domingo, 18 de novembro de 2012

Demasiada memória

Há dias, um amigo dizia-me, levemente crítico, que eu tinha "demasiada memória". Para logo esclarecer: "é que tu lembras-te, às vezes, de certas coisas que mais valia a pena teres esquecido...". Talvez seja verdade. Com frequência, tenho esse tropismo de me recordar de assuntos que outros arquivaram em dossiês de conveniência, que não querem voltar a consultar. Como os leitores deste blogue já se devem ter apercebido, não o faço para visar especificamente ninguém, mas apenas como testemunho de quem acha que, sobre o que conhece, deve tentar "to set the record straight".

Vem isto a propósito de um recente editorial do "Jornal de Angola" que provocou algumas ondas de choque em Portugal, felizmente tratadas já com bom senso e sentido de equilíbrio.

O tema, contudo, fez-me "regressar" a Luanda, aos mais de três anos que por lá passei, entre 1982 e 1986, quando servi na nossa embaixada local. As relações oficiais entre Portugal e Angola eram então muito tensas, fruto da terrível guerra civil que marcava ao quotidiano angolano e da circunstância de certos setores da oposição ao governo de Luanda terem Lisboa como palco privilegiado para a sua afirmação pública. 

A argumentação de que muitos dos titulares das posições do partido do "galo negro", da UNITA, tinham nacionalidade portuguesa e de que, por essa razão, nada os impedia de se reunirem politicamente em Lisboa e daí atacarem, nos nossos media, o governo angolano, não era aceite, porque as autoridades angolanas entendiam que os sucessivos executivos lisboetas tinham o dever político de não permitir a expressão dessas vozes, que davam cobertura a um movimento que combatia, de forma violenta, o poder instalado em Luanda.

Debalde nós tentávamos explicar aos nossos interlocutores locais que a liberdade de imprensa era uma conquista daquele mesmo 25 de abril que abrira caminho à independência angolana e que, no nosso país, nenhuma ideologia, nem nenhum político, estava isento de ácidas críticas, a começar pelos próprios membros dos nossos governos. Mas essa uma "guerra" perdida, nos tempos em que uma certa elite lusitana mantinha um persistente fascínio por Jonas Savimbi, que então organizava os seus "Jamba tours", de onde esses convidados saíam deliciados com tudo o que por lá os deixavam ver, desde logo a começar pelo patético "sinaleiro" (que nos dava um jeitaço, agora, no Marquês!). E ai de quem os tentasse então convencer de que, por detrás da sua suposta bonomia africana, Savimbi era um promotor de atrocidades, hoje bem documentadas e incontroversas. 

À época, os editoriais do "Jornal de Angola" contra Portugal sucediam-se. A embaixada portuguesa em Luanda optara por não reagir, deixando que essa catarse mediática não fosse estimulada por um contraditório que se via como de escassa eficácia. Por isso, líamos matinalmente essas colunas agressivas e, através delas, apenas íamos medindo a febre de acrimónia contra Lisboa, esperando que o tempo a atenuasse, como fe facto acabou por suceder. 

Um dia, vi publicado um texto de rara violência, já não sei bem a propósito de quê. Nele se referia que Portugal, crismado como o "miserável país das caravelas decrépitas" (nunca esqueci esta flor de retórica lusofóbica), era um colonizador frustrado, porque, contrariamente a outros, não deixara em Angola nenhuma herança positiva.

Sem consultar o meu embaixador, tomei a iniciativa de telefonar ao autor do texto, uma pessoa que eu tinha tido ocasião de conhecer pessoalmente, através de amigos angolanos. Era um jornalista e escritor de bastante mérito, nascido em Portugal, creio que em Loures, que vulgarmente usava um pseudónimo que substituía o seu nome português, como então era vulgar em Angola. Disse-lhe que tinha lido o seu texto com interesse e que queria "felicitá-lo" pelo mesmo.

Do lado de lá da linha, a resposta foi a esperada: "Você está a gozar comigo?". Respondi-lhe que não estava e que o texto, cuja liberdade de apreciação sobre Portugal eu não contestava, comportava, contudo, uma evidente contradição, de que ele talvez não se tivesse dado conta, mas que era a única razão do meu telefonema. O meu interlocutor estava cada vez mais perplexo, até pela deliberada cordialidade que atravessava o meu discurso.

Pelo que decidi explicar: "O seu texto, independentemente do conteúdo agressivo contra o meu país - o mesmo, aliás, onde você nasceu -, está extremamente bem escrito e exprime, de forma brilhante, uma leitura crítica face ao comportamento do meu governo. Embora eu não concorde, rigorosamente em nada, com aquilo que escreveu, quero dizer-lhe que entendo que você está no pleníssimo direito de exprimir o que pensa, embora eu imagine o que "por aí iria" se, lá em Lisboa, o "Diário de Notícias", que nem sequer é um jornal oficioso como o seu, se abalançasse a escrever um coisa de natureza similar sobre o governo angolano. Mas não é essa, hoje, a minha questão. O que eu queria sublinhar é que o texto está redigido num português exemplar, numa escrita de grande elegância estilística. Ora você diz, nesse mesmo texto, que nada ficou em Angola de herança lusitana! E essa língua em que você escreve tão bem? É uma herança de quem? Ou será que você é capaz de escrever um editorial em quimbundo, em umbundo ou em chocué, que qualquer angolano que saiba ler possa perceber? E em que língua se publica o "Jornal de Angola"? Que outra língua une hoje Angola? Essa é ou não é uma herança do tempo colonial?".

Já não me recordo da resposta do meu interlocutor, que terá sido, com toda a certeza, inteligente e informada, porque era alguém com uma grande qualidade intelectual e política. Uma figura infelizmente já desaparecida.

Esses tensos tempos na relação entre Luanda e Lisboa já passaram, há muito. O bom senso, o fim dos traumas da era das armas, a afetividade natural entre as gentes dos dois lados, a diluição da crispação que a queda dos muros ideológicos proporcionou e, acima de tudo, a emergência de importantes interesses mútuos, tudo isso conduziu ambos os países a patamares novos de entendimento, assentes num diálogo político construtivo e maduro. Portugal está hoje em Angola com gentes e capitais, tal como Angola participa, com toda a naturalidade, na vida económica portuguesa. Ainda bem que as coisas assim são. Tudo isso tem como corolário inescapável a necessidade do respeito mútuo pelas respetivas instituições nacionais e, em ambos os lados, pela plena liberdade de expressão e de crítica. A mesma liberdade que, a mim, me permite de citar hoje aqui esta historieta, que dedico aos bons amigos que deixei por Angola, alguns que até fazem parte do seu atual governo e que recordo com esta minha "demasiada memória". 

12 comentários:

EGR disse...

Senhor Embaixador:o texto que hoje nos oferece tem,a meu ver, um significado que ultrapassa o seu teor literal,e suponho que foi exactamente isso que pretendeu ao escreve-lo.
Por isso talvez devesse ser reflectido por quem opina sobre o tema.
E, já agora, permita-me admitir que ele provoque algum "incomodo" em certos círculos.

Anónimo disse...

essa é mesmo na mouche!

patricio branco disse...

Boa historia, imagina que estavas no meu lugar...
claro que por detrás de toda esta polemica internacional deve haver algo muito forte que desperta medos, receios, censuras, não fales assim deles, cuidado não os melindremos, há fortes e poderosos interesses, vendas, alienações, participações, nacionalizações, há capitais pelo meio, intermediarios, etc.
curiosamente, ao alto nivel, não vejo reacções, mnes ou mres ou lá como se chamam a dizer que não gostaram disto ou daquilo, as relações estão pois a correr normalmente, o capital a correr para cá, as coisas são assim, esperemos que os dois paises ganhem um com o outro, paises igual a população/cidadãos, bem estar deles, os de lá, os de cá, etc.

Anónimo disse...

Esta história não é mais do que a confirmação de que, por detrás das ideologias, só (quase) se moveram e movem interesses financeiros. Ou então os que têm estes interesses são quem sempre ganha (e portanto a história é a deles).
Duas coisas não estão bem explicadas: como é que “alguém com uma grande qualidade intelectual e política” tem uma atitude daquelas e, com é possível não recordar a resposta, da qual ficamos bem curiosos, havendo “demasiada memória”.
Tudo o que se passa e passou no mundo era inimaginável e inacreditável há 50 anos. Inimaginável? Por todos?...

JM Ferreira de Almeida disse...

Importante e oportuno registo.

Anónimo disse...

neste texto a reler (como muitas vezes, por aqui, me acontece)até a imagem é importante...aquele horrível ano de 1977...

Anónimo disse...

neste texto a reler (como muitas vezes, por aqui, me acontece)até a imagem é importante...aquele horrível ano de 1977...

Anónimo disse...

Pois nós no "Jornal do Golungo Alto" nunca insultamos ninguém, Senhor Embaixador. O homem era de Loures, e depois? Eu sou da Baixa da Banheira e dou-me por cá muito bem...

a) Feliciano da Mata, empresário da comunicação social

gherkin disse...

Meu caro: Esta sua excelente “memória” referente a um português culto que, e muito bem, inteligentemente interpelou, contrasta com outra experiência, esta minha. Na visita oficial de um alto emissário angolano que selou as relaçôes anglobritânicas, aliás cujo início teve igualmente lugar na minha presença, personalidade que acompanhei durante os seus 12 dias de estadia ao serviço do Ministério Britânico dos Negócios Estrangeiros. Quando, à entrada do Palácio de Buckingham, aguardávamos a hora da audiência com Isabel II, trazia uma prenda presidencial, acompanhada de uma carta. Foi-me pedido para ver se haveria algum erro. Como se encontrava em bom inglês, a única coisa que apontei foi o texto do envelope. Em vez de: “For Isabel II”, sugeri que melhor seria “To Her Majesty Isabel II”. Como tinhamos tempo, o ministro imediatamente incumbiu o acompanhante Diretor da então Delegação Angolana do Café, como sabe, não muito distante, em Jeremyn Street (Piccadilly) para alterar o envelope como ele afirmou “de acordo com a sugestão do camarada Dr. Ferraz”. Ordem que o Diretor transmitiu ao seu sub, mas em inglês. Indignado, o Ministro, que era um dos mais chegados ao então Presidente Agostinho Neto, dirige-se-lhe mais ou menos nos seguintes termos, que cito de memória: “Camarada XXX, Nunca, mas nunca na minha presença ou de qualquer camarada angolano, use outra língua que NÃO A NOSSA, o Português!” Este alto cidadão ANGOLANO, que igualmente vim a saber ser poeta, contrariamente ao cidadão português a que se refere, , RECONHECEU que, afinal, os tais colonizadores tinham deixado ALGUMA COISA! Aquela coisa, que sendo “a nossa língua” unia e distinguia os vátios separatistas dialetos que menciona! O habitual abraço. Gilberto Ferraz

zamotanaiv disse...

Bravo!
Que bonito texto!

Catinga disse...

Hoje foi elogiado e citado no Correio da Manhã, com direito a grande fotografia e tudo.

Anónimo disse...

Que diabo de data para o cabeçalho do Jornal de Angola o Senhor Embaixador foi escolher!