sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ainda a greve

No dia da greve, acompanhado apenas pelo conjunto de diplomatas que comigo trabalham, dei comigo a pensar que, em toda a minha vida profissional - e serão 41 anos completos no próximo domingo - nunca fiz um dia de greve. E, não obstante, fui, durante algum tempo, dirigente sindical no Ministério dos negócios estrangeiros.

Confesso que frequentemente tive vontade de faltar ao trabalho, para acompanhar justos protestos coletivos a que, intimamente, muitas vezes me associei. Mas sempre pensei a vida de um diplomata como um "full-time job", um serviço público que funciona como uma espécie de "urgência" hospitalar, que não pode fechar, 24 horas por dia, 365 dias por ano.

Nos diversos locais do mundo onde trabalhei, não recordo alguma vez ter hesitado em atender uma situação de emergência, a qualquer hora do dia ou da noite, nunca recusei ir trabalhar a um sábado, domingo ou feriado, nunca me passou pela cabeça pedir horas extraordinárias ou compensações por isso. 

Serei um caso único? Longe disso! Conheço muitos colegas - melhor: trabalho aqui em Paris, hoje em dia, com alguns, bem mais jovens do que eu - que têm exatamente esta mesma perspetiva do serviço público, esse orgulho raro de servirem um "patrão" que consideram diferente dos outros. 

Só espero que, no futuro, esses colegas não venham a ter razões para virem a pensar de forma diferente.

19 comentários:

São disse...

Infelizmente, penso que esse seu voto - que partilho - não se concretizará.

E receio muito as consequências resultantes da maneira como o actual Governo PSD/CDS está a gerir o país e a tratar as pessoas portuguesas!

Oxalá me engane, a sério.

Boa noite

Carlos Falcão disse...

O Francisco leu certamente "As a Man Thinketh" de James Allen.
Perdoe-me, mas eu penso que a sua atitude, coresponde por une grande parte à educação que recebeu, aos valores da sua familia, ao seu profundo estado de espirito.
Um Homem, um Diplomata !

CDLT
C.Falcao

Anónimo disse...

A carreira dependeu sempre muito da vocação de cada um para o exercício da profissão. Ou se tem ou não.
Greves: Em Portugal já nem há piquetes de greve a impedir quem quer ir trabalhar, nem pelotões de fuzilamento dos mesmos. Isto já são greves burguesas. Mas eu não sei

Anónimo disse...

Desde sempre me incutiram, e aceitei como princípio basilar de uma comunidade, que o interesse público se sobrepõe, naturalmente, a qualquer interesse particular, seja individual, de grupos, partidários, etc., etc. Aliás até penso que o interesse público é a forma superior do interesse particular.
Mas, desde há muito se vê, que este princípio está praticamente arredado do objetivo de qualquer ação, apesar de despudoradamente invocado.
Estamos a criar uma nova forma de educação, em que se diz a quem se procura educar: O princípio é “este” mas o que deves fazer é “isto”…

patricio branco disse...

fazer greve é tambem uma interessante experiencia civica, uma tomada de posição individual e colectiva politica, um gesto de defesa de direitos,etc. penso que é daquelas coisas de que se deve ter experiencia nem que seja por 1 vez. a sério, é experiencia que devemos ter na vida profissional.
infelizmente, a greve divide as pessoas, vertical e horizontalmente, embora no geral haja grande solidariedade e aceitação, por isso normalmente são pacificas em democracia (não falo do outro instrumento, o de manifestação).
a meu ver tambem não adianta dizer publicamente que nunca se fez greve, pode ser sempre interpretado como ser-se contra as greves.
no meu caso, aderi por 2 vezes a uma greve, ainda me disseram, mas falta que pomos aqui que vieste ao serviço, truque que não aceitei. na ultima das vezes 1 ou 2 meses depois veio o desconto de 89€ na folha de vencimentos. mas gostei das experiencias da greve e das ter no meu pequeno curriculo.
sim, esperemos que de futuro não se faça greve por não haver razões objectivas para as fazer.

Anónimo disse...

Pois é... Greves.... mas já não há piquetes a impedirem quem queira trabalhar, nem pelotões de fuzilamento para os mesmos. Já nada é como era. Mas eu não sei.

Anónimo disse...

A carreira diplomática é diferente. Estou inteiramente de acordo com o que diz – no que à carreira respeita. Um diplomata deve olhar para o serviço, designadamente quando serve em Posto, como um “full-time job”, como diz.
E, nesse sentido, estar pronto para trabalhar ao fim de semana, feriados, ou, por vezes mesmo trabalhar 2 ou 3 dias seguidos, praticamente sem dormir, em virtude de renuniões, negociações, etc que tem de acompanhar e seguir. Como me sucedeu.
Já noutras profissões, as coisas são diferentes. Até por razões de ordem salarial. Um diplomata não tem, digamos, problemas financeiros de maior – o que não quer dizer que ganhe fortunas – visto que, quando em Posto, acumula o seu vencimento líquido de Lisboa, com a sua razoavelmente bem paga representação no Quadro Externo.
O que em nenhuma outra profissão, ou emprego, sucede.
Para além de que a carreira diplomática – até ver! – não é vítima dos problemas laborais com que se defrontam outras carreiras, que, entre outras situações, enfrentam, hoje sobretudo, a ameaça de desemprego.
Na carreira diplomática não há, por exemplo, “diplomatas contratados”, como por exemplo nas carreiras médicas e dos professores.
De resto, nunca é demais sublinhar que a greve é um indicutível direito constitucional, que deve ser respeitado. Dizer que se esteve a trabalhar nesse dia de greve (como certa Alta Figura do Estado fez) e aqui se diz, pode levar-nos a pensar que quem fez greve, possivelmente não o deveria ter feito, dadas as circunstâncias em que vive o país.
Ora não se deve ver as coisa por esse prisma. Se foi, naturalmente, esse o sentido do que se pretendeu dizer.
Resumindo, nada de misturar o que não é para misturar.
Uma coisa é um serviço como o diplomático, outro o de muitas outras profissões, que enfrentam hoje em dia o flagelo do desemprego.
Abraço,
Biscaia

Anónimo disse...

Como eu compreendo o Senhor Embaixador... Folgo em saber que os funcionários mais jovens com quem trabalha continuam a sentir aquele chamamento de acudir a tempo para a mais rápida solução de qualquer assunto, que de contrário iria atrasar a vida de alguém. Isso é trabalho! Vou aproveitar para dizer que com mágua oiço e vejo escrito "colaboradores". É tempo (talvez), de "menos greves" e, da reposição de termos no nosso quotidiano como: TRABALHO; TRABALHADORES e FUNCIONÁRIOS... Colaborar. Se colaborei muitas vezes! Colaborar para mim ainda significa trabalhar sem remuneração. O verdadeiro significado de colaborar implica "não pertencer aos quadros...". Ora bem, de há vinte anos a esta parte foi sendo "moda" colaborar por empreitada...

Anónimo disse...

A função pública tem e terá sempre uma carga ética, pelo que um funcionário público apenas poderá ser probo quando cumprir a tarefa para que foi contratado, ser competente para “esse(s) patrão(ões) diferente(s)” não se avalia só tecnicamente mas também eticamente, pelo que quem não cumpre o que tem de cumprir quando tem de cumprir é incompetente eticamente.

Assim muito me espanta, preocupa-me Senhor Embaixador, que consiga vislumbrar um futuro em que um funcionário público na sua posição possa ter razões para pensar de forma diferente.

De registar que não considero a greve pelos funcionários públicos, como anti-ética, pelo contrário. Considero, sim, que certas funções a cargo de funcionários públicos não permitem eticamente a greve, o que, naturalmente, engloba o governo(com a excepção, meritória, do VI Governo Provisório).

Nuno 371111

Anónimo disse...

... e quando os funcionários públicos - diplomatas ou não - deixarem completamente de entender que uma das suas principais funções é defender o Estado contra os Governos e interesses instalados ou em instalação, não fará mais sentido falar em Serviço Público.

JR

Anónimo disse...

Também acho que não se deve misturar o que não é de misturar .

Trabalhar mais horas ou em dias de descanso sem necessáriamente pedir o correspondente retorno financeiro (mesmo que a ele se tenha direito e muitos o peçam) é uma questão de educação (bases da) e de modos de estar na vida - é um estilo .

Achar que quem ganha melhor já tem que lhe sobre e pode muito bem prescíndir disso (mesmo que outros ao lado que não ganham pior o exijam) é também uma questão de educação (bases da) e de modos de estar na vida - é outro estilo .

Quanto às greves acho que estão em manifesta decadência : reformado não faz greve (e cada vez haverá mais e por mais tempo) , desempregado não faz greve (e cada vez há mais e metade dos postos de trabalho perdidos são difícilmente recuperáveis) , funcionários públicos e afins só irão fazer greve enquanto uma indústria e um comércio - por piores que sejam - criem alguma riqueza que permita manter o e(Estado) das coisas - por melhor que seja.

Que tal uma greve para exigir o lançamento de algumas actividades produtivas eficazes e eficientes (c'est pas la même chose) , que possam ír obstando - já nem digo possam obstar - ao inevitável descalabro do PIB e outras invenções maquiavélicas com que se compram as carcaças ?

Mas isso "logo se vê " .
Desde que "vá recebendo o meu" , claro.

RMG

margarida disse...

Aplauso.

Anónimo disse...

Deduzo portanto que V. Exa. pertence ao número de corajosos a que se referiu Passos Coelho (suponho que ao contrário dos cobardes que fizeram greve).

Carlos Serra

Anónimo disse...


Não fazia a mínima ideia que o ponto de vista de cada trabalhador em determinado momento sobre a utilidade da greve ou não greve fôsse passível de ser aferido pela bitola do PM de serviço na altura .

Mas isto digo eu , que já estive desempregado aos 55 anos e tive que ír fazer pela vida "precária" até aos 65 anos e à reforma - devo ter tido uma vidinha demasiado fácil ...

ARD disse...

"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."

B. Brecht

Francisco Seixas da Costa disse...

Caros comentadores: fazer ou não fazer greve é sempre uma opção pessoal. No meu caso, muito simplesmente, não fiz greve porque entendo que a natureza das tarefas de que estou encarregado justifica que o não faça. Mas longe de mim criticar quem tenha outra opinião e, por isso, outra atitude.

ARD disse...

Bem sei que parece simplista e denode dizer isto mas não me parece que "fazer greve" seja so' uma opção individual.
Veja-se a posição do SG da UGT.

Isabel Seixas disse...

Interessante é a discussão que se desenvolveu. Identifico-me com o comentário do comentador "Biscaia".

Da análise multifatorial que envolve a decisão de fazer ou não greve constato que há maior liberdade de tomada de decisão sem "pressão" dos lideres de opinião ou dos pares.

Constato também que uma razão"forte" apontada para a não adesão é a falta de expressividade dos resultados na melhoria das condições de trabalho e ainda a consequente redução do ordenado.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Nao faca greve ao blogg por favor, de contrario la vamos rever o homonimo filme de Goddard para nao entrarmos em carencia...

'Good night and good luck' aqui de Londres

F. Crabtree