fez ouvir: "portuguesi Comunisti"! Foi aí que tomei consciência que a coisa era a sério...

Pata Negra disse...

Há muita gente que ainda não reparou que o pc é pcp, isto é, é português. Até nesta coisa dos comunistas nós temos uma forma muito própria de ser.
Um abraço isento e parabéns pela isenção

Pata Negra disse...

Há muita gente que ainda não reparou que o pc é pcp, isto é, é português. Até nesta coisa dos comunistas nós temos uma forma muito própria de ser.
Um abraço isento e parabéns pela isenção

cid simoes disse...

Quando, onde e como poderei ter acesso ao livro do professor Janela Antunes?