quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Comboios

Era um homem muito simples, das Beiras. Começámos a conversar naqueles corredores estreitos do Sud-Express, em direção a Paris, naquele verão de 1970. Contou-me que ia para a Alemanha, onde trabalhava na construção civil. Para sempre, ficou-me uma frase que me disse, e que dava bem conta do profundo choque cultural entre o mundo de onde provinha e aquele em que habitava, num subúrbio de uma grande cidade: "Perto das barracas onde estamos 'anda' uma grande estrada e, à noite, quando nos chegamos à beira dela, aquilo até mete medo, com as luzes dos carros a passarem tão depressa". Em Portugal, nesse tempo, as autoestradas eram uma miragem.

À medida que nos aproximávamos da gare de Austerlitz, perguntei-lhe como iria para a gare du Nord, de onde partiria num outro comboio, para a Alemanha. Disse-me que havia motoristas portugueses que andariam por ali e que o transportariam entre as duas estações. Pelo que me contou, o preço que habitualmente lhe cobravam era uma exorbitância, um verdadeiro roubo. Era bem conhecida, na altura, a existência dessa máfia de portugueses desonestos, que rondavam Austerlitz e exploravam os desamparados compatriotas, que não sabiam uma palavra de francês e se abandonavam nas suas mãos.

Porque ele só tinha uma mala, perguntei-lhe se não queria ir de metropolitano, cujo bilhete era um preço ínfimo, comparado com o que os motoristas lusos lhe cobravam. Por acaso, eu ia seguir na mesma linha e, com todo o prazar, ajudá-lo-ia até à gare du Nord. O homem, que até então tinha tido comigo uma conversa distendida e cordial, olhou-me, claramente desconfiado com "tanta fartura", provavelmente convencido que eu lhe estava a tentar fazer algum "conto do vigário". À saída, de forma quase ostensiva, evitou-me e lá deve ter ido entregar-se nas mãos dos abutres lusitanos motorizados.

Ontem, na gare de l'Est, veio-me à memória o episódio passado com aquele português, ao constatar a atrapalhação de um cidadão, que vim a saber ser búlgaro, perdido no meio da multidão do fim de tarde, com um ar angustiado, sem falar uma palavra de francês, num ambiente de generalizada indiferença. Vendo-o nervoso, quase tremendo, com claro pânico de perder uma ligação, perguntei-lhe se necessitava de ajuda. Mostrou-me o bilhete. Orientei-o, levando-o até à porta da carruagem. Desfez-se em agradecimentos, talvez surpreendido por alguém se ter disponibilizado a auxiliá-lo, sem nada lhe pedir em troca.

Devo dizer que tive gosto em poder ter esse simples gesto, porque, às vezes, alguns trabalhadores estrangeiros que por aqui encontro, na simplicidade insegura de quem caiu num mundo que não domina, não deixam de me recordar os heróis anónimos das nossas vagas da emigração do século passado.

24 comentários:

Helena Oneto disse...

Bem haja, Senhor Embaixador!

Isabel Seixas disse...

Realista e sensivel, mas algo triste este post...

"aqui encontro"
"quem caiu num mundo que não domina"
"heróis anónimos"
In FSC



Alguns continuam pelos comboios, cansados,doentes e gastos, na mesma anónimos...




Anónimo disse...

Bonito.

Anónimo disse...

A história dos anos 70 parece verossimil. Em poucas palavras estão ali resumidas tantas vivencias do dia a dia
de milhares de portugueses. Está também toda a emoção carregada das angústias que se viviam.
Já a história de ontem na gare de l'Est  aparece como uma procura muito feliz de "boucler la boucle"... 
Aquele humanismo que o português dos anos 70 não aceitou por desconfiança e que ficara retido "despejou-o" agora sobre o búlgaro!
Porque esta extravagância e liberdade de movimentos de um Embaixador para aqueles atos de simplicidade parecem estar a léguas das realidades correntes.  
Também este poder de observação que a longa experiência dos salões alcatifados não conseguiu destruir e que lhe permite a "acuidade" de ver os "trabalhadores estrangeiros que por aqui encontro, na simplicidade insegura de quem caiu num mundo que não domina, não deixam de me recordar os heróis anónimos das nossas vagas da emigração do século passado" é muito, muito louvável.
José Barros
 

  

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Barros: que pode haver de estranho na atitude de alguém que, como eu, também por ali andava a apanhar um comboio?

tulipas disse...

BONITO!
Bem haja, Sr. Embaixador!

Respeitosos cumprimentos

Anónimo disse...

Vossa Excelência desculpe, mas este post não passa de uma "bulgaridade". E fique sabendo Vexa que eu já não sirvo à mesa, sou servido por empregados filipinos de luvas brancas. Algo que nem Vexa no próximo ano nem o Senhor Alcipe daqui por breves três anos poderão mais disfrutar ou sequer sonhar! Recebam os dois a minha gargalhada de escárnio.

a)Feliciano da Mata, observador ao Congresso do Partido Comunista Chinês, Pequim

José Fragoso disse...

"i've always depended on the kindness of strangers."

patricio branco disse...

bonito e util gesto.
de facto, ajudar, fazermos bem desse modo a um desconhecido, um gesto simples mas eficaz, deve ser algo que fica contabilizado não sei onde, alem de ficar na nossa consciencia, espero que sim. "Um bom gesto por dia" talvez seja ums salutar receita tambem para nós próprios

patricio branco disse...

mais uma vez me lembrei da magnifica descrição poetica do portugal derramado pela gare de austerlitz de m alegre, esse grando poema sobre a emigração portuguesa e o poeta não tem só esse.
agora que a emigração está a crescer a olhos vistos onde chegarão com as malas?

Anónimo disse...

Irrito-me com os posts amanteigados, tão caracteristicamente portugueses, que quase todos os dias são aqui "postados" pelos admiradores do autor do blog. Mas, desta vez, junto-me aos manteigadores, para notar o comportamento tão português do embaixador que, realmente "nada tem de extraordinário ... num português!
João Vieira

Anónimo disse...

Não fazem ideia do bem que me fez ler esta crónica. Ajuda a limpar algumas memórias do tempo em que corria a Europa na pré-adesão à UE para reunir com grupos de emigrantes. Com o tempo vamos retendo os episódios mais agradáveis e alguns até que foram bem divertidos. Já me tem cabido em sorte me pedirem ajuda para diferentes informações em Paris. Aliás digo sempre que sou portuguesa e aconselho-os a pedirem ajuda aos árabes por exemplo, pois são pessoas muito prestáveis. Já testemunhei isso algumas vezes. O Senhor Embaixador sentir-se-á sempre próximo dos que partem da sua terra à procura de uma vida melhor. Aliás somos todos "galegos"...

patricio branco disse...

curiosas coincidencias, mas tive agora inesperadamente a oportunidade de fazer o bom gesto do dia.

Anónimo disse...

Pois é.... Teremos nós portugueses ficado, como estes casos, também atarantados quando chegámos à Uniao Europeia? Eu não sei..... mas era tudo tão diferente do que conhecíamos..... e daí o que se passa hoje.... não sei mesmo

Anónimo disse...

Sr.Embaixador por aquilo que li aqui agora e pelo que costumo ler nos seus posts, parece-me que o Sr. é um grande ser, um grande homem. Se todos nós ajudássemos o nosso próximo que está um pouco mais aflito, tudo seria bem melhor. É tão fácil.É só cada um de nós nos colocarmos no lugar do outro e perceber-mos o quanto gostavamos que nos ajudassem. Bem haja Sr. Embaixador e continue assim. Amália Fiel

Helena Sacadura Cabral disse...

Belo texto Senhor Embaixador. Só quem nunca assistiu a esse drama linguístico pode ficar indiferente. Bem haja!

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó Alcipe você deve estar como observador num Congresso de Radicais Esquerdistas. Ou de Direita que vai pelo mesmo.
Deixe-me lembrar-lhe a velha sabedoria nacional do "não sirvas a quem serviu, não peças a quem pediu".
Eu é que gargalho com a sua nova posição social. Se me quiser a servi-lo, sei cozinhar e dou uns laivos de cultura que ficam sempre bem. Assim a Senhora Engenheira me aceite.
:-)))

Anónimo disse...

Os judeus tem um ditado que encerra em si uma força imensa "quem salva uma vida salva a humanidade"... eu, por vezes, gosto de pensar que quem ajuda uma vida também salva a humanidade.

Nuno 361111

Anónimo disse...

Chamou-me Alcipe, Senhora Dona Helena? Coitado, esse lá ficou com os versos e as cegonhas...

a) Feliciano da Mata

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Feliciano: a sua proximidade com a senhora engenheira leva-me a inquirir se acaso não poderá elucidar-nos sobre qual o método que utilizou na judiciosa aplicação da mesada paternal, no mercado de capitais,que a levou a chegar onde chegou. E, já agora, aproveite também você para aprender, que isto de "bago" está pelas ruas da amargura - pelo menos para alguns. Se o encontrar ou lhe escrever, dê, da minha parte, um abraço ao senhor Alcipe, dizendo que muito frustrados estamos com a sua falta de assiduidade no "Malta da Rima", um blogue ao nível do povo, porque o "Tim Tim no Tibete", como a geografia indica, é para cavalarias mais altas.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caros comentadores: não exageremos! E volto a repetir: então não é mais do que natural ajudar alguém que vemos perdido?

Helena Sacadura Cabral disse...

Tem toda a razão Feliciano da Mata. Às vezes, com a diluição da luta de classes, tenho tendencia a confundir patrão e mordomo.
Queira desculpar-me. Como muito bem diz, esse, o seu antigo patrão ficou com os versos e as cegonhas. Mas ficou bem, porque ficou com a melhor parte!

Julia Macias-Valet disse...

A atitude que teve é perfeitamente normal. O contrario é que nao o é !
O individualismo crescente nas nossas cidades faz com que reacções normais se tornem algo de excepcional, infelizmente.

Anónimo disse...

A velha senhora delira:

meu amor é o maior
escolhi a melhor parte
mas pra aqui comigo o pôr
sobra idade e falta-me arte