terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A Rússia e o mundo árabe

Muito se tem falado das dificuldades de alguns países do ocidente para encontrarem um modus vivendi com as instáveis decorrências políticas das "primaveras árabes", depois de, durante décadas, terem tido os ditadores derrubados como amigos públicos. E ainda "a procissão vai no adro". O caso líbio absolveu parcialmente as culpas de alguns e a realpolitik, que não tem apenas cultores deste lado, vai fazendo o resto.

Mais intrigante tem sido a posição russa em todo este contexto. A Rússia é um parceiro histórico na região, desde os tempos da União Soviética. Mesmo num período em que a sua debilidade económica era mais notória, o seu estatuto no Conselho de segurança da ONU, bem como as relações que mantinha com certos atores problemáticos da região, justificaram a sua permanente cooptação para os quadros de diálogo, de que o "quarteto" (com os EUA, a UE e a ONU) sobre a questão israelo-palestiniana é caso mais notório.

É sempre interessante acompanhar a linguagem de Moscovo no tocante ao Médio Oriente alargado. Por ela perpassa uma preocupação em evitar a sedimentação de uma presença intrusiva dos países ocidentais nos diversos processos, na tentativa de contrariar o que lhe parece ser um desequilíbro geopolítico que se possa criar em seu desfavor. Esse cuidado é historicamente matizado por algumas notas de adesão, embora frequentemente em moldes algo equívocos, a temáticas tidas como de interesse comum ou já consagradas no "politicamente correto": o combate ao terrorismo, a não-proliferação nuclear, o livre acesso à rotas de fornecimento petrolífero. Sem surpresas, muito menos enfático é o seu apoio ao "empowerment" democrático dos povos árabes e à preservação, sem relativismos culturais, dos direitos humanos.

O caso sírio é aquele onde a posição russa se revela em todo o esplendor da sua ambiguidade. Colocado perante um caso trágico de violência e repressão, num dos cenários onde tem ainda algum "leverage", Moscovo tem vindo a deixar passar os dias e os mortos, numa frieza descredibilizante do seu papel à escala global. O inaceitável "wording" do seu projeto de resolução na ONU, equiparando o que não é comparável - as ações violentas de setores da oposição com a barbaridade da repressão governamental -, revela bem que o poder russo continua tentado por reflexos de meros jogos de poder.

É pena. Por razões de outros grandes equilíbrios à escala global que não vêm para o caso, o mundo precisava de uma Rússia mais aderente e construtiva de uma agenda multilateral e normativa de princípios, que potenciasse a sua influência e se revelasse bastante menos dependente de uma mercantil lógica de fins, evitando a colagem a regimes a que o destino aponta a inexorável direção do caixote do lixo da História. O que se passou, há precisamente duas décadas, em Moscovo, deveria servir de lição. A Moscovo. 

16 comentários:

Catinga disse...

A Rússia é um país triste. É uma força da natureza autofágica e que, por causa disso, não conta para nada nem para ninguém. A única maneira de conseguir influenciar os outros é pondo-se em bicos de pés e ameaçando com a força bruta. Sempre foi assim e, pelos vistos, continuará a ser.

Perdem os Russos e perde o mundo.

Alcipe disse...

Pode ser que as manifestações actuais anunciem mudanças na Rússia que possam fazer com que Moscovo assuma um papel diferente na cena internacional. E seria bem importante neste quadro de emergência dos BRICs, no qual a Rússia tem brilhado pela ausência, com excepção do seu papel chave para as necessidades energéticas da Europa.

Anónimo disse...

A Rússia é a Rússia. Sempre teve a sua própria lógica, a sua forma de defender os seus interesses, nunca foi um país ocidental europeu, tem valores diferentes e uma atitude de estar na política que não coincide com a europeia (ou dos EUA). E com uma dimensão geográfica superior à da Europa no seu todo - o que, só por essa razão já deveria "justificar" certos comportamentos na esfera da política global. Com fronteiras europeias e asiáticas, como com a China. Tudo isto e muito mais faz da Rússia um país com interesses e prioridades muito específicas, diferentes das nossas - europeus. Deixemos a Rússia em paz, entregue aos russos. E o melhor será não a molestar, pelo contrário, manter boas excelentes relações politico-economicas. Afinal, é um dos países, juntamente com o Brasil, em crescimento, no meio deste pantano em que vivemos. O que significa oportunidades de negócios. Aproveitemos pois!

Alcipe disse...

Lembra-se o prezado anónimo das 16.15h que a Rússia fazia parte da coligação que derrotou Napoleão em 1814 (e as tropas russas ocuparam então Paris) bem como da coligação que derrotou Hitler em 1945 (e as tropas russas ocuparam então Berlim) ?

Na próxima oportunidade de negócios que tiver na Rússia diga isto aos seus interlocutores, que eles vão gostar de ouvir.

patricio branco disse...

A russia precisa de se redefinir como grande potência mas não em alinhamento com os eua e nato. Quererá ter um lugar próprio, uma esfera de influência com um peso internacional especifico, como tinha antes quando existia a urss, embora não exactamente o mesmo, geografica e ideologicamente. Faltam-lhe a maioria dos paises de leste, que sairam da sua alçada, bem como cuba e alguns outros por aí espalhados.
Tem suficiente poder militar mas não tanto economico e hoje este é tambem importante para dominar, não é só o outro. E ideologia para exportar e impor não creio que tenha.
Talvez outros factores influam nas posições da russia, o mundo islamico que a rodeia, o terrorismo de que tambem é vitima, a sua situação entre a china e a europa (nato), sei lá.
Deve ser muitas vezes dificil para o governo russo assumir ou definir certas posições, coisa que não era nada para a urss. Talvez definam caso a caso sempre procurando aparentar fortaleza ou tirando dividendos desta ou daquela posição, escolhendo de preferência o teatro do csnu onde permanecem e têm real poder devido ao veto.
É que mesmo internamente, tudo aquilo ainda não está bem definido apesar das 2 décadas.

Helena Oneto disse...

A Russia faz batota a jogar "com Deus e com o diabo". So ha um trunfo no baralho...

Anónimo disse...

Em nome da igualdade de tratamento de todas as religiões, venho pedir que "diabo" seja escrito, também, com letra maiúscula.

Um vosso criado,

Mafah Rikk (demónio menor)

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Здравствуйте товарищи

Что у вас с позиции России. Товарищ Путин уже объявил, что демократия предотвратить пересчет последних выборах - и, как говорят!

Что касается мусульманских стран, но и получить то, чего они заслуживают. Внимание: не скучно, не угрожают нам, даст ездить на большой бассейн, ou seja

Olá camaradas

Que é que vocês têm com as atitudes da Rússia. O camarada Putin, já anunciou que a Democracia impedia a recontagem dos votos das últimas eleições - e está dito!

No que concerne os países muçulmanos, eles também têm o que merecem. Cuidado: não nos chateiem, não nos ameacem, vão dar uma voltinha ao bilhar grande.

Anónimo disse...

Caro embaixador ,
Relativamente à temática deve VExa ficar descansado relativamente à sua sucessão, pois tem aqui nos seus comentadores grandes especialistas de geopolitica.
Não há nada que lhes escape!

OGman

Anónimo disse...

Mafah Rikk, quem o autorizou a vir falar para estes blogues?

a) Lucifer

Director Geral dos Demónios Reunidos, Servo de Satanás

Anónimo disse...

OGman, deixe-os pousar!

a) Haushofer

Anónimo disse...

Lúcifer serve? Ilumine este ponto, por favor.


Mafah Rikk (demónio menor, irrequieto e indisciplinado)

Fada do bosque disse...

ahahahahahah!!!
Isto está demais!!! :) Com tantos diabos e demónios, o Sr. Embaixador anda bem acompanhado! :)

Isso de criticar a Rússia, é no que dá! :) estava-se mesmo a ver... :))

Nunca foi ao Blogue "Da Rússia"?! Eu bem que o avisei! :)

Anónimo disse...

A Rússia é má e feia, mas o que ela é mais é cobiçada. Tem o mais impressionante conjunto de reservas energéticas, tesouros minerais e recursos hídricos do planeta.

Sem patriotas (chamem-lhe nacionalistas, se quiserem) e sem um poder militar dissuasor, a Rússia seria assaltada, saqueada, esquartejada e riscada do mapa, como quase se viu na era do Ieltsin. Se o 'ditador' Putin fosse dócil para os americanos, alemães, ingleses e as grandes multinacionais, já o achariam um grande democrata.

Jon Stewart tem razão: o 'inimigo' é quem os US não conseguem controlar. Excepto talvez no caso da China, em que o problema que se põe é o de os US não virem a ser controlados por ela.

Fritz (the cat)

Anónimo disse...

Fritz, nao exageres que da nas vistas!

a) Djerjinski

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Na Rússia tive um afortunado irmão que visitei. É a carreira.
Mas depois de ler estes comentários todos e do Henrique nos "liquidar" com a sua escrita - cirílico? Onde foste tu buscar um PC com tal teclado- tenho a impressão que me enganei no país. Só não me enganei no irmão!