sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O frio

Há dias, ao passar pela Place da la Nation, aqui em Paris, veio-me à memória um episódio, no mesmo local, sobre a qual já lá vão, quase dia-por-dia, 38 anos.

Era Março de 1971 e eu caminhava distraidamente pela praça, naquele tipo de turismo para quem o simples passeio por Paris era já metade do usufruto da viagem, quando dou de caras com um antigo colega de liceu, que sabia ter saído “a salto” de Portugal, e a quem tinha perdido, por completo, o rasto. Fizemos aquela festa tradicional, típica de dois transmontanos que se prezam. Generoso, convida-me a ir beber uma cerveja à sua casa, ali perto.

Foi-me contando que lavava janelas a partir das 6 da manhã (“não é nada mal pago, sabes? Mas é muito chato ter de sair de casa às 4!”). Em fins de tarde, aproveitava para assistir a uns cursos livres na universidade de Vincennes. Sem mo dizer expressamente, deu-me a entender que era militante de um partido político português na clandestinidade, o que conteve a minha curiosidade inquisitiva sobre o resto da sua vida em Paris.

Subimos ao apartamento onde vivia, uma sala e um quarto, num 4º andar sem elevador, com uma cozinha a meias com um argelino, de cuja área da casa chegava um cheiro a comida pouco apelativo. “O problema é o frio. A casa não tem aquecimento. Temos de pôr aquecedores, mas a electricidade é cara. Às vezes vou para a cama mais cedo, só para me aquecer”. E, num tom mais triste, daquela saudade que a minha presença lhe trazia, acrescentou: “Queres saber uma coisa? Lá em Vila Real, o nosso frio era diferente”.

Pois era. O frio da terra portuguesa, para quem sofria a distância e a tragédia da emigração e do exílio, tinha outro calor.

4 comentários:

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
De Banguecoque um abraço
Felicidades por aí.
Linquei o seu novo blogue aos meus 4:
http://aquitailandia.blogspot.com
http://maquiavelices.blogspot.com
http://maquiavelencias.blogspot.com
http://portugalnatailandia.blogspot.com
Cá virei amiudadas vezes
José Martins

Margarida disse...

Carregando histórias sempre tristes.
Labutaram décadas.
Foram voltando.
Vão regressar.
Aviso: “o frio; este ano o frio…”
Sorriem – contra isso há o amor.

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador só um português sabe distinguir o frio do corpo, daquele que nos enregela a alma. Também na minha metade beirã ou na outra alentejana, cabem saudades do frio de Portugal. E do seu calor excessivo.
O que nos distingue, quando estamos longe, é essa imensa presença da ausência que sentimos!

Helena Sacadura Cabral

Isabel Maria Ruivo Seixas Martins disse...

Não resisto à tentação egocêntrica de auferir do mote. O cenário? O frio da tempestade emocional gerada pela necessidade humana básica de emigrar para subsistir... Em Bornes,1968, a miúda indiferente ao gelo do largo do cruzeiro, corre descalça com as socas nas mãos, atrás da Senhora que foge lavada em lágrimas com a mala.E o eco do grito... Mãaaaaaae perpectua uma memória de dor... de Alma, desse abandono mútuo obrigatório e pungente, de facto Frio.

Gostei: da metáfora do aconchego da presença de um amigo, para mitigar o Frio à carência de afectos...Essencialmente da Sua sensibilidade.
Isabel Seixas