quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Ida pela volta

1. Decididamente, o "Le Monde" já não é o que era. O meu parceiro do lado, no avião em que anteontem à noite seguia para o Porto, deve ter achado que eu estava a ler alguma anedota, pela súbita gargalhada que dei, a certo passo do folhear do jornal: num artigo sobre Portugal, falava-se da "ditadura do general Salazar". Se o José Rebelo, que durante anos foi o correspondente do jornal em Lisboa, leu esta referência, deve ter ficado chocado e talvez mais triste que divertido.

2. O hotel em que fiquei em Braga faz parte daqueles que necessitam de um MBA para se perceber como se acendem as luzes, para descortinar o modo de regular a água nas torneiras, o misterioso funcionamento das cortinas e o segredo para se evitar acordar a meio da noite com uma louca e inopinada programação do aquecimento. No resto, o hotel era excelente, muito confortável e com gente amável. Mas por que diabo os arquitetos de interiores não se dedicam a desenhar coisas simples, práticas e imediatamente percetíveis, que não nos obriguem a perder tempo?

3. Antes de adormecer, observei a Senhora Merkel em doses maciças, por tudo quanto era noticiário. Sem capacidade mínima para gerarem substância (confundindo "renegociação" com "reestruturação", desta vez dispensando a "refundação"), todos os canais colocaram as suas "Sónias Cristinas" e correspondentes colegas masculinos (é minha impressão ou há caras novas todos os dias? Ainda dizem que há desemprego no jornalismo...), de cornetos na mão, em cenários tendo em fundo polícias e carros a passar, a encher o tempo com platitudes, na cata obsessiva dos "fait-divers" possíveis, desde os cortes de trânsito ao custo e "exageros" da segurança. Se tivesse havido algum incidente, podemos estar seguros: seriam as "falhas" da segurança responsabilizadas. E o "jeito" que teria dado às "reportagens" um acidentezinho com uma das viaturas do cortejo, logo acusadas de velocidade excessiva...

4. A Universidade do Minho, em Braga, onde ontem falei, é uma das grandes realizações académicas do Portugal contemporâneo. Há muito que tenho uma grande admiração pelo que está a ser feito naquele espaço académico, com gente muito qualificada e uma motivação muito forte, bastante empenhada em "dar a volta" a uma região que foi altamente abalada pelas disfunções sofridas pela política industrial portuguesa, com fortes impactos sociais, nas últimas décadas. Já havia sentido isso na sua relação, muito eficaz, com Guimarães - capital europeia da cultura. Onde voltei a receber dados nesse sentido.

5. Tenho a impressão que, em Portugal, não se valoriza devidamente o magnífico trabalho que tem vindo a ser feito pelo nosso Instituto de Defesa Nacional. Ontem, como já me aconteceu várias vezes no passado, falei sobre questões europeias e internacionais para algumas dezenas dos respetivos "auditores", saídos da sociedade civil para estes exercícios de aculturação sobre temáticas de interesse nacional. Há escassos meses, tive o ensejo de trabalhar, no quadro da comissão que elaborou o novo Conceito Estratégico de Defesa, precisamente com base num excelente documento produzido pelo IDN. Devo dizer que o debate em que ontem participei, durante mais de duas horas, foi dos mais ricos em que tenho estado envolvido, desde há vários meses - e ando muito por esses meios.

6. De há uns anos para cá, cada vez tenho mais dificuldade de achar graça à comida que é servida nos aviões. Mesmo não a achando má de todo, muitas vezes evito-a, em especial nos percursos curtos. No regresso a Paris, ao fim da noite de ontem, "saltei" a refeição e só acordei com a aterragem em Orly. "Nem um copo de água bebeu!", surpreendeu-se a hospedeira de bordo, que teve a gentileza e o bom-senso de não me acordar, com aquele tabuleiro cheio de coisas previsíveis, onde não falha o famigerado triângulo de "Président", um medíocre "camembert" que anda pelo menu da TAP quase desde a era dos "Caravelle". No início da viagem, nem jornais portugueses pedi, porque já presumia o que iriam dizer, tanto mais que, com a visita da chanceler alemã, o ansiado regresso de Vale de Azevedo acabou por perder o espaço mediático que legitimamente seria o seu. Há dias aziagos para certas águias fugidias, que finalmente regressam à gloriosa luz da sua pátria.

24 comentários:

Isabel Seixas disse...

Bem Sr Embaixador a imagem é soberba e as suas cogitações idem, fica a curiosidade da "substância" especifica, que facultou os "exercícios de aculturação" no decurso da Sua explanação.

Anónimo disse...

O jornal queria dizer naturalmente o General Alcazar.

a) Nestor

Anónimo disse...

Tenho que dizer isto e só isto: Sempre que um post, neste ou noutro blog, é “muito” comprido digo cá para mim “se escrevesse menos lia-o mais”.
O Sr. Embaixador é a exceção! Leio os seus post de um folgo e queria mais.

Anónimo disse...

Que bride a sua crónica num tempo destes! Ainda lembrei à professora Augusta Lima Cruz da sua passagem por Braga e da importância que isso poderia ter para os alunos que vivem na cidade universitária.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Cândido Varela de Freitas: muito obrigado pelo seu alerta. Coisas que acontecem a quem escreve sob pressão do tempo... e do cansaço!

Anónimo disse...

Sr. Embaixador: não gostei do final da sua crónica (só do final), onde não falava do "Le Monde", nem de Braga, nem de sonecas, nem de paparoca. As águias de raça não são fugidias, e a gloriosa Luz (com maiúscula) alberga "o Glorioso".Como no caso das palavras do embaixador de Israel, não se confunda Portugal com Salazar, nem um tal Vale e Azevedo com o Benfica. Um dirigiu mal um país, o outro foi o que se sabe no Clube da Luz. Já os ingleses o deveriam ter devolvido ao cimo do Parque Eduardo VII há muito tempo. Não ao Eleven, a outro sítio bem mais amplo. Agora vou tomar uma bica com um tal Pedro Proença que, em plena crise, foi solidário com os mais fracos.

Anónimo disse...

"Nem um copo de água
bebeu!", "tabuleiro cheio", "jornais"...
Com então a viajar em executiva, heim ?

Vitor Esteves disse...

È só para concordar com o anónimo das 11:43 !!! (È, sempre, um gosto lê-lo Sr. Embaixador, a falta que o Sr. faz... )

Anónimo disse...

Mon cher Ambassadeur
Votre remarque sur les difficultés qu'on éprouve dans les salles de bains modernes m'a donnée l'idée d'une suggestion pratique: pourquoi les hotels n'engagent-ils pas des employées très jeunes, plus à l'aise dans les nouvelles technologies, qui puissent venir nous aider quand, sous la douche ou dans la baignoire, nous éprouvons les difficultés que vous avez si bien mentionnés?
Bien à vous et toujours prêt à donner des suggestions pratiques, et notamment sur la crise de l'euro.

a) DSK

Anónimo disse...

Leio o seu triste post no equipamento internet à minha disposição na primeira classe das Emirate Airlines, enquanto provo o caviar Beluga e bebo o champanhe Dom Pérignon. O Senhor Embaixador não gosta da comida nos aviões que frequenta, é? Pois é...

a) Feliciano da Mata, especialista em transferências financeiras

Anónimo disse...

Salazar um soldado?
De facto, sobretudo depois de abril de 74, é quase um insulto.
Mas isto resulta daquelas confusões com a Espanha nas cabecinhas de muitas pessoas... Não era Franco um Generalissimo?
José Barros

Anónimo disse...

Desvanece-me, Sr. Embaixador, a confiança que deposita no trabalho que desenvolvi para o Le Monde há quase quatro décadas. Mas gostaria de lhe contar uma pequena história que vem mesmo a propósito. Há cerca de cinco anos, fui convidado para dar uma aula num curso de Direito da Universidade de Paris-Sceaux. Tentei uma leitura do salazarismo a partir de conceitos desenvolvidos por Ernest Kantorowicz que já tinha aplicado na minha tese de doutoramento. Falei durante 2 horas. Salazar para aqui, Salazar para acolá. No debate final, uma aluna perguntou-me:
"C'est très bien, Mr le Professeur, mais je n'ai vraiment rien compris du rapport entre ce que vous avez dit et la gare St. Lazare!"
Com um abraço do:
José Rebelo

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo daa 14.43: concordo plenamente que o golo foi mal anulado ao Braga. Digo isto com o "fair play" de um sportinguista. Outros, sob a luz de lampiões ofuscantes, talvez não tivessem idêntica frontalidade.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cher Daniel Serres de Kervin: décidément nous sommes tous des orphelins de votre inoubliable expertise.

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Votre ami DSK, pardon Daniel Serres de Kervin, donne de trés bons conseils a tout les hommes. Mais, mon Dieu, et les femmes?!

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó Senhor Embaixador, o que me ri com a sinalética do seu hotel.
Suponha-me em idênticas circunstância, num hotel de Berlim, eu que de alemão apenas fiquei a saber aquilo que não preciso.
Bem sei que a Alemanha comanda o mundo, mas um empregado da recepção, à noite, não saber inglês é, decerto, Karma meu...

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Nestor de boa memória e não é que está inteiramente certo?!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Rebelo: que bom sabê-lo leitor deste blogue, onde, no passado, já me referi a si por mais de uma vez, como pode observar aqui:
http://duas-ou-tres.blogspot.fr/2010/05/le-monde-iberico.html
http://duas-ou-tres.blogspot.fr/2012/03/11-de-marco-de-1975.html
http://duas-ou-tres.blogspot.fr/2009/05/le-monde.html
E só por acaso não contei ainda uma visita que fiz a sua casa, ali perto da Estefânea, nessa segunda metade dos anos 70, para avisá-lo de uma intriga que estava a ser urdida contra si, aqui em Paris, junto da direção do "Le Monde". Lembra-se?
Com um abraço do
FRancisco Seixas da Costa

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Dra. Helena Sacadura Cabral: nesta área da sinalética dos hotéis, a cena clássica, ligada à diplomacia, está descrita com grande graça por Roger Peyrefitte, no "Les Ambassades", passada no "Hotel d'Anglaterre", na praça Syntagma, em Atenas. Lugar, aliás, onde, nos dias de hoje, se deve ter uma bela vista premonitória de um cenário que, infelizmente, não nos é tão alheio como isso.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 11.53: claro que sim! È proibido?

gherkin disse...


Artigo mui instrutivo e esclarecedor, com o qual nos habituou, especialmente no que diz respeito à Universidade do Minho. Pena é que os nossos media tão preocupados com trivialidades não salientem o que temos de bom!
O habitual abraço,
Gilberto

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Enquanto antigo auditor do Curso de Defesa Nacional do IDN, concordo absolutamente com as suas palavras sobre este Instituto.

Anónimo disse...


Sr. Embaixador

Há mesmo jornalistas desempregados.

Anónimo disse...

Eu também não gosto do "Président"...