sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Hendaye

Meio século de imigração portuguesa em França esteve ontem em análise num colóquio realizado em Hendaye, graças ao entusiasmo dessa "força da natureza" que é Manuel Dias - a principal figura que, aqui em França, tem pugnado pela preservação da memória de Aristides de Sousa Mendes. A cidade de Hendaye foi, e bem, o local escolhido para esta evocação, porque foi a porta da França para as imensas vagas de trabalhadores portugueses desses primeiros tempos.

O dia foi preenchido com diversos painéis temáticos, todos com uma qualidade de exposição muito rara. Historiadores, jornalistas, sociólogos e outros especialistas trouxeram dados e interpretações com imenso interesse, que espero seja possível coligir rapidamente em livro. Numa ou outra intervenção, como não podia deixar de ser, aflorou a memória emocionada de quantos fizeram parte dessa imensa aventura. Alguém lembrou, a certa altura, a história de um português que, como única referência identificativa do local para onde pretendia ir, exibia uma folha de papel onde tinha escrito "São Pinhi" - transcrição fonética que identificava o "bidonville" de Champigny, nos arredores de Paris, onde eventualmente o esperava algum conterrâneo.

Uma bela exposição do fotógrafo Gabriel Martinez, sob o título "Sala de espera", mostrou-nos, paralelamente, muitas imagens do ambiente vivido nesses anos 60, na estação ferroviária de Hendaye, um local por onde passou muita da esperança e da tragédia de um Portugal obrigado a emigrar.

Sei que muitos cidadãos de origem portuguesa, hoje residentes em França, convivem menos bem com a reiteração sistemática das evocações desses tempos a-preto-e-branco, que já não acham muita "graça" a este tipo de exposições, porque temem que, eventualmente, isso possa prolongar no imaginário francês um certo esteriótipo dos portugueses, desses tempos menos áureos da dificuldade e de miséria. Mas também devo compreender o sentimento de quantos teimam em preservar e mostrar esses documentos, testemunhos desses olhares rurais lusitanos, perdidos na incerteza, à chegada a uma terra estranha, uma geração a quem o país negava o futuro.

Amanhã, que cores ilustrarão os tempos de hoje?

Em tempo: a este propósito, a Lusa reproduz hoje algo que eu disse sobre este tema.

9 comentários:

Anónimo disse...

dopo cinquanta anni...eppur si muove

Isabel Seixas disse...

Sabe-se lá as cores do futuro...
Aliás desde que bem combinadas.

Anónimo disse...

Croatas, romenos, magrebinos, ucranianos, redes de tráfico de mão-de-obra, centros de investigação em que, pelas caras das fotografias, não se percebe qual o país em que foram tiradas e equipas de futebol inglesas, francesas,portuguesas com um plantel sem naturais e por aí fora.
Senhor Embaixador, não foi de Gaulle que disse que o futuro da Humanidade era a miscigenação?

Maria Helena

Anónimo disse...

Champigny, a fotografia impossivel!

A França chamava a si, naqueles tempos, mais e mais trabalhadores de todas as idades. Salazar, que comprava alouettes a De Gaulle e precisava de guardar os jovens para o ultramar ainda protestou mas não conseguiu travar os fluxos.
Nós, os jovens, até esqueciamos o outro lado da moeda e aceitavamos sem o minimo protesto as condições de acolhimento que eram péssimas. Aliás, utilizar aqui a palavra "acolhimento" é um "não senso". As pessoas chegavam e era um salve-se quem puder. 
As fábricas, os chantiers, os campos, as minas, as florestas, precisavam de mão de obra e a ONI que funcionava a pleno régime em Portugal não dava conta do recado. 
Que venham, que venham como puderem. Precisamos de batalhões, de exércitos inteiros, com urgencia, não há tempo para pensar no aboletamento, que venham e que se desenrasquem. 
Ora os portugueses, o sistema "d'" (desenrascanso) sabem o que é. No alojamento foram os bidonvilles. Champigny foi o que ficou mais célebre. Mas houve outros: Nanterre, Orly, Choisy le Roy, S. Denis... Até houve principios de fortunas que nasceram nos bidonvilles; portugueses que ali se "apropriaram" de espaços e construiram barracamentos que alugavam a compatriotas e que só lá iam de galochas altas para receberem as rendas também os houve.
Visitei Champigny quando jovem militante CFDT. O "largo da Fonte", para onde vinha água canalizada um tanto "à trocha mocha" e que formava ao cair um sórdido lamaçal era insuportável.
Guardo aquela imagem cloacina que não posso apagar do meu arquivo. E também a imagem de uma menina despenteada e suja que ali veio, naquele momento, com galochas que seriam do seu pai, encher um balde de água para consumo.
Consegui impedir que a máquina fotográfica do meu companheiro da CFDT disparasse para guardar no papel esta fotografia desoladora. Depois alimentamos um animado debate. Que sim, que as fotografias servem para denunciar injustiças; que não, que as injustiças podem ser denunciadas sem aquilo que me parecia querer mostrar um exotismo através de estética onde se procurava uma beleza para mim insuportável. Mas guardo a imagem na memória que não consigo apagar!
José Barros     

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Barros: percebo muito bem o seu comentário.

Portugalredecouvertes disse...

Também não acho piada a essas fotos desoladoras de pessoas extenuadas após vários dias de viagem sem condições de higiene e sem alimentação apropriada
Fora do contexto não se vê a "riqueza interior" do pensamento desses portugueses que iriam viver muitos em condições miseráveis na esperança de uns dias de férias que os iriam trazer de volta à sua terra em Portugal, ou no sonho da construção da sua casa na sua terra, ou seja iriam viver num diferente mas num futuro de sonho que lhes permitia esquecer o ambiente das barracas. Por experiência pessoal,apesar de ter chegado em dias mais confortáveis, a palavra Hendaye, era de sentido contrário, ou seja a estrada das férias e destino à praia e céu azul
vi várias vezes imagens desse tipo, mas não vejo nelas a beleza das minhas tias que emigraram para França, mas que antes pareciam madonas com os véus brancos de ir à igreja ou princesas árabes nos bailes do carnaval ou tão alegres nas danças dos corridinhos

Luis Miguel Correia disse...

Sempre fomos assim, quando saímos daqui mar fora à aventura um dos motivos era desandar daqui para fora. Agostinho da Silva dizia que os Portugueses não gostavam do Mar, mas sim do Navio, o veículo em que se punham a andar daqui...
E agora?

Carlos Fonseca disse...

Caro José Barros,

O seu comentário transportou-me aos meus 18 anos, quando comecei a trabalhar (ao mesmo tempo que continuava os estudos) numa agência de viagens a quem a Junta Nacional de Emigração adjudicara a emissão dos bilhetes de comboio que fornecia aos emigrantes que viajavam legalmente.

Pouco depois de ter entrado ao serviço fiquei com a tarefa de emitir esses bilhetes.

E o seu texto trouxe-me à memória, não sem emoção, os rostos tristes e humildes daqueles homens e mulheres, que a partir do meio da tarde, vindos da Rua da Junqueira, em Lisboa, onde estava instalada a Junta, esperavam pacientemente pelo ansiado bilhete.

Que tempos, aqueles, que infelizmente estão de volta. Talvez já sem "bidonvilles", mas decerto com a mesma tristeza e amargura. De quem parte, e de quem fica.

Helena Sacadura Cabral disse...

Comovente comentário de José Barros!